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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ata-me! ou A Pele que Habito - Parte 3

Assim como A Pele que Habito, Ata-me! (1990) é uma história de amor. Mas também como muitos outros filmes de Almodóvar, o amor nem sempre é compartilhado pelas duas partes, ou melhor, passa por outros gestos bem menos nobres. A tortura, a prisão, o jogo de força e poder são alguns deles.

Ata-me! é legitimamente “um filme de Pedro Almodóvar”, uma daquelas histórias que viramos e dizemos: só ele poderia contá-la. Como chamá-lo, senão de inusitado, esse conto de fadas cômico-melodramático que começa com um crime, o sequestro da atriz Marina (Victoria Abril)?

Como os grandes autores no cinema, Almodóvar faz sempre o mesmo filme, com pequenas variações. A essência é a mesma: as ferramentas do cinema de gênero servem a um realizador cioso por dar um tapa na cara da sociedade (com charme, é claro). O tapa, em Ata-me!, é uma moça “respeitável” (a atriz) apaixonar-se por um seqüestrador amoral (Antonio Banderas, quando ainda queria ser ator de verdade, não um burocrata da atuação).

Nesse conto de fadas elegante, está em jogo não só o amor, mas também o cinema. Temos o longa que nos é mostrado e, dentro deste, outro que está sendo rodado, protagonizado por Marina Osorio e dirigido por Máximo Espejo (Francisco Rabal). Um filme de terror comandado por um diretor outrora respeitado, hoje paraplégico e decadente, filmando apenas pela ajuda dos amigos (quase como a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses).

Todo o conteúdo humanista de Ata-me não está na belíssima e brega sequência final ou nos movimentos de câmera que ganham classe com a música de Ennio Morricone. O esforço humano de sair da perspectiva egoísta e colocar-se no lugar do outro está na cena em que Máximo, na cadeira de rodas, devora sua atriz-fetiche na tela de TV.

Sua mulher o espreita, mas não diz nada. Cala-se e entende. Como julgar um homem que não consegue mais fazer o que deu sentido à sua vida: dar vazão ao desejo e fazer cinema?

Mais do que no amor da atriz pelo sequestrador, Ata-me! representa o caráter humanista do cinema de Almodóvar nessa cena em que Máximo devora a imagem de sua atriz.

Não é coincidência que esse plano vá reverberar num dos planos mais bonitos de A Pele que Habito, na qual Antonio Banderas, cirurgião psicótico e traumatizado, imagina o sexo com sua cobaia, Vera, apenas mirando-a por uma imensa televisão.

Leia mais: A Pele que Habito é a maior frustração de 2011
Leia mais2: Maus Hábitos e o lado traiçoeiro do amor

sábado, 24 de setembro de 2011

Maus Hábitos ou A Pele que Habito - Parte 2

Acima do tom cômico, Maus Hábitos (Entre Tinieblas, 1983) é um filme sobre a fascinação do mal.

Esta, porém, é apenas um lado da moeda. Do outro, está o amor como dependência e abuso que dela convém. Esta é a natureza das personagens do quarto longa de Almodóvar: fascinadas pelo mal ou pelo pecado, mas também víboras que usam o amor do outro como chantagem. Freiras dúbias de nomes esquisitos – Irmã Esterco é uma delas.

A fascinação pelo mal e a chantagem da do desejo é uma dualidade que acompanharia o cinema do espanhol por muito tempo. Mais recentemente, reverberou em Má Educação (o padre que abusa de uma criança que, quando adulta, extorque o religioso, sedento de amor) e A Pele que Habito, seu filme mais recente que chega ao Brasil em novembro.

Maus Hábitos é um grande momento da carreira de Almodóvar, ainda em sua fase anarco-punk, que dura mais ou menos até 1984 com Que Fiz Eu Para Merecer Isto?. É o período que mais me seduz de seu cinema, dos tipos underground e viciados, inversão absurda dos valores, amoralidade no tratamento de temas clássicos, ares meio cafajeste.

