sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O transbordamento de Tiradentes

-- De Tiradentes, Minas Gerais

Meu amigão reclamão Sérgio Alpendre acaba de chegar à sala de imprensa aqui do Centro Cultural Yves Alves falando que o debate de Os Residentes está cheio, abarrotado. “Tiradentes transbordou”.

Estar aqui na mostra mineira é ter a sensação de que o cinema brasileiro aterrizou de vez aqui. Ontem tivemos três longas exibidos na sequência: o de Tiago Machado, Os Monstros e Santos Dumont – Pré-cineasta?. Gosto muito deste último, um documentário que pensa sobre o desejo humano de voar, fisicamente (aí o Santos Dumont) e com a imaginação (aí vem o cinema).

Mas Os Monstros desperta uma conexão afetiva profunda. É difícil encontrar um filme tão terno, de abraços verdadeiros, de coleguismo e amizade impressas na tela. O longa do quarteto vindo da produtora cearense Alumbramento é uma injeção de jovialidade e uma coleção de ironias cinematográficas. Quem viu o verá o filme vai se deliciar com a “cena do Djavan” e “a cena do Daniel”.

Lembro que em 2010, quando Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes, os diretores/atores/roteiristas/produtores apresentaram e ganharam Tiradentes com Estrada para Ythaca, não senti que o filme manteve seu fôlego durante toda a projeção (ou eu não mantive o meu). Já com Os Monstros o filme aconteceu do começo ao fim.

O Cine Tenda esteve cheio para as três sessões – especialmente para Os Residentes e Os Monstros. A cobertura da imprensa aumentou. O público continua na cidade. As áreas de convivência do festival estão cheias.

Tiradentes cresceu mesmo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Saraceni e A Mulher de Todos

-- De Tiradentes, Minas Gerais

Durante a projeção de Porto das Caixas, lindo filme de Paulo Cezar Saraceni, homenageado da Mostra de Tiradentes, pensei muito na relação afetuosa que tenho com outros três filmes: A Mulher de Todos, E Deus Criou a Mulher e Anjo do Mal.

Em Porto das Caixas, uma mulher isolada num fim de mundo decadente, começa a se desesperar para sumir das garras do marido (um bundão de marca maior). À frente da linda Irma Alvarez surge um dono de botequim, um soldadeco e um barbeiro e todos acabam se tornando candidatos a atender o pedido sedutor de Irma: matar o marido.

A fábula do filme (mulher seduz amantes para matar marido) me lembrou a sedutora Candy (Jean Peters) de Anjo do Mal (Pick Up on South Street), filme de 1953 dirigido por Samuel Fueller. Não que na produção de Fueller existam maridos e amantes, mas Candy joga seu charme sobre os homens, engando a todos e praticamente os obrigando a matar uns aos outros.

Pensei também num certo tratamento independente da mulher como no francês E Deus Criou a Mulher. No filme de Roger Vadim, Brigitte Bardot destroi os corações que a perseguem. Em Porto das Caixas, Irma brada “eu não sou de ninguém”. Um sentimento um tanto BB no filme de Saraceni.

Esse mesmo sentimento me fez lembrar, em última instância, de A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla. Linda, deslumbrante e poderosa, Helena Ignez esnoba o boçal personagem de Jô Soares nesse filme irônico.

De maneira alguma Porto das Caixas é um agrupamento de referências, mas durante a bela projeção aqui em Tiradentes fiquei pensando nesses filmes que trazem a mulher comandando os homens.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Christopher Nolan de fora do Oscar (de novo)

Christopher Nolan não é um nome que a Academia leva muito em conta. Acabam de ser anunciados os indicados ao Oscar para a cerimônia de 2011 e o cineasta britânico não figura entre os cinco postulantes ao Oscar de Direção.

Vejam bem, não sou um ultra defensor de Nolan ou de A Origem. Porém, é o segundo ano em que Nolan chega com chances de indicação, mas é ignorado pela Academia. Em 2009, Batman – O Cavaleiro das Trevas foi lembrado tanto pelo PGA, o sindicato dos Produtores, quanto pelo DGA, o dos Diretores – ambos são fortes termômetros para a Academia.

