sábado, 20 de outubro de 2012

MostraSP: Ingrid Caven - Música e Voz, de Bertrand Bonello

Ingrid Caven, cantora e atriz de filmes do Fassbinder


Ingrid Caven, Música e Voz (Ingrid Caven, Musique et Voix, 2012), de Bertrand Bonello

Ingrid Caven, Musica e Voz não é um filme, mas um show filmado. As impressões deste texto se guiam por essa constatação: o filme-show corresponde mais a um desejo de Bertrand Bonello em registrar Ingrid no palco e dividir com o mundo essas imagens do que fazer um documentário ou retrato de uma artista. É um registro de urgência, já que Bonello a filmou na última apresentação do Cité de la Musique, em Paris.

Só não é de todo descabido procurar resquícios de filme na peça musical de Bonello porque a protagonista, Ingrid, não só é atriz, mas articula seu show como um pequeno teatro. Ela, muito branca, cabeleira loura, atirada no pretume do palco, fazendo malabarismos com a voz, ora lírica, ora artista de cabaré. Ela sozinha justifica o uso do termo cênico nesse filme-show.

A impressão é que Ingrid é uma personagem saída de Berlim Alexanderplatz. Nos momentos em que ela se entrega  ao calor do palco, há uma vaga lembrança da atmosfera, da volúpia e do desequilíbrio do epílogo da antológica série de Fassbinder.

Continue lendo a crítica de Ingrid Caven - Música e Voz na Revista Interlúdio.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Morre Koji Wakamatsu

Êxtase dos Anjos, de Koji Wakamatsu

Pausa na agenda e comentários sobre filmes da Mostra, em vias de começar. Morreu o japonês Koji Wakamatsu, de Êxtase dos Anjos e Anjos Violados. Uma fatalidade: morreu atropelado, aos 76 anos.

Dos filmes pinku eiga, só vi um, o Êxtase dos Anjos, trazido pelo Indie em 2008 - se não me falha a memória, em 2010 a Mostra trouxe também Caterpillar, que havia competido em Berlim.

Para quem se interessar em conhecer um pouco mais sobre os filmes de Wakamatsu, indico a entrevista que ele deu ao The Hollywood Reporter em 5 de outubro [leia aqui], e um texto (capenga) que escrevi sobre o Êxtase dos Anjos há quatro anos para o Cineclick. [leia aqui] - à época conhecia bem pouco do cinema japonês dos anos 60.

Em tempo: como bem lembrou o amigo Rodrigo Grota no Facebook, Wakamatsu morreu da mesma maneira que Angelopoulos: atropelado.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

MostraSP: Cine Holliúdy e Robocop: o pai que dá o exemplo

Cine Holliúdy, de Halder Gomes, que será exibido na Mostra de Cinema de SP

Buscando na memória as reminiscências da sessão de Cine Holliúdy no Festival de Brasília, me veio a lembrança não só da paixão de Francisgleydisson, o protagonista, pelo cinema, mas seu esforço em dar o exemplo ao filho.

O longa de Halder Gomes será exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, esta é a razão para recuperar o filme na memória. Um filme que merece ser visto por diagnosticar, pela comédia, a precariedade de se fazer cinema no Brasil.

Mas esse aspecto eu deixo para ser comentado no texto da Revista Interlúdio, a ser publicado pela semana – aliás, boa parte da minha cobertura da Mostra estará por lá. A razão do post é a questão dos laços familiares e o exemplo ao filho.

Francisgleydisson briga com o poder da televisão numa cidadezinha (o filme se passa nos anos 1970) e luta para manter seu cineminha aberto. Lá passa filmes de kung-fu em cópias precárias. Cabra arretado, ele persiste num cenário adverso.

Em boa parte pelo amor ao cinema, mas não só. É a necessidade em se fazer exemplo para o filho, dando sustentação real aos sonhos do garoto, que serve também de combustível na travessia de Francisgleydisson. É aí que Cine Holliúdy, uma comédia chanchadeira, e Robocop, obra-prima de ação de Paul Verhoeven, se encontram.

