quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A revisão e a televisão: Vamos Fazer um Brinde e Memórias do Chumbo

Vamos Fazer um Brinde, de Sabrina Rosa e Cavi Borges

Não tenho números em mãos, mas guardo a sensação de que a Lei 12.485/11, a Lei da TV Paga, que estabelece uma ocupação, por meio de cotas, do produto audiovisual brasileiro em horário nobre da televisão a cabo, tem surtido efeito na circulação de filmes.

Por um lado, já ouvi relatos de amigos sobre canais que passam subprodutos como os filmes recentes da Xuxa. Por outro, fui solapado pela surpresa de encontrar dois longas produzidos pelo Cavi Borges, carinhosamente apelidado de “Roger Corman brasileiro” por Inácio Araújo (que, com maior precisão, o comparou também ao Galante da Boca do Lixo), ocupando horário nobre.

Ver Vamos Fazer um Brinde e Vida de Balconista no canal Woohoo (que jamais acessara até descobrir que passa filmes brasileiros) foi uma grata surpresa que evidencia o óbvio: filmes antes de escopo restrito encontraram mais uma brecha para circular.

A exibição na televisão me possibilitou a revisão de Vamos Fazer Um Brinde. Por que tive uma reação tão agressiva com o filme na primeira exibição no CinePE em 2011? Na tevê, e num outro contexto, o filme de Sabrina Rosa e Cavi não me pareceu desconjuntado e esburacado como da primeira vez.

Tem falhas, sim. O desnível do elenco é uma delas. Ana Miranda arrasa como a coroa sabichona, Roberta Santiago é um desastre como a namorada arrependida. Há também um problema de diálogos, que flertam demais com o panfleto e as frases de efeito. O próprio espaço do apartamento que abriga a ação do filme poderia ser melhor filmado (a câmera fica caçando o plano ali na hora, no improviso, tateando uma decupagem).

Mas Vamos Fazer um Brinde exala também uma aura de comunhão entre os personagens, de lugar compartilhado, de passado comum que solidifica laços. Na revisão, gostei mais dos eventos banais que ilustram justamente esses laços, tornando uma noite qualquer na noite (a cena da mulher picanha, por exemplo).

Ver e escrever sobre filmes tem disso também. Pelo jeito deixei a insatisfação com a ruim seleção do CinePE do ano passado sobrecarregar a minha relação com Vamos Fazer um Brinde.

***

Para uma pessoa sensata que gosta de futebol e programas esportivos, o trabalho da ESPN é de longe o melhor. Enquanto, grosso modo, o Sportv busca a conciliação, a ESPN faz o embate – o espaço dado para um cara como o Mauro Cezar Pereira ilustra essas intenções. O Linha de Passe é o melhor programa de mesa redonda da televisão brasileira, o Bate Bola o melhor no formato noticiário e opiniões. Mas sem idealizações porque o canal também tem seu momento Maria Vai com as Outras – vide a “notícia” do novo penteado do Neymar dentro do Sportcenter, esse vício de misturar cobertura esportiva e celebridade.

Puxo o assunto futebol para falar da série de quatro documentários que Lúcio de Castro fez sobre as relações entre futebol e ditadura na América do Sul. Memórias do Chumbo – O Futebol Nos Tempos de Condor fala sobre Brasil (Copa de 70), Uruguai (Mundialito de 80), Argentina (Copa de 78) e Chile.

Assisti aos dois primeiros e e um pedaço do chileno. Gostei bastante. Menos do que traz como audiovisual, mais pelo esforço de pesquisa, de mobilizar arquivos fechados ou pouco usados, de tocar em feridas que até hoje são problemáticas (vide a intimação ridícula a Silvio Tendler no caso do esculacho ao torturador). Um material com boa pesquisa e um trabalho sensato de entrevistas. Até no caso brasileiro, do qual estamos mais próximos, há coisas a serem reveladas -- por exemplo, o detalhamento da vigia dos boleiros. Até Afonsinho, possivelmente um dos mais injustiçados personagens do futebol canarinho, fala. Só faltou a série cutucar Zagallo, um dos que atrapalharam, por questões políticas, o caminho do meia de ligação do Botafogo.

Enfim, Memórias de Chumbo – O Futebol Nos Tempos de Condor [saiba mais aqui] merece ser acompanhado com afinco. Não seria o caso de a ESPN realizar uma parceria para lançamento em home video da série?

Em tempo: sobre Afonsinho, duas dicas básicas. Primeiro, Passe Livre, documentário de Oswaldo Caldeira que capta o calor do momento (anos 70); segundo, Afonsinho e Edmundo – A Rebeldia no Futebol Brasileiro, de José Paulo Florenzano, maravilhoso livro – um pouco das ideias do autor podem ser conferidas na matéria que fiz para a edição de abril deste ano para a Revista ESPN sobre o filme (e seu personagem) Heleno.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cinema Brasileiro: 1992-2012

A Erva do Rato, meu filme preferido dentro do Dossiê Cinema Brasileiro: 1992-2012

Recomendação de leitura para o fim de ano: o dossiê Cinema Brasileiro: 1992-2012 que a Revista Interlúdio, da qual sou um dos colaboradores, acaba de publicar.

Um material amplo que envolve tanto os colaboradores fixos quanto críticos convidados. O conteúdo se relaciona com várias frentes.

Para os que gostam de listas, a relação dos filmes preferidos de 51 votantes -- críticos, pesquisadores, jornalistas e professores. Há também um Top 20 dos filmes mais significativos, sendo cada um comentado por um texto.

O dossiê guarda também um conjunto de 12 ensaios sobre os mais diversos aspectos dentro do escopo -- as obras de Eduardo Coutinho, Beto Brant, Karim Aïnouz, Carlos Reichenbach, curta-metragem, horror, blockbuster etc.

Assino os textos sobre Madame Satã e Cinema, Aspirinas e Urubus, 5º e 6º, respectivamente, na minha lista, além de dois ensaios: um sobre a obra de Karim Aïnouz e outro um balanço do curta-metragem no referido período.

Convido vocês à leitura, ao diálogo. Clique aqui para acessar todos os textos.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Hobbit - Crítica

O blockbuster é fonte inesgotável de amaciamento da realidade. Quando os palestinos lutam pelo reconhecimento como Estado, reivindicando o direito à terra, recebem indiferença ou são massacrados por uma situação de guerra absurdamente desigual.


Quando, porém, a luta pela terra é retirada da realidade, tornada fábula do herói por acidente, em que humanos são substituídos por anões, elfos, magos, orcs, anéis, minada em tudo que leva de político, temos um filme como O Hobbit: Uma Jornada Inesperada.

Ignorando esse contexto extra-fílmico, resta o que O Hobbit tem de cinema. Ou seja, sobra quase nada. Peter Jackson dispõe de um arsenal tecnológico de possibilidades subaproveitado pelo excesso de cenas expositivas. O roteiro perde de vista que, em cinema, um personagem se define não pelo que diz, mas pelo que faz. São poucos os momentos em que essa noção sydfieldiana é posta com eficiência em prática.

Continue lendo a crítica de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada na Revista Interlúdio.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Holy Motors - Dossiê na Abraccine

O acasalamento cibernético em Holy Motors

Acaba de entrar no Blog Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) um dossiê reunindo seis textos sobre Holy Motors, de Leos Carax, além de um sobre Os Amantes da Ponte Neuf.

Os escritos sobre Holy Motors foram publicados em três momentos distintos: na primeira exibição em Cannes, na estreia brasileira e após a primeira semana de exibição. Textos com propostas de reflexão e aproximação bastante distintas.

O post está neste link [clique aqui].

Boa leitura.


sábado, 8 de dezembro de 2012

De dentro pra fora: a política

A Fuga da Mulher Gorila

Finalmente assisti ao primeiro longa da Trilogia Coração no Fogo, A Fuga da Mulher Gorila, trazido pela retrospectiva em São Paulo da Semana dos Realizadores [veja programação aqui]. A Alegria e Desassossego completam a trilogia articulada por Felipe Bragança e Marina Meliande.

Ver o primeiro filme ajudou a delinear alguns dos sentimentos esparsos vividos durante a visão (e revisão) de A Alegria. O principal é o incômodo que me causou a ideia de política que os personagens trazem.