Em ambas as categorias, perdeu para O Leitor – à época, justificava-se a decisão pela resistência a filmes de aventura e ação. Neste ano, A Origem segue entre os dez que brigam pelo Oscar de Melhor Filme, mas Nolan está fora da corrida pela estatueta de Direção (só conseguiu Roteiro). Entram os irmãos Coen pela refilmagem Bravura Indômita.

Na soma das indicações, O Discurso do Rei, britânico que chegou forte no Globo de Ouro, mas praticamente passou em branco (à exceção do prêmio de Melhor Ator a Colin Firth), está presente em 12 categorias. Bravura Indômita foi indicado em 10 categorias e A Rede Social em oito.

Em relação às surpresas, praticamente nenhuma novidade. Nem é possível chamar a troca Nolan-Coen de surpresa, já que os irmãos são habitué do Oscar. Para mim,a maior surpresa é a ausência de Io Sono L'Amore (Eu Sou o Amor), de Luca Guadagnino, entre Filmes em Língua Estrangeira.

Alguns pitacos pontuais:

-- É um exagero a indicação de Foras-da-Lei, do franco-argelino Rachid Bouchareb, em Filme em Língua Estrangeira. É um bom filme, mas inferior a seus trabalhos anteriores, especialmente Dias de Glória.

-- Irrita a obviedade da Academia em relação à Figurino e Direção de Arte. Na primeira, só foram indicados filmes de época ou faroestes. Sutileza zero. Uma indicação como Inverno da Alma representaria um mínimo de ousadia.

-- Falando em Inverno da Alma, fico feliz em ver um filme tão pequeno conseguindo abocanhar indicações a Filme, Atriz (Jennifer Lawrence), Ator Coadjuvante (John Hawkes) e Roteiro Adaptado.

-- Antes de saírem os indicados, apostaria de olhos fechados na estatueta de Ator para Colin Firth. Com a lembrança de Javier Bardem na categoria, o britânico ganhou um concorrente à altura.

-- Desde já, faço lobby para um prêmio a Christian Bale como Ator Coadjuvante por O Vencedor

-- A propósito do filme de David O Russell: Mark Wahlberg pagou o preço da essência de seu personagem, muito discreto em relação a Bale. Resultado: apesar de seu bom trabalho, não foi indicado.

-- Não chegamos ao fim dos tempos: O Mágico (L'Illusioniste) conseguiu resistir ao filtro e ganhou uma indicação a Melhor Animação. Pena que Toy Story 3 deve levar.

-- Por causa dos dúbios critérios de elegibilidade, o trabalho fenomenal de Carter Burwell em Bravura Indômita não foi indicado. O jeito é cruzar os dedos para o gênio francês Alexandre Desplat, que este ano entra por O Discurso do Rei.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Faye Dunaway 2

Já havia feito um breve comentário sobre a aniversariante de hoje, Faye Dunaway, que chega aos 70 anos com um gostinho de que poderia ter prolongado seu estrelato em Hollywood. Aos que gostam da atriz de Chinatown, Bonnie e Clyde, Little Big Man, Mamãezinha Querida, entre outros, publiquei um breve perfil de Faye no Cineclick [link aqui].

Vale lembrar que a partir das 22h, o TCM realiza uma maratona com três produções da atriz: Rede de Intrigas, Bonnie e Clyde e O Campeão (disparado, o mais fraco dos três).

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

As distâncias de O Vencedor e O Lutador

Um dos filmes quentes da temporada pré-Oscar é o drama O Vencedor, de David O. Russell, baseado na vida de Micky Ward, boxeador vindo de uma família neurótica que conseguiu tornar-se campeão do mundo em idade avançada.

Assistir a O Vencedor me vez pensar nas aproximações e diferenças de outro filme aparentemente sobre luta que foi preterido pela Academia há dois anos, O Lutador. Ironicamente, Darren Aronofsky chega a 2011 como um candidato fortíssimo ao Oscar por Cisne Negro.

Aronofsky propôs uma narrativa cíclica sem escapatória para o combalido Randy “The Ram” Robinson, que conseguiu no máximo prolongar sua desastrosa existência. Já O. Russell se dispôs a realizar um filme sobre a segunda chance de um personagem – numa primeira leitura – e, um pouco mais fundo, sobre o quão complicadas são as relações familiares.