É por saber que o filho tem como herói um policial de seriado que devolve com malabarismo de caubói a arma ao coldre que o também policial Murphy se arrisca a encarar os bandidões sozinho. E paga por isso. Perde não só seu corpo e sua autonomia como ser humano, mas especialmente a família.

Em ambos os filmes, o exemplo paterno é um poderoso subtexto. E ambos também compartilham de narizes torcidos. Robocop porque muitos ainda não conseguem aceitar que filmes de ação também são obras-primas; Cine Holliúdy (que não é uma obra-prima, não exageremos) por parecer fútil e apenas “engraçado” nas suas peripécias.

São filmes que não merecem ficar no limbo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MostraSP: a minha (um rascunho)

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está chegando. Começa quinta-feira com o No, do Pablo Larraín (de Tony Manero e Post Mortem), cineasta que não me desperta muitos amores. Há delícias para se ver este ano, Tarkóvski em tela grande é a principal delas.

Este ano, o clima de Fla-Flu entre o Festival do Rio e a Mostra está mais acirrado – o que entrou lá não veio para cá, à exceção de alguns brasileiros e do Tabu, de Miguel Gomes, que terá uma retrospectiva. O Globo fez uma matéria boa sobre a disputa, acho que foi Carlos Helí quem escreveu.

(um pitaco: acabo de voltar de mais uma edição do Festival do Rio. A cada ano as diferenças de perfis ficam mais nítidas. Se no Rio, por exemplo, faz sentido a crítica ao oba-oba e badalação, especialmente por conta das pré-estreias na Première Brasil, é o evento carioca que tem topado abraçar retrospectivas de autores que ainda precisam brigar por seu quinhão de importância, casos de Argento e Carpenter. Mas um comentário mais apropriado teria de se estender na questão e não é esse o caso deste post).

A impressão é que a programação dos inéditos está menor – o que não é necessariamente prejudicial, já que em muitos anos a Mostra expandiu os filmes exibidos, mas também o número de coisas ruins. Há mais homenagens, retrospectivas e exibições especiais – Tarkóvski, Gomes, Shibuya, Loznitsa. Mesmo assim, temos inéditos que merecem ser conferidos, seja para confirmar que dali não sai nada (Xavier Dolan) ou ir de olhos fechados sabendo que dali sempre sai coisa boa (Manoel de Oliveira).

Abaixo, um rascunho da minha programação com os filmes que pretendo assistir (há ainda lacunas a serem preenchidas) na primeira semana da Mostra -- não incluo os filmes do programa Novos Diretores, que verei também por conta do júri da Abraccine.

A lista prévia fica como dica para quem precisar de uma mãozinha para se organizar no caos (ah, aceito recomendações também!):

– Do Tarkóvski, O Sacrifício, Solaris, A Infância de Ivan, Andrei Rublev

– Do Miguel Gomes, os curtas e A Cara que Mereces. Tabu já assisti no Rio e Aquele Querido Mês de Agosto (do qual ainda gosto mais que Tabu) revi recentemente.

Ingrid Caven, Música e Voz, do Bertrand Bonello. Me parece um filme menor que L'apollonide – Os Amores na Casa de Tolerância, mas estou curioso para ver o olhar de um diretor com forte pegada musical sobre uma cantora/performer.

O Lago Balaton, de Péter Forgács. Perdi sua retrospectiva do CCBB. Ao menos na Mostra verei um filme dele.

O Que Se Move, de Caetano Gotardo. Gosto de seus curtas (à exceção do recente Os Barcos), quero ver como fará a transição para o longa.

Rio, de Ryuchi Hiroki. Não conheço seus filmes, mas este post de Marcelo Ikeda no blog Cineclausofilia me chamou a atenção.

Super Nada, de Rubens Rewald. Acho Corpo um filme regular e Esperando Telê um divertido não-documentário.

O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira. Precisa justificar?

Mar Calmo, de Volker Schlöndorff. Acho que às vezes tendemos a diminuir o valor dos filmes dele.

Headshot, de Pen-Ek Ratanaruang. Recomendação do amigo cinéfilo David Libeskind Sirota.