Em A Fuga da Mulher Gorila, duas irmãs viajam com uma kombi apresentando um show mambembe da mulher que se transforma em gorila. O sentimento de busca, de imobilidade, de acessar o lúdico (as justaposições das imagens da mão da menina e as luzes de balada) guiam as personagens e o filme, com um leve gosto de melancolia por trás.

À exceção de breves encontros e paradas, as irmãs passam quase todo o filme juntas perdidas na estrada, no mato, em frente ao rio. Mesmo que o rio represente a imensidão a se buscar, elas continuam isoladas.

Situação parecida de A Alegria, em que Luiza e seus amigos ficam quase todo o tempo juntos – também ou no mato ou no apartamento. Ela diz ter um anel que a fará atravessar paredes.

Em ambos, personagens que falam de dentro para dentro, que se protegem com os amigos, mas de pouco embate com o mundo.

Daí o porquê de Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro, me encantar muito mais que os dois longas da Trilogia Coração no Fogo. Pois seus personagens também querem acessar o lúdico e pintar o mundo, mas o faz indo para fora, saindo do espaço de conforto – a inteiração na praça movimentada no Rio de Janeiro, a dança do cais etc.

São nesses momentos que, paralelamente ao aspecto de a companhia de dança do filme ter que se equilibrar em arame farpado para sobreviver, os personagens de Esse Amor que Nos Consome tentam fazer do Rio uma cidade melhor.

A política desse filme me interessa mais que a dos outros dois.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Holy Motors, de Leos Carax - Crítica

A preparação do acasalamento cibernético em Holy Motors

O maior desafio que Holy Motors pede a seu espectador é disposição para percorrer caminhos que não os considerados lógicos, explicáveis e naturais no cinema. Apenas com esse espírito, livre e corajoso, que será possível viver o filme, lidar com ele frontalmente, seja para exaltá-lo ou desmascará-lo.

O alicerce de Holy Motors é inserir-se no próprio cinema, oferecendo, entre as diferentes leituras possíveis, uma interpretação de que aborda, de maneira extasiante, a oportunidade única que o cinema dá de viver outras vidas e histórias que não as nossas, possibilidade compartilhada tanto por quem faz cinema quanto por quem vê cinema: reviver a cada filme, a cada cena, a cada plano, a cada gesto belo.

Mas até mesmo dentro dessa leitura não é aconselhável um olhar cartesiano. Pois essa chance de viver vidas outras pode ser tomada tanto como exaltação das possibilidades do cinema quanto como crítica a uma sociedade virtualizada e de avatares, que adota personagens diversos em diferentes momentos para recuperar o prazer do instante inicial.

Ou seja, se fecharmos uma única leitura do filme, um rio de possibilidades vai passar do lado, imperceptível. Mas não seria essa justamente a graça do cinema e da cinefilia, (re)descobrir um filme a cada revisão? Abrir outros canais de relacionamento com ele, expandindo ou negando os anteriores? Viver um filme além do esgotamento instantâneo do “gostei” ou “não gostei”?

Continue lendo a crítica de Holy Motors na Revista Interlúdio.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Filme da Semana

Filme de Amor, de Julio Bressane

Filme de Amor (2003), de Julio Bressane, um dos grandes longas da última década, lançado em DVD pela Europa Filmes.

Um filme sobre a possibilidade de sonhar num cotidiano hostil, de construir ilhas de proteção para fugir da mediocridade. O sexo é um dos passaportes. A cena dos corpos voadores que tocam as paredes do casarão velho permanecerá eternamente na minha memória cinematográfica.

Um momento bastante feliz não só da carreira de Bressane, mas também do fotógrafo Walter Carvalho.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Semana dos Realizadores: sobre filmes obrigatórios

A Cidade é uma Só?, o filme pop-político de Adirley Queiroz

Pela primeira vez desde 2009, quando foi criada no Rio de Janeiro, a Semana dos Realizadores: Voos do Cinema Brasileiro Contemporâneo aporta em São Paulo. Começa nesta quarta-feira (5/11) com a exibição do bom documentário Doméstica, de Gabriel Mascaro, às 19h no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, em forma de retrospectiva.

Há filmes obrigatórios, especialmente nesse contexto esquizofrênico do circuito exibidor, enxuto, reduzido, que atira certos filmes (especialmente os autorais brasileiros) em algum horário. Alguns dos filmes infelizmente terão sua passagem pelas salas de cinema restritas a festivais.

A Cidade é uma Só?, Estrada Para Ythaca, O Homem que Não Dormia, Praça Walt Disney, As Hiper Mulheres, Doméstica, Eles Voltam, Esse Amor que Nos Consome, Ovos de Dinossauro na Sala de Estar, Na Carne e Na Alma, Dona Sônia Pediu uma Arma para seu Vizinho Alcides, Pacific, Corpo Presente são alguns dos filmes que ilustram caminhos que as várias ramificações da produção brasileira seguem.

No meio da programação haverá debates, dos quais chama a atenção o do dia 12, “O que pode ser hoje um cinema político?”. E um par de aulas ministradas pelos críticos Francis Vogner dos Reis e Luiz Carlos Oliveira Jr., que falarão sobre os diálogos entre os filmes exibidos na Semana nos últimos quatro anos, traçando um contexto amplo que remonta ao começo dos anos 2000.

A programação está no site do CCBB-SP [clique aqui] e da Semana em São Paulo [clique aqui]. Abaixo, links para críticas, resenhas e comentários que escrevi -- publicadas em diferentes momentos veículos e, por isso mesmo, de profundidades distintas -- de alguns dos filmes que passarão na Semana.



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O vilão em 007 – Operação Skyfall

Daniel Craig e Javier Bardem: o jogo do espelho em 007 - Operação Skyfall

Esse 007 – Operação Skyfall coloca outros filmes de ação com supostas pretensões no chinelo – refiro-me a Missão Impossível – Protocolo Fantasma e seus subprodutos.

Na minha preferência, disputa o posto de melhor filme de ação do ano com Os Mercenários 2 – é preciso revê-los para investigar o que sobrevive após o primeiro impacto.

O que me chama mais a atenção é a disposição da vilania. Tal como o Coringa de Batman – O Cavaleiro das Trevas, o personagem de Javier Bardem em 007 – Operação Skyfall é incontrolável. Não é vilão para alcançar o poder ou dinheiro. Nem o capital nem o status o seduzem.

Silva, o vilão, só existe por duas razões: 1) mostrar como a falha não é característica ocasional, mas ontológica ao sistema; 2) servir de espelho para M (Judi Dench) e James Bond (Daniel Craig). Quando os que estão do lado supostamente heroico olham para Bardem não miram algo distante, inalcançável, mas entram em contato consigo, com o que lhe é próximo e interior. Pois do ato heroico ao gesto condenável é um passo. O cabelo loiro de Bardem é, além de componente cômico, uma reafirmação da proximidade dessa linha, de aproximação a Bond.

James Bond, um personagem de incrível vitalidade histórica, não está distante do tempo presente. O tom de 007 – Operação Skyfall reflete um certo lugar comum sobre o estado das coisas pós-11 de Setembro (“inimigo invisível”, “ninguém está seguro”, “as forças do mal nos conhecem profundamente”).

Há outro subtexto que também me interessa: uma volta ao passado como lugar que precisamos conhecer pois ainda pode fornecer respostas ao presente. Na resolução do filme, Bond volta ao lugar onde cresceu guiando uma charmosa caranga antiga do agente secreto e tendo de enfrentar Silva com um aparato rústico (escopeta e bombas improvisadas).

Fico pensando se essa reafirmação do passado como algo ainda relevante não é uma metáfora do próprio cinema nesse momento de transformação tecnológica – leia-se soterramento da película quando ela ainda não estava inteiramente esgotada e sua substituição por um digital que não é consenso.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Em Nome De Deus, de Brillante Mendoza

Os refés e sequestradores do filme de Brillante Mendoza

Os filmes de Brillante Mendoza já me causaram raiva – não por seus temas, mas pela esquizofrenia no trato da câmera. Por isso me surpreendi ao ver Em Nome de Deus (Captive), que ainda resiste em apenas dois horários em São Paulo, ambos no CineSesc.