Randy é vítima de suas próprias fragilidades e inaptidões. Encarnado por Mickey Rourke, ele se parece com um elefante tentando manusear uma taça de cristal. Destrói o que resta do amor de sua filha e perde a chance de viver com a mulher de sua vida. O que restava, até então, era lutar,honrar o apelido de “O Carneiro” no ringue, mas nem isso a vida lhe permitiu: o corpo o abandona nas horas em que ele precisa, deixando Randy sem o único que ainda fazia sentido.

Já o Micky (isso, sem “e” do “Mickey Mouse”) de O Vencedor sofre com quem está por detrás de sua vida: a família. Se fosse só pelo boxeador, o futuro lhe sorriria. Porém, no meio do caminho, existe um irmão que lhe ensinou tudo, mas hoje é uma âncora a impedir seu crescimento, e uma mãe, que usa Micky como fonte de renda.

Aronofsky é destrutivo, O. Russell é redentor. O primeiro é agressivo, o segundo é tranquilizador. Mas ambos, à sua maneira, fizeram ótimos filmes que parecem se dedicar à luta para falar sobre dramas humanos. O Lutador encerra, O Vencedor prossegue a vida de seus personagens.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A simplicidade dos filmes de Kiarostami

O que mais encanta em Cópia Fiel, o filme novo do Kiarostami que iria estrear aqui em 14 de janeiro, mas teve o lançamento adiado pela Imovision, é sua falsa simplicidade.

Aparentemente, trata-se apenas de uma historinha de amor entre dois adultos que se encontram nas deslumbrantes paisagens da Toscana, Itália. Que ilusão! Enquanto finge falar apenas desse encontro entre Juliette Binoche e William Schimell, Cópia Fiel vai se construindo em camadas que discutem o original/cópia, real/representação, anseios/frustrações. Discute-se questões humanas e das artes, especialmente do cinema.

Mas essa falsa aparência de simplicidade acompanha a obra de Kiarostami há tempos. Um exemplo é o curta-metragem Duas Soluções Para um Problema, filme de 1975, sexto curta do iraniano.

Dois amigos na sala de aula são nos apresentados de maneira didática. Um é Nader, outro é Dara. Dara pegou o livro emprestado de Nader, mas o devolveu amassado. A partir desse evento são quatro minutos de parábola que ilustram, por exemplo, como pequenos e localizados conflitos tornam-se guerras.

Aparentemente simples, didático até, artesanal. Não passam de aparências. Abaixo, a íntegra de Duas Soluções Para um Problema que, assim como muitos outros curtas de Kiarostami, está no YouTube.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Faye Dunaway, 70

14 de janeiro marcará o 70º aniversário de Faye Dunaway, atriz que personificou beleza, poder e personagens que marcaram tanto pela coragem, charme e falta de escrúpulos. Em sua homenagem, o canal TCM exibe três filmes com a atriz a partir das 22h. O primeiro deles é Rede de Intrigas.

É verdade que no filme Faye está espetacular. Afinal, trata-se de uma produção dirigida por Sidney Lumet, conhecido por arrancar grandes performances de seus elencos. A interpretação da atriz é de alto nível, como o é de William Holden, Robert Duval, Beatrice Straight e Peter Finch (os dois últimos premiados com o Oscar, assim como Faye).

Em Rede de Intrigas, Faye é diretora de programação do canal televisivo UBS sedenta para aumentar a audiência a qualquer preço. Como erva daninha convence Hackett (Duval), Howard (Finch) e derruba Max (Holden). É apaixonante sua entrada em cena, desestruturando o que está ao seu redor, fazendo com que todos sigam – ou se submetam – a ela.

Como Lumet trabalha com jogos de poder em seus filmes, dois grupos ideológicos que representam a transformação do jornalismo na televisão nos anos 70. No meio, o decadente apresentador Howard Beale. De um lado, o humano Max, do outro, a máquina Diana (Faye).

Como a super mulher feita de plástico que enxerga a vida como um episódio mal escrito de série televisiva, Faye Dunaway é precisa. Uma atriz do calibre de suas companheiras de geração como Mia Farrow, Ellen Burstyn, Julie Christie (britânica que fez muitos filmes nos EUA), Susan Sarandon, Sissy Spacek e Meryl Streep.

Na maratona do TCM, serão exibidos Rede de Intrigas (22h), Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (0h) e O Campeão (2h15). Falta sentida: Chinatown!