Reality, de Matteo Garrone. Vamos ver se o diretor de Gomorra é bom mesmo ou só fogo de palha.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

John Carpenter, a entrevista

Eles Vivem, um dos grandes filmes de John Carpenter

Foi publicada nesta terça-feira (2/10) no jornal Valor Econômico a entrevista que fiz com o cineasta John Carpenter (Halloween - A Noite do Terror, Eles Vivem, Fuga de Nova York). Carpenter é homenageado no Festival do Rio com uma retrospectiva com 14 de seus longas. Em parceria com o evento, o CineSesc trará a seleção de filmes para São Paulo.

Respostas breves, mas diretas ao ponto. Carpenter falou sobre sentir-se um outsider, o tom crítico de seus filmes ao Sonho Americano, os personagens que se unem para se proteger de um mau maior, a influência de Howard Hawks na sua cinefilia e por aí vai. O mais divertido é a resposta que me deu quando perguntei como se chamaria um terceiro filme, caso o fizesse, com o personagem Snake Plissken? "Fuga da Terra" foi a resposta.

A entrevista pode ser conferida na versão impressa do Valor Econômico ou neste link [clique aqui].

Textos relacionados:
Sobre filmar sem dinheiro (ou Dark Star)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Palavras Mágicas para Quebrar um Feitiço - Festival do Rio




O gato esquálido, de olhos grandes e assustados, pêlo rareando, caminha em direção ao bando de urubus num descampado. Nesse belíssimo plano está contida uma das poderosas metáforas do pequeno, mas vívido, documentário Palavras Mágicas Para Quebrar um Feitiço, um dos achados do Festival do Rio.

Na leitura do filme, o gato esquálido é apenas sombra do bichano peludo, repleto de vida. O gato é Daniel Ortega Saavedra, líder da revolução que derrubou a ditadura de Somoza na Nicarágua em 1979. Os urubus são a direita retrógrada, a elite conservadora, com a qual Ortega se aliou para voltar à presidência em 2006.

Palavras Mágicas não esconde seu pessimismo. Compara as imagens da Nicarágua atual com as esperanças de trinta anos atrás. Emparelha as manifestações de hoje com as posteriores ao 19 de julho. O diagnóstico é melancólico. O documentário põe o antes salvador contra a parede. Abertamente, trata-se de um filme sobre a falência das esperanças de uma geração.

Continue lendo a crítica de Palavras Mágicas para Quebrar um Feitiço na Revista Interlúdio.

Michael Jackson - Bad 25 - Festival do Rio

Michael Jackson no clímax do documentário exibido no Festival do Rio

Se tentássemos fazer uma leitura da sedução, libido e sensualidade nos trabalhos de Michael Jackson, sairia o seguinte: o eixo do álbum Off The Wall é de alguém que parece entrar na puberdade. Thriller vem de alguém mais maduro, que sabe o que é o amor, mas ainda assim o romantiza – tanto que o videoclipe da música-tema é um namorico de portão. Bad é um álbum de quem descobre a força do sexo, da libido, seja na frontalidade da letra ou na sonoridade e na pegada do arranjo. Um trabalho de tomada de posições, de afirmações.


Pois até meados dos anos 1980 Michael Jackson deslizou e escapou dos conflitos, buscou a parte da sala que o holofote não alcançava. Com Bad o papo é outro: um trabalho todo calcado na exposição. Não apenas no ser, mas no colocar para fora, seja a pulsão sexual (“The Way You Make Me Feel”), a macheza (“Bad”), o contra-ataque à mídia (“Leave me Alone”).

Álbum a álbum, há uma escalada da libido. Bad é o ápice, em que a fruição do masculino forma um híbrido com a performance corporal feminina de Michael. Basta observar os primeiros versos das primeiras canções dos três trabalhos. De “Lovely is the feeling now”, caminha-se para “I said you wanna be starting something” e se chega a “Your butt is mine!”. Um fala de amor, outro de um desejo. O terceiro é a libido posta em ação. Em Bad, discurso é ação.

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