Mas da raiva fui para outra relação bastante incômoda: a indiferença. O que é bastante estranho para um filme com tiros, pipocos, sobe selva, desce selva, mortos, deterioração física e tudo mais de um filme sobre reféns e sequestradores ambientado na mata.

Aquela câmera que não para quieta, tão típica dos filmes de Mendoza, encaixa-se melhor neste filme. Há um clima de tensão que só faz crescer, investidas constantes do exército atirando contra qualquer um que se move. Então o tal balancê se justifica pelo realismo de Mendoza, em que a ficção precisa ser mais assustadora que a realidade – não atende ao meu gosto, mas não me parece uma escolha inteiramente equivocada.

Depois de duas horas de filme, não saquei o que Mendoza queria afirmar, para além de mostrar, com Em Nome de Deus. Ilustrar o que resta de humanidade (os afetos entre as enfermeiras, a relação da personagem de Isabelle Huppert com Ahamed)? Questionar o desinteresse do Estado para resgatar os reféns? Sobrevoar uma questão de difícil resolução política? Comentar como tem se tornado cada vez mais inseparável a religião da guerra?

Que o filme é OK, correto, com uma noção aguçada de ritmo, isso se atesta, não questiono – mas também isso é obrigação para um diretor alçado num lugar de prestígio por Cannes. Mas o algo a mais, aquilo que causa a permanência do filme, aquilo que vai à realidade para devolver o espectador algo diferente, que exorcize, nem de longe Em Nome de Deus o é.

Por vezes senti que Mendoza fazia um especial de televisão bem produzido, com uma ou outra passagem próxima do cinema.

Filme da Semana

A cena mais frenética de Boy Meets Girl

Boy Meets Girl (1984), de Leos Carax. Aquecimento para a estreia nesta sexta-feira (30/11) de Holy Motors, o novo filme do diretor francês. Para quem se encantou com (500) Dias com Ela e outros filmes hype do gênero "garoto encontra garota", o de Carax é obrigatório porque está a muitas léguas cinematográficas à frente.

No Brasil, nenhum dos três longas de Carax foi lançado em DVD. Porém, estão disponíveis para download em fóruns de compartilhamento -- Making Of, o mais seletivo, e o Kick-ass Torrent. Lá fora, o selo Artificial Eye (publiquei anteriormente que fora a Criterion Collection, mas o Paulo Santos Lima me corrigiu), lançou uma caixa da obra do francês -- é possível adquirir na Amazon.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Homofobia e John Carpenter: Eles Vivem

O impacto de Frank quando põe os óculos e descobre o que está por trás das máscaras

Sábado, 14h da tarde. Manifestação em lembrança do assassinato de Lucas Fortuna, jornalista e militante LGBT morto em Recife por homofobia. Protesto atentando para a urgência em aprovar o PLC 122 [entenda aqui].

Uma hora depois do horário marcado para a concentração, poucas pessoas. Trinta, quarenta talvez. Obviamente um número ridículo dada a importância e urgência do tema. Panfletagem com os pedestres, faixas de “Homofobia mata” mostradas para os motoristas no sinal vermelho.

Fico feliz que ao menos algumas dezenas de pessoas se mobilizaram. Mas bastante melancólico também: para um assunto como esses um pequeno grupo resolveu sair de casa, num sábado à tarde, para falar algo. Do outro lado da avenida, uma bateria de (acho) alguma agremiação de atlética de universidade estava ensaiando. Havia mais gente por lá tirando foto do que do outro lado. Observando o que há de generalização no comentário que segue, esse cenário fala um pouco sobre nós.

Lembro novamente de um dos grandes filmes de John Carpenter, Eles Vivem. Para quem nunca viu o filme, a história: um cidadão descobre uma caixa de óculos com poderes especiais em revelar a manipulação da mídia e da propaganda. A olho nu, vemos num anúncio com uma mulher gostosa; com os óculos, a inscrição “COMPRE”. O cidadão – ironicamente chamado de Nada – passa a lutar desesperadamente para difundir a verdade.

Se quisermos ser mais rigorosos, Eles Vivem é mais do que uma crítica, por meio do cinema de gênero, ao consumismo. É primordialmente anticapitalista porque ataca um dos esteios do sistema – a criação de falsas necessidades.

Mas esse filme do Carpenter serve para ilustrar vários tipos de cegueira, da escolha deliberada em não ver. Quando se põe os óculos causa dor de cabeça, incômodo. E alertar para a importância de estar de óculos é um exercício bastante dolorido. Carpenter, gênio, teve essa percepção e filmou a maravilhosa cena abaixo, quando Nada tenta colocar os óculos no amigo Frank.



***

A edição de 12 de novembro da New Yorker, melhor revista contemporânea de reportagem, publicou um longo artigo sobre a situação das mulheres no Egito pós-Primavera Árabe e a queda de Hosni Mubarak [leia aqui]

Uma bola de neve que torna bastante complicado entender detalhes, avanços e retrocessos. Um trecho:

Eu perguntei para o grupo [de mulheres ativistas] se elas achavam que a participação da mulher na revolução teria mudado a posição delas na sociedade como um todo.
Hana respondeu com cautela. “Nós mostramos para a sociedade através da revolução que nós existimos, que estamos aqui (…)
Perguntei se elas achavam que a revolução havia ajudado as mulheres no Egito. Hana disse que “sim”.
Samar: “Ainda não”.
Badawi: “Certamente não”.

O jornalista Wendell Steavenson faz ainda um panorama das contradições da Irmandade Islâmica, que ensaiou regredir em alguns aspectos da condição feminina – aumento para a idade mínima do matrimônio, criminalização da circuncisão feminina, divórcio sem penalidades, direito sobre o filho após a separação.

Mas um câncer da sociedade egípcia, diz Steavenson, não diminuiu: assédio sexual. “É uma endemia no Egito. Segundo uma pesquisa de 2008, 60% da população masculina admite ter assediado sexualmente uma mulher – e todas as mulheres que conheci no Egito tinham alguma história sobre assédio para me contar”.

Cairo 678 aborda realidade de assédio sexual no Egito

A Imovision lançou um filme que joga luzes no assunto, Cairo 678. São três histórias distintas de mulheres de diferentes classes sociais. Todas são vítimas e respondem aos abusos de maneira distinta.

Uma pena, porém, que o filme embarque numa confusão entre melodrama e linguagem televisiva. Em parte, entendo, é o desespero em sensibilizar, chamar a atenção, sair da obscuridade. Mas não podemos esquecer que o cinema tem um leque de possibilidades para evitar tais tiques.

Mas ao menos Cairo 678 vale de ilustração para a condição da mulher egípcia, retratada na pós-Primavera Árabe pela reportagem da New Yorker.

Textos relacionados:
Cairo 678 - crítica na Revista Interlúdio
John Carpenter: entrevista com o diretor no Valor Econômico

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Filme da semana

Richard Carlson e Bette Davis em Pérfida (The Little Foxes)

Pérfida (The Little Foxes, 1941), um dos grandes filmes de William Wyler. Queria ter encontrado no YouTube a cena em que, no momento que a câmera encontra a personagem de Bette Davis, a iluminação diminui, criando um efeito de negatividade que ela exerce na família.

Segue, então, um pedaço longo. Preste atenção do trecho 0:55 a 1:26.

domingo, 18 de novembro de 2012

Louis Malle e Eduardo Coutinho: o teatro

Tio Vânia em Nova York, de Louis Malle

Eduardo Coutinho permanece como o nome brasileiro mais conhecido entre os que investigaram as possibilidades de o cinema lidar com o teatro para além do registro da peça em imagem, do teatro filmado.

O resultado de Jogo de Cena é consenso, encantou espectadores, seduziu a crítica. Moscou, por outro lado, dividiu, carregando o séquito de defensores e detratores. Justifica-se: é um filme-impasse que versa mais sobre o que há no ator antes de existir, ou melhor, ao lado da existência do personagem que acompanhamos numa encenação. Parte-se do personagem para chegar no ator.

Lançado em 2009, Moscou talvez seja o último filme brasileiro a gerar um debate interessante envolvendo setores distintos. De lá para cá, tivemos uma breve discussão em torno de O Palhaço, se o filme de Selton Mello seria de fato uma alternativa para conciliar cinema e público, arte e bilheteria. Esqueci de algo ou foi só isso?

Moscou, de Eduardo Coutinho

Mas falo de Coutinho para chegar em Louis Malle e seu Tio Vânia em Nova York (Vanya on 42nd Street), programado na retrospectiva do diretor que acontece simultaneamente no CCBB-SP e no Cinusp [programação aqui]. A cópia, aliás, fornecida pela Pandora, está bastante castigada, comendo pedaços de diálogos.

Malle, sabe-se, é bastante versátil no tratamento dos gêneros. Foi da sátira Zazie no Metrô para o erótico Perdas e Danos. Já havia jogado com as fronteiras do ator e personagem em Meu Jantar com André. Mas esse Tio Vânia de Malle não me atrai quase nada.

Especialmente porque, à exceção dos primeiros minutos, quando os atores estão misturados na paisagem da cidade, embaralhando o ponto inicial da peça, o filme se assume um teatro filmado. Decupado, é verdade, mas ainda assim mero registro de temas elementares do texto de Chekhov.



Entre o que Malle fez em 1994 no seu derradeiro filme (morreria em 1995) e Coutinho em 2009, fico com Moscou, pois este bagunça o lugar do espectador.

Para retomar o que o antepenúltimo filme de Coutinho fornece à discussão – viriam ainda Um Dia na Vida e As Canções – vale recuperar alguns textos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Filme da semana

Wadeck Stanczak e Juliette Binoche em clássico de Téchiné

Rendez-vous (1985), de André Téchiné, lançamento de dezembro em DVD pela Lume Filmes. Aguardem texto na próxima edição da Revista Preview.

domingo, 11 de novembro de 2012

MixBrasil: filmes e projeções + Louis Malle no CCBB

A Idade Atômica, atração do MixBrasil, e Os Amantes, da retrospectiva Louis Malle

Cidade que se lembrou há pouco que pode voltar a oferecer amor, São Paulo tem dois eventos cinematográficos fortes acontecendo simultaneamente. Não há tempo para ficarmos com ressaca da Mostra por causa do MixBrasil e da retrospectiva do Louis Malle.

Do segundo, muita coisa em película, apesar do DVD de Perdas e Danos. Malle é daqueles cuja obra carrega um estigma: parece que toda vez que seu nome é citado faz-se necessário acompanhar o adjetivo “polêmico”. Não à toa, o subtítulo da retrospectiva no CCBB é “Versátil e Polêmico”.

A retrospectiva serve de convite para que o véu da polêmica não encubra o seu cinema, especialmente o que ele oferece de erotismo, seja na fase francesa como em Os Amantes, seja na estrangeira – Atlantic City é um dos filmes especiais.

Mas há também o MixBrasil, que chega à 20ª edição. Ainda vejo um quê de milagre na solidez deste festival. Não em 2012, em que as demandas GLBT estão mais às vistas (e a contrapartida negativa é a escalada da homofobia), mas em 1992, ano que ele foi fundado. Ainda não existiam nem Filadélfia nem E A Vida Continua, dois filmes que, apesar do tom trágico, tiram os gays do gueto e os colocam nas portas das casas das famílias.

O MixBrasil tem proporcionado boas descobertas. Caso de Tomboy, um prosseguimento bastante digno da carreira da diretora Céline Sciamma (Lírios D'água) [leia a crítica aqui], ou do ótimo curta Na Sua Companhia, de Marcelo Caetano que circulou por vários festivais em 2012, mas estreou no Mix ano passado [leia a crítica aqui].

Mas como qualquer festival que abra uma janela para a produção, o Mix já trouxe algumas bombas. O que dizer de Do Começo ao Fim ou Homem ao Banho?

Em três dias de festival, assisti a três longas da programação. A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues, que já tinha conferido no Festival do Rio [leia o diário aqui]; Um Homem Adorável, de Teddy Soeriaatmadja. Acompanhar uma história ambientada na Indonésia sobre um pai travesti que recebe a visita da filha foi o que me despertou a curiosidade.

O roteiro é bom. A solução heroica do final também, tal como a relação acidental de afeto desabrocha entre pai e filha. Ou seja, o filme passa perto de ser bom, se não fosse a direção implodir o que estava de pé. Primeiro porque Soeriaatmadja tem um entendimento bastante confuso do melodrama: acha que basta colocar algumas notas no piano, câmera colada e diálogo empolado e pronto. É preciso aprender que isso não é melodrama, mas televisão.

Segundo: a praga da câmera irriquieta. Isso é realmente uma praga! Num momento típico de tableau, pai e filha conversam, abrem o coração, e a câmera balança, bêbada, simplesmente impossibilitando o espectador de apreciar a construção dos atores para chegar em tal estado emocional. Isso se repete durante todo o filme. É medo de que a câmera estática, no tripé, seja vista como falta de ação? Quanto equívoco!

O outro longa que vi até agora no MixBrasil é Idade Atômica, que chegou aos meus ouvidos por recomendação de amigos – após a sessão descobri que havia ganho o Prêmio da Crítica da mostra Panorama do Festival de Berlim. Bem verdade, foi mais interessante a experiência durante o filme do que os pensamentos após a sessão. Ele acaba ali, na sala de cinema.



Mas tem momentos bons, que se não permanecem, ao menos levam o espectador a um estado quase hipnótico. A sequência na boate, com os corpos banhados do azul, do amarelo, do vermelho e do preto da iluminação causam um estranhamento. Ou o subtexto da velada paixão do amigo Rainer por Victor, além do duplo sentido do título – a tal idade atômica pode se referir tanto à adolescência quanto ao contexto de Guerra Fria.

Apreciaria mais os momentos puramente visuais de A Idade Atômica não fosse a projeção sofrível. Imagino que não seja responsabilidade do CineSesc, onde assisti ao filme, já que as exibições da MostraSP em DCP estavam belíssimas – como esquecer as cores vibrantes de Lawrence da Arábia?

Em anos anteriores, a Mostra aceitou filmes com qualidade de imagem horrorosa, vexatória, como Carlos, do Assayas. Neste ano, porém, pairou a sensação de que o festival finalmente levou o problema a sério, tomando as rédeas e melhorando bastante o nível das projeções. Palmas para a Mostra.

O MixBrasil tem de fazer o mesmo: levar o assunto das projeções a sério. Não dá para trazer um filme que aposta na beleza das cenas noturnas, mas exibi-lo numa qualidade que impede o olhar de realmente ver o que está na imagem.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

MostraSP: Uma conversa com Kiarostami

Rin Takanashi, protagonista de Um Alguém Apaixonado

Foi a Mostra que possibilitou ao cinéfilo paulistano conhecer o cinema de Abbas Kiarostami. Lá no fim dos anos 1980, o esforço de Leon Cakoff tornou o diretor iraniano uma figura corriqueira, seja para quem gosta dos filmes que ele faz, seja para os que desgostam (acho difícil desgostar do conjunto da obra de Kiarostami, mas enfim...).

Kiarostami veio à Mostra deste ano para exibir Um Alguém Apaixonado e receber o Troféu Leon Cakoff (antigo Troféu Humanidade) -- ano passado o agraciado foi o também iraniano Mohsen Makhmalbaf. Tive a oportunidade de entrevistar Kiarostami, ao lado dos amigos João Nunes e Paulo Henrique Silva, sobre Um Alguém Apaixonado.

Uma prosa boa, rápida e intermediada pela tradução do também diretor Adel Yaraghi. Algumas frases são interessantes para acessar seu novo filme e aspectos de sua obra -- a narrativa em constante mutação, alterando as premissas iniciais, ponto que Jean-Claude Bernardet desenvolveu com profundidade na série de quinze crônicas publicadas entre a primeira exibição de Cópia Fiel e sua estreia comercial.

A entrevista foi publicada na edição desta quarta-feira (31/10) no Valor Econômico. O conteúdo, porém, só está disponível para assinantes. Um resumo pode ser conferido neste link [clique aqui].

domingo, 28 de outubro de 2012

MostraSP: Laurence Anyways, de Xavier Dolan

Laurence Anyways, de Xavier Dolan, na programação da Mostra de Cinema de São Paulo


Laurence Anyways é filmado como se a câmera fosse embalsamada, antes de cada diária, numa poção de histeria e afetação. Antes mesmo de falar sobre a estabanação no exagero ou da confusão entre poesia e comercial de perfume chique, é preciso começar pelo óbvio: Xavier Dolan filma muito mal, constatação que a duração de Laurence Anyways só torna ainda mais evidente.

Seu jeito de filmar se divide entre Quando Quero Ser Intenso e Quando Quero Ser Poético, ambos desastrosos. No primeiro, a fórmula é colocar dois atores fazendo duelo de diálogos e passar grosseiramente da cara de um para a de outro – com alguns sobre-enquadramentos para refrescar. No segundo, prefere planos abertos ou médios, câmera lenta, figurino bonito, música cool, joias etc – ou seja, Lady Gaga aplicada à gramática cinematográfica

Juntos, enfiados goela abaixo, esse entendimento sobre intensidade e poesia formam um cinema sem nuances. Se em Eu Matei Minha Mãe e Amores Imaginários dava para tapear a caminhada em mão única, em Laurence Anyways o caso é mais sério: a protagonista é um homem que inicia um processo de transexualidade, que se mostra ainda mais rico porque sua orientação sexual é hetero.

Continue lendo a crítica de Laurence Anyways na Revista Interlúdio.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

MostraSP: Miguel Gomes, uma entrevista e um artigo

Tabu, de Miguel Gomes, premiado em Berlim e uma das atrações da Mostra

Miguel Gomes é o cineasta contemporâneo, ao lado de Losnitza, que Mostra Internacional de Cinema de São Paulo decidiu destacar. Uma retrospectiva com seus três longas e seis curtas está em exibição no festival paulistano. Gomes também veio ao Brasil acompanhar e apresentar as sessões de seus filmes.

Figura muito irônica, cujo humor molda boa parte de seus filmes. Tive a chance de conversar com ele não só sobre Tabu, mas sobre o restante da carreira. O texto, aos interessados, foi publicado na edição impressa do Valor Econômico desta quinta-feira (25/10), mas também está disponível na online [leia aqui a entrevista].

Dos vários aspectos interessantes que tocamos, o principal é sobre como Tabu se insere na história do cinema, tornando-se um filme sobre a perda da juventude. Diz ele: "Ele mexe com o aspecto da memória, da juventude do cinema, de quando os espectadores estavam mais disponíveis para acreditar. O cinema foi envelhecendo e, como espectadores, fomos ganhando consciência da coisa e perdendo a inocência."

Além da entrevista, escrevi um artigo sobre o conjunto da obra de Miguel Gomes. Muito do humor bizarro, da liberdade e coerência dramatúrgica, do tom inclassificável de seus longas já estava rascunhado com os curtas. Casos de Kalkitos ou 31 -- este o seu melhor curta. O texto foi publicado na Revista Interlúdio [leia aqui o artigo].

Falando em portugueses, mas saindo de um novato (40 anos) e indo para um veterano (103), O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira, é maravilhoso. Valeu demais sair correndo de uma seção, fazer o trajeto Frei Caneca-Cinesesc em dez minutos e passar 90 minutos sentados no chão -- a sala estava maravilhosamente lotada. Ver um filme do velhinho serve como boa rememoração do que é tempo cinematográfico, enquadramento, atuação, iluminação.

Voltarei a ele mais vezes, talvez com o mesmo espírito que Jean-Claude Bernardet fez com Cópia Fiel, quando publicou dezenas de posts. Só não garanto a mesma qualidade dos textos dele.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Limite, de Mário Peixoto - EM BLU-RAY



Notícia da CriterionCast: Limite, de Mário Peixoto, será lançado em Blu-ray pelo melhor selo de home video do mundo, a Criterion Collection. Provavelmente em 2013. Mais informações neste link.

Sem mais.

Em tempo: quem deu a dica foi Diego Sapia Maia no Facebook.

MostraSP: Rio, de Ryuchi Hiroki

Não dá para perder muito tempo neste post porque é preciso terminar o texto geral sobre a carreira de Miguel Gomes. Mas é o seguinte: amigos me indicaram a ver o Rio por ser do mesmo diretor de Vibrator, um filme bom, segundo eles.

E percebi o seguinte: Tarkóvski está me acostumando mal. Com seus planos estáticos, enquadramentos sublimes e câmera no tripé, à primeira sacudida de câmera de Rio eu me assustei. Coitado do filme, não faz sentido algum trazer Andrei Rublev na cabeça para assistir a Rio. Mas foi involuntário.

A tal câmera na mão se justifica no longuíssimo plano de abertura do filme de Ryuchi Hiroki. Segue-se uma garota de sobretudo vermelho que misteriosamente caminha pelas ruas de Akihabara. O tal plano longo se justifica: trata-se de uma menina em busca.

O filme joga a personagem nas ruas, esbarrando em tipos -- alguns bizarros, outros emotivos. E o filme vai se mantendo numa pegada razoável até a parte final, o desfecho da história. Aí Hiroki leva o seu filme barranco abaixo. É mensagem edificante, penúltimo plano também longo (mas para outro persoangem) porque Hiroki deve ter achado necessário explicitar o fim de um ciclo.

Se não fosse por terminar seu filme de maneira realmente ruim, Rio valeria como uma das dicas para esta Mostra. Fica, então, na cota Risco, caso você não tenha tempo vago na programação.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

MostraSP: O Que se Move, de Caetano Gotardo

A dor, a surpresa e a música em O Que se Move

Antes da crítica, faço uma viva recomendação de que os cinéfilos da Mostra Internacional de São Paulo incluam O Que se Move em suas respectivas programações. Este filme é parada obrigatória.


Domínio do tempo. Clareza sobre o que mostrar ou esconder, dizer ou omitir. Não temer o ridículo e confiança para sustentar em alto nível os voos atrevidos. Essas são características que fazem de O Que se Move uma promissora estreia de Caetano Gotardo (Areia, O Menino Japonês). Digo promissora mesmo, não dessas legitimações apressadas que nós da crítica por vezes nos sentimos tentados a executar.

Não fosse um adjetivo surrupiado muitas vezes para a defesa de um cinema picareta, “sensível” seria a primeira qualidade a se ressaltar no longa. Prefiro, então, concentrar-me na solidez do conjunto, o que falta a bons filmes de estreia vistos neste ano, tais como Boa Sorte, Meu Amor, Eles Voltam e As Horas Vulgares.

Essa solidez está fincada na dramaturgia – outro elemento tão maltratado pelo cinema brasileiro. Há também um trabalho casado de direção e fotografia, posteriormente reforçado na montagem, que evidencia e justifica as escolhas.

Continue lendo a crítica de O Que se Move na Revista Interlúdio.

domingo, 21 de outubro de 2012

MostraSP: Brevíssimas notas sobre O Sacrifício

Tarkóvski dedica o filme a seu filho. Sintomático.

Que Tarkóvksi é a maior atração da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo não há dúvida. Nem precisa ser grande fã dele para constatar isso. A chance de ver seus filmes em película, numa sala de cinema, é algo único.

Pois os filmes de Tarkóvski têm um tempo particular e uma relação dos atores com o espaço e com o texto que encontram na telona e na comunhão tácita da sala de cinema o lugar certo para a apreciação. Melhor: para a fruição.

Deu para sentir isso ontem na sessão de O Sacrifício na Cinemateca. Mesmo sendo na sala Petrobras, que é menor que a BNDES, houve algo mágico. É preciso registrar: palmas para a Mostra e para o filho do Tarkóvski, que trouxeram as cópias em película – com exceção de Nostalgia –, num estado de conservação maravilhoso.

A cena da queima da casa, visto na tela de cinema, é algo estupendo, tal como o desespero de Aleksander em entrar e sair da ambulância, fugir da família, correr em direção à Maria, voltar para a ambulância.

Vi em DVD em casa pela primeira vez. Revê-lo no cinema me fez descobrir outro filme, me fez chegar no clímax em outro estado mental e emocional, mais sólido e sensível.

É por momentos como esse que a Mostra sempre fica na memória de cinéfilos mais velhos ou mais jovens.

Pena que a última sessão de O Sacrifício na Mostra é no Cinusp, na terça-feira, às 16h15, um lugar nem tão simples de chegar.

MostraSP: Cine Holliúdy, de Halder Gomes



Cine Holliúdy (2012), de Halder Gomes


Alguns tentam ser cinema popular (leia-se Família Vende Tudo). Outros genuinamente o são. Este é o caso de Cine Holliúdy, um desavergonhado e cômico escancaramento da precariedade em se fazer cinema no Brasil.

É fácil enxergar a tradição da chanchada na qual o filme, voluntariamente ou não, se insere – esse jeito de fazer comédia que parece imortal, vide o que até a novela Guerra dos Sexos tem tentando executar. Além do quê cômico, Cine Holliúdy fala também do próprio cinema. É este seu aspecto mais interessante.

Num momento de ultrarrealismo cultivado por ágeis avanços tecnológicos, sempre há o choque, para um espectador desavisado, com a precariedade. Já foi assim com Na Carne e na Alma, derradeira obra de Alberto Salvá, repleta de coragem e carente de dinheiro. Invariavelmente será assim durante a trajetória de Cine Holliúdy por festivais e, posteriormente, circuito comercial.

Mas por trás da falta de recursos e da engenharia em se fazer um filme de época, ambientado nos anos 1970 no sertão cearense, existe um potência, um discurso e momentos eficazes. Halder Gomes, que recentemente produziu longas bem ruins como As Mães de Chico Xavier e Bezerra de Menezes, mostra um domínio do tempo e do texto cômico. O dialeto “cearencês” e suas expressões bastante atípicas para quem não vem do Ceará é um convite ao riso.

Continue lendo a crítica de Cine Holliúdy na Revista Interlúdio.

sábado, 20 de outubro de 2012

MostraSP: Ingrid Caven - Música e Voz, de Bertrand Bonello

Ingrid Caven, cantora e atriz de filmes do Fassbinder


Ingrid Caven, Música e Voz (Ingrid Caven, Musique et Voix, 2012), de Bertrand Bonello

Ingrid Caven, Musica e Voz não é um filme, mas um show filmado. As impressões deste texto se guiam por essa constatação: o filme-show corresponde mais a um desejo de Bertrand Bonello em registrar Ingrid no palco e dividir com o mundo essas imagens do que fazer um documentário ou retrato de uma artista. É um registro de urgência, já que Bonello a filmou na última apresentação do Cité de la Musique, em Paris.

Só não é de todo descabido procurar resquícios de filme na peça musical de Bonello porque a protagonista, Ingrid, não só é atriz, mas articula seu show como um pequeno teatro. Ela, muito branca, cabeleira loura, atirada no pretume do palco, fazendo malabarismos com a voz, ora lírica, ora artista de cabaré. Ela sozinha justifica o uso do termo cênico nesse filme-show.

A impressão é que Ingrid é uma personagem saída de Berlim Alexanderplatz. Nos momentos em que ela se entrega  ao calor do palco, há uma vaga lembrança da atmosfera, da volúpia e do desequilíbrio do epílogo da antológica série de Fassbinder.

Continue lendo a crítica de Ingrid Caven - Música e Voz na Revista Interlúdio.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Morre Koji Wakamatsu

Êxtase dos Anjos, de Koji Wakamatsu

Pausa na agenda e comentários sobre filmes da Mostra, em vias de começar. Morreu o japonês Koji Wakamatsu, de Êxtase dos Anjos e Anjos Violados. Uma fatalidade: morreu atropelado, aos 76 anos.

Dos filmes pinku eiga, só vi um, o Êxtase dos Anjos, trazido pelo Indie em 2008 - se não me falha a memória, em 2010 a Mostra trouxe também Caterpillar, que havia competido em Berlim.

Para quem se interessar em conhecer um pouco mais sobre os filmes de Wakamatsu, indico a entrevista que ele deu ao The Hollywood Reporter em 5 de outubro [leia aqui], e um texto (capenga) que escrevi sobre o Êxtase dos Anjos há quatro anos para o Cineclick. [leia aqui] - à época conhecia bem pouco do cinema japonês dos anos 60.

Em tempo: como bem lembrou o amigo Rodrigo Grota no Facebook, Wakamatsu morreu da mesma maneira que Angelopoulos: atropelado.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

MostraSP: Cine Holliúdy e Robocop: o pai que dá o exemplo

Cine Holliúdy, de Halder Gomes, que será exibido na Mostra de Cinema de SP

Buscando na memória as reminiscências da sessão de Cine Holliúdy no Festival de Brasília, me veio a lembrança não só da paixão de Francisgleydisson, o protagonista, pelo cinema, mas seu esforço em dar o exemplo ao filho.

O longa de Halder Gomes será exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, esta é a razão para recuperar o filme na memória. Um filme que merece ser visto por diagnosticar, pela comédia, a precariedade de se fazer cinema no Brasil.

Mas esse aspecto eu deixo para ser comentado no texto da Revista Interlúdio, a ser publicado pela semana – aliás, boa parte da minha cobertura da Mostra estará por lá. A razão do post é a questão dos laços familiares e o exemplo ao filho.

Francisgleydisson briga com o poder da televisão numa cidadezinha (o filme se passa nos anos 1970) e luta para manter seu cineminha aberto. Lá passa filmes de kung-fu em cópias precárias. Cabra arretado, ele persiste num cenário adverso.

Em boa parte pelo amor ao cinema, mas não só. É a necessidade em se fazer exemplo para o filho, dando sustentação real aos sonhos do garoto, que serve também de combustível na travessia de Francisgleydisson. É aí que Cine Holliúdy, uma comédia chanchadeira, e Robocop, obra-prima de ação de Paul Verhoeven, se encontram.

É por saber que o filho tem como herói um policial de seriado que devolve com malabarismo de caubói a arma ao coldre que o também policial Murphy se arrisca a encarar os bandidões sozinho. E paga por isso. Perde não só seu corpo e sua autonomia como ser humano, mas especialmente a família.

Em ambos os filmes, o exemplo paterno é um poderoso subtexto. E ambos também compartilham de narizes torcidos. Robocop porque muitos ainda não conseguem aceitar que filmes de ação também são obras-primas; Cine Holliúdy (que não é uma obra-prima, não exageremos) por parecer fútil e apenas “engraçado” nas suas peripécias.

São filmes que não merecem ficar no limbo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MostraSP: a minha (um rascunho)

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está chegando. Começa quinta-feira com o No, do Pablo Larraín (de Tony Manero e Post Mortem), cineasta que não me desperta muitos amores. Há delícias para se ver este ano, Tarkóvski em tela grande é a principal delas.

Este ano, o clima de Fla-Flu entre o Festival do Rio e a Mostra está mais acirrado – o que entrou lá não veio para cá, à exceção de alguns brasileiros e do Tabu, de Miguel Gomes, que terá uma retrospectiva. O Globo fez uma matéria boa sobre a disputa, acho que foi Carlos Helí quem escreveu.

(um pitaco: acabo de voltar de mais uma edição do Festival do Rio. A cada ano as diferenças de perfis ficam mais nítidas. Se no Rio, por exemplo, faz sentido a crítica ao oba-oba e badalação, especialmente por conta das pré-estreias na Première Brasil, é o evento carioca que tem topado abraçar retrospectivas de autores que ainda precisam brigar por seu quinhão de importância, casos de Argento e Carpenter. Mas um comentário mais apropriado teria de se estender na questão e não é esse o caso deste post).

A impressão é que a programação dos inéditos está menor – o que não é necessariamente prejudicial, já que em muitos anos a Mostra expandiu os filmes exibidos, mas também o número de coisas ruins. Há mais homenagens, retrospectivas e exibições especiais – Tarkóvski, Gomes, Shibuya, Loznitsa. Mesmo assim, temos inéditos que merecem ser conferidos, seja para confirmar que dali não sai nada (Xavier Dolan) ou ir de olhos fechados sabendo que dali sempre sai coisa boa (Manoel de Oliveira).

Abaixo, um rascunho da minha programação com os filmes que pretendo assistir (há ainda lacunas a serem preenchidas) na primeira semana da Mostra -- não incluo os filmes do programa Novos Diretores, que verei também por conta do júri da Abraccine.

A lista prévia fica como dica para quem precisar de uma mãozinha para se organizar no caos (ah, aceito recomendações também!):

– Do Tarkóvski, O Sacrifício, Solaris, A Infância de Ivan, Andrei Rublev

– Do Miguel Gomes, os curtas e A Cara que Mereces. Tabu já assisti no Rio e Aquele Querido Mês de Agosto (do qual ainda gosto mais que Tabu) revi recentemente.

Ingrid Caven, Música e Voz, do Bertrand Bonello. Me parece um filme menor que L'apollonide – Os Amores na Casa de Tolerância, mas estou curioso para ver o olhar de um diretor com forte pegada musical sobre uma cantora/performer.

O Lago Balaton, de Péter Forgács. Perdi sua retrospectiva do CCBB. Ao menos na Mostra verei um filme dele.

O Que Se Move, de Caetano Gotardo. Gosto de seus curtas (à exceção do recente Os Barcos), quero ver como fará a transição para o longa.

Rio, de Ryuchi Hiroki. Não conheço seus filmes, mas este post de Marcelo Ikeda no blog Cineclausofilia me chamou a atenção.

Super Nada, de Rubens Rewald. Acho Corpo um filme regular e Esperando Telê um divertido não-documentário.

O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira. Precisa justificar?

Mar Calmo, de Volker Schlöndorff. Acho que às vezes tendemos a diminuir o valor dos filmes dele.

Headshot, de Pen-Ek Ratanaruang. Recomendação do amigo cinéfilo David Libeskind Sirota.

Reality, de Matteo Garrone. Vamos ver se o diretor de Gomorra é bom mesmo ou só fogo de palha.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

John Carpenter, a entrevista

Eles Vivem, um dos grandes filmes de John Carpenter

Foi publicada nesta terça-feira (2/10) no jornal Valor Econômico a entrevista que fiz com o cineasta John Carpenter (Halloween - A Noite do Terror, Eles Vivem, Fuga de Nova York). Carpenter é homenageado no Festival do Rio com uma retrospectiva com 14 de seus longas. Em parceria com o evento, o CineSesc trará a seleção de filmes para São Paulo.

Respostas breves, mas diretas ao ponto. Carpenter falou sobre sentir-se um outsider, o tom crítico de seus filmes ao Sonho Americano, os personagens que se unem para se proteger de um mau maior, a influência de Howard Hawks na sua cinefilia e por aí vai. O mais divertido é a resposta que me deu quando perguntei como se chamaria um terceiro filme, caso o fizesse, com o personagem Snake Plissken? "Fuga da Terra" foi a resposta.

A entrevista pode ser conferida na versão impressa do Valor Econômico ou neste link [clique aqui].

Textos relacionados:
Sobre filmar sem dinheiro (ou Dark Star)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Palavras Mágicas para Quebrar um Feitiço - Festival do Rio




O gato esquálido, de olhos grandes e assustados, pêlo rareando, caminha em direção ao bando de urubus num descampado. Nesse belíssimo plano está contida uma das poderosas metáforas do pequeno, mas vívido, documentário Palavras Mágicas Para Quebrar um Feitiço, um dos achados do Festival do Rio.

Na leitura do filme, o gato esquálido é apenas sombra do bichano peludo, repleto de vida. O gato é Daniel Ortega Saavedra, líder da revolução que derrubou a ditadura de Somoza na Nicarágua em 1979. Os urubus são a direita retrógrada, a elite conservadora, com a qual Ortega se aliou para voltar à presidência em 2006.

Palavras Mágicas não esconde seu pessimismo. Compara as imagens da Nicarágua atual com as esperanças de trinta anos atrás. Emparelha as manifestações de hoje com as posteriores ao 19 de julho. O diagnóstico é melancólico. O documentário põe o antes salvador contra a parede. Abertamente, trata-se de um filme sobre a falência das esperanças de uma geração.

Continue lendo a crítica de Palavras Mágicas para Quebrar um Feitiço na Revista Interlúdio.

Michael Jackson - Bad 25 - Festival do Rio

Michael Jackson no clímax do documentário exibido no Festival do Rio

Se tentássemos fazer uma leitura da sedução, libido e sensualidade nos trabalhos de Michael Jackson, sairia o seguinte: o eixo do álbum Off The Wall é de alguém que parece entrar na puberdade. Thriller vem de alguém mais maduro, que sabe o que é o amor, mas ainda assim o romantiza – tanto que o videoclipe da música-tema é um namorico de portão. Bad é um álbum de quem descobre a força do sexo, da libido, seja na frontalidade da letra ou na sonoridade e na pegada do arranjo. Um trabalho de tomada de posições, de afirmações.


Pois até meados dos anos 1980 Michael Jackson deslizou e escapou dos conflitos, buscou a parte da sala que o holofote não alcançava. Com Bad o papo é outro: um trabalho todo calcado na exposição. Não apenas no ser, mas no colocar para fora, seja a pulsão sexual (“The Way You Make Me Feel”), a macheza (“Bad”), o contra-ataque à mídia (“Leave me Alone”).

Álbum a álbum, há uma escalada da libido. Bad é o ápice, em que a fruição do masculino forma um híbrido com a performance corporal feminina de Michael. Basta observar os primeiros versos das primeiras canções dos três trabalhos. De “Lovely is the feeling now”, caminha-se para “I said you wanna be starting something” e se chega a “Your butt is mine!”. Um fala de amor, outro de um desejo. O terceiro é a libido posta em ação. Em Bad, discurso é ação.

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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Festival de Brasília - Balanço - O que dizem os jovens?

Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro, um dos filmes que impregnam

Não faltaram filmes que, entre a acomodação e a busca, preferiram a segunda. O que, se olharmos sem romantismos, implica maiores dificuldades, caminhos mais esburacados. Por isso, saímos do Festival de Brasília sem um grande filme. Mas, por favor, não confundam essa afirmação com o que chegou a ser equivocadamente escrito, de que a “45ª edição do evento chega ao fim sem nenhum destaque com força para roubar os holofotes”. Desde quando cinema é ladrão de luz? Não sejamos levianos – ou cegos.


Grosso modo, os que mais instigam, os que ficam na memória, são as produções de realizadores que estrearam no longa de ficção aqui em Brasília. Tal recorte – metade das produções da mostra competitiva era de diretores estreantes – gerou o irônico comentário de que o festival candango havia abocanhado um grupo de filmes que facilmente poderiam estar competindo na Aurora da Mostra de Tiradentes, seleção dedicada a jovens realizadores.

Mas é justamente por conta desse recorte priorizado que o Festival de Brasília retoma seu posto de protagonista no extenso e abarrotado calendário de festivais no Brasil.

Continue lendo o balanço do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Brasília, 3º dia - Dormir com um filme, acordar sem ele (Boa Sorte, Meu Amor, A Mão que Afaga, Otto)

Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão

Parte I – os que ficam


Nem sempre é assim, mas quando acontece é gostoso. Dormir com um filme, acordar com ele e dele se alimentar alguns dias. Após três dias de mostra competitiva, já começa a ficar claro os filmes que ficam, que revisitamos nas memórias, e os que se esvaem.

Ficam, entre os longas, Eles Voltam (mesmo que irregular) e A Memória que me Contam (justamente porque todos seus problemas servem como diagnóstico de uma situação). Antes de “bom” ou “ruim”, são filmes que gostei de ter visto. Ontem foi exibido Boa Sorte, Meu Amor, longa que, na primeira noite dormida com ele, está vivo. Será interessante observar sua imanência.

Daniel Aragão (Não me Deixe em Casa, Solidão Pública) não esconde a pretensão alta de seu filme. E obviamente é complicado manter um primeiro longa no topo, com regularidade em todos os planos, em todas as cenas.

Continue lendo o texto na Revista Interlúdio.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Brasília, 2º Dia - Que país é esse? (A Memória que me Contam, Kátia)

Simone Spoladore em cena de A Memória que me Contam

Algumas coisas não se pode cobrar do cinema de Lúcia Murat (Uma Longa Viagem, Quase Dois Irmãos, Que Bom te Ver Viva). Uma delas é a insistência no assunto dos rastros da Ditadura. É chover no molhado dizer isso, mas quem faz filme parte de um ponto de vista, o seu, e se posiciona no mundo com suas experiências.


E há muito ficou claro que Lúcia tem no cinema a maneira de se manter viva, sobreviver a si mesma – é sabido que, tal como muitos de sua geração, a cineasta foi presa e torturada pela Ditadura Militar, sequela da qual jamais se recupera.

Pode-se cobrar, obviamente, que faça filmes bons. Mas não se pode reclamar de ter sido enganado: quando vamos assistir a um filme de Lúcia Murat já sabemos que estará em discussão o Brasil sob o ponto de vista da geração que lutou contra a truculência militar, uma avaliação de seus méritos/deméritos e invariavelmente uma desilusão com o que se tornou o país (especialmente a questão da esquerda no poder, o cenário pós-Lula).

Talvez mais interessante do que reclamar que é mais do mesmo seria perguntar por que não tocam no assunto com filmes as gerações que não viveram a tortura na pele? Ou de quem viveu aquele momento de maneira diferente, tal como Ugo Giorgetti e seu cinema humanista consegue com Cara ou Coroa? Não residiria a possibilidade de frescor na entrada de outros cineastas, mais jovens talvez, nesta seara?

Continue lendo o relato do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Brasília, 1º dia: A cidade e suas bolhas (Eles Voltam, Câmara Escura, Linear)

Eles Voltam, de Marcelo Lordelo

A imagem-síntese do estado amedrontado em que uma certa classe média brasileira vive está em Recife Frio. Nela, pessoas literalmente brincam dentro de uma bolha gigante, que se parece com o monstrengo de Carpenter em Dark Star. A bolha física está colocada na bolha metafórica na sociedade capitalista contemporânea – o shopping center, substituto artificial dos encontros na praça pública, nas ruas.


Há pelo menos três anos temos assistido a filmes decididos em falar sobre os que vivem dentro da bolha – corrigindo: filmes tem sido produzidos, mas não necessariamente vistos, pois nem sempre eles encontram janelas de exibição além dos festivais.  O maior esforço tem vindo de Pernambuco em filmes que entre o panfleto e a ironia, preferem a segunda.

Eles Voltam e Câmara Escura, dois dos filmes da primeira noite da mostra competitiva do Festival de Cinema de Brasília articulam essa questão de maneira mais explícita, mas Linear, uma animação paulistana, também pode facilmente ser chamada para a conversa.

Continue lendo sobre o primeiro dia do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

Brasília, noite de abertura

A Última Estação, de Marcio Curi


Esse fenômeno lança alguma luz sobre a ambiguidade das posições do crítico brasileiro frente à produção cinematográfica de seu país. O filme nacional é um elemento perturbador para o mundo, artificial mas coerente, de ideias e sensações cinematográficas que o crítico criou para si próprio. Como para o público ingênuo, o cinema brasileiro também é outra coisa para o intelectual especializado. Atacando com irritação, defendendo para encorajar, ou norteado pela consciência de um dever patriótico, o crítico deixa transparecer sempre o mal-estar que o impregna. Todas essas posições, particularmente o sarcasmo demolidor, são véus utilizados para esconder o sentimento mais profundo que o cinema nacional suscita no brasileiro bem formado — a humilhação.

Algumas das ideias que Paulo Emílio Salles Gomes solidificou sobre o cinema brasileiro e seu estado subdesenvolvido, publicadas entre o começo dos anos 1960 até 73, data do seminal ensaio Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, ficaram datadas. Outras, pelo contrário, mostram-se de uma atualidade cruel. Uma delas é o desconforto em lidar com a precariedade do cinema nacional – apesar do falacioso entusiasmo momentâneo provocado ou pela presença em festivais internacionais, no campo da legitimidade, ou no volume de recursos nos editais, no campo da produção.

Paulo Emílio será constantemente evocado nesta edição do Festival de Cinema de Brasília, a 45ª, por ser um dos eixos do evento – a atualidade de seu pensamento deverá nortear as discussões. É preciso lembrá-lo não só para completar o hiato da trajetória do cinema brasileiro nos últimos quarenta anos, mas para clarificar onde a crítica entra na problematização de uma cinematografia. Aí entra o mal-estar da crítica, a posição ambígua do crítico e o longa de abertura, A Última Estação.

Continue lendo o texto sobre a abertura do Festival de Cinema de Brasília na Revista Interlúdio.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Em Brasília

Brasília, a terra que não chove

-- Brasília --

Do calor e falta de chuva de São Paulo para o calor e a falta de chuva de Brasília. Cá estou para mais um Festival de Cinema de Brasília: esta é a 45ª edição e os textos mais elaborados, em forma de diário, ficam para a cobertura na Revista Interlúdio [leia aqui a página de festivais].

De tudo que aconteceu na abertura ontem, uma coisa me chamou atenção, mais até do que A Última Estação, o longa que iniciou os trabalhos: o Secretário de Estado de Cultura, Hamilton Pereira da Silva.

Normais são as participações de políticos, discursos inflados etc. Até aí nada demais, Brasília é igual a Tiradentes, que é igual a Recife. Não conheço de perto o trabalho dele, mas fiquei com um pé atrás ao ouvir alguém da plateia protestando contra o que chamou de não desvio dos recursos do FAC.

Me chamou atenção o tom inadequado, oficioso além da conta, enaltecendo o cinema, mas aparentemente distante dele. Aí eu entendi o que pegou: a pessoa que vi subindo no palco é muito, mas muito semelhante ao personagem comunista do grande filme de Ugo Giorgetti, Cara ou Coroa.

Está lá o personagem, no filme, do diretor de teatro falando de vanguarda, de arte e tal, mas esbarra no entendimento burocrático que o membro do partidão tem acerca da cultura, sua função para o povo. Mais conversa sobre a vanguarda, o Living Theater, a juventude, o trabalho de corpo. Mas o burocrata não entende, só quer saber de algo: vai ou não vai funcionar para a conscientização política a tal peça de teatro que o diretor está montando?

Vendo o secretário ontem -- que, repito, não acompanho o trabalho de perto -- pensei no filme de Giorgetti. Mesmo se passando em 1971 o delineamento que ele faz de certos personagens é tão preciso que permite essa conversa rápida entre o ontem e o hoje.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sobre Cosmópolis (ou o drible de Cronenberg)

Robert Pattinson, o bilionário amortecido

Cosmópolis, o novo de Cronenberg, é o que mais desafia o lugar confortável do espectador entre os longas que estrearam no Brasil neste ano de 2012.

Não que seja este um filme cifrado, hermético, apenas para os iniciados e aprofundados nos códigos do cinema. É, sim, um filme que pede uma saída do lugar passivo – aquele no qual a pessoa espera o filme acontecer – para ir em direção a ele, fazendo, assim, com que ele aconteça.

Há um objetivo inicial do personagem principal, Erick Packer – cortar o cabelo. Mas cada cena constitui uma unidade que tem de se resolver (e se resolve) sozinha. Individualmente provocam um gozo. Juntas formam o mosaico de Erick – e, em última instância, do capitalismo moderno, da especulação financeira, do dinheiro que faz dinheiro, do anestesiamento de tudo que não seja o poder.

Como notou Sergio Alpendre no texto para a Revista Interlúdio [leia aqui a crítica], Cronenberg usa a canastrice de Robert Pattinson a favor de um filme que não usa um registro naturalista. E isso obviamente causa um incômodo a quem entende cinema como sinônimo de imitação da vida, de aposta na ideia da continuidade – acho que Trabalhar Cansa, com pretensões distintas das de Cronenberg, também passou pelo preconceito das “interpretações artificiais”.

Não vale ficar aqui citando todas as cenas do filme, suas possíveis leituras. Ou destacar este ou aquele diálogo num filme cujo encantamento depende demais do texto. Nem há sentido em apenas descrever os procedimentos para um espectador que ainda não viu o filme.

Isso eu deixo para os grandes como o Inácio Araújo, que com sua conhecida habilidade em dar conta da passagem da leitura do filme ao texto crítico, como vê-se nesta crítica aqui.

E uma recomendação viva para que você veja Cosmópolis, o filme do homem-limusine, antes que ele seja chutado das salas.

Um texto mais sério fica para quando o filme sair em DVD.