É um momento em que ele investe muito numa postura iconoclasta. Como definir, senão assim, um filme que coloca a madre de um convento como uma viciada em heroína que mantém retratos de “pecadoras” (Brigitte Bardot entre elas) em seu escritório? Ou uma freira que, de tanto tomar ácido, vê a realidade adulterada em cores? Ou outra freira futriqueira que descobriremos ser autora de romances policialescos baratos?
Link
Mesmo nesse cenário caótico, o desejo e o amor é quem mandam, e Almodóvar não tem perde o juízo. Luc Moullet, crítico francês e cineasta, do qual já falei nesse post aqui, definiu: “A moral é uma questão de travelling”. Godard, na época de crítico, inverteu e fez uma provocação: “O travelling é uma questão de moral”.

Sendo um ou outro, Pedro Almodóvar parece estar 100% consciente das decisões morais e de julgamento num mero movimento de câmera. No belíssimo plano final, quando compartilhamos da imensa dor de uma personagem, a câmera se afasta com profundo respeito.

Maus Hábitos é mais um exemplo de como A Pele que Habito deu errado. Ambos se dedicam a falar dos dois lados de uma moeda. A diferença é que em 1983 estava muito claro para o realizador qual era o tom que pretendia dar a seu filme. Em 2011, não está.

Em tempo: abaixo, uma grande cena do filme:

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Pele que Habito, um filme de Almodóvar?

A prova cabal de que algo andou muito mal em A Pele que Habito está numa cena envolvendo a grande Marisa Paredes. À beira de um fogaréu ateado para queimar as provas de um crime, a atriz, encarnada da empregada Marília, conta a Vera uma desgraça que ocorrera anos antes naquela casa.

Nesta sequência de delicada execução e emotivo conteúdo, tinha-se uma grande atriz, a diva destrutiva de Tudo Sobre Minha Mãe. A cena começa e a câmera se aproxima vagarosamente fazendo um movimento lateral. A linda labareda ilumina os rostos dessas duas mulheres tão diferentes naquela noite. Quando, enfim, o plano começa a surtir efeito e sua emoção transparece, Almodóvar o interrompe para realizar um flashback completamente desnecessário.

Isso resume o filme: uma série de escolhas desnecessárias que resultam num conjunto equivocado que, apesar de já nos créditos anunciar “Um Filme de Almodóvar”, parece não ser um filme do grande realizador espanhol autor de algumas obras-primas desde os anos 80. Não faltam os códigos que sedimentaram seu estilo como a reviravolta do enredo, tons melodramáticos, personagens obsessivos etc.

Existe um pacto fundamental entre o tipo de adesão pedida por um filme de Almodóvar e o espectador. Dotado de sensibilidade única, ele vai ao mundo e o observa, devolvendo para nós a construção desse olhar. Nessa operação, o ignóbil (a paixão do estuprador Agrado em Fale Com Ela) torna-se lindo; o que merecia ser julgado (o crime e a mãe de Volver) é compreendido; o nobre (o amor de um homem em Carne Trêmula) revela-se podre e escuso; um ato criminoso (o sequestro de Ata-me) é observado numa ótica charmosa.

Por que? Porque o nível de identificação é tremendo, sempre vamos e voltamos, nos aproximamos e tomamos distâncias. Nos colocamos no lugar desses personagens, o que não nos permite adotar uma postura superior e arrogante. Nos enternecemos e solidarizamos. Nos identificamos. Somos eles.

Não dá para acreditar no cirurgião plástico e sua “cobaia” em A Pele que Habito, graças a uma direção excessivamente acadêmica e pomposa, trilha sonora nunca sutil e especialmente pela postura burocrática da direção de Almodóvar e da atuação de Antonio Bandeiras, que aparentam estar mais preocupados em serem profissionais do que artistas.

Infelizmente, Almodóvar quis fazer um filme de tese: a relação do amor e da dor ou de como a tortura leva a um prazer narcísico, passando também por comentários sobre a ética. Em vez do charme de Ata-me, cujo tema tem clara conexão com o novo longa, há as afirmações de A Pele que Habito. Almodóvar, um cineasta que sempre optou por mostrar e nos educou a não julgar, decidiu demonstrar desta vez. Deu errado.

Almodóvar me ensinou a gostar das inversões morais de seus filmes. Acompanhei com encantamento as várias fases de seus cinemas, que divido assim: a anarco-punk (até O Que eu Fiz Para Merecer Isto?, 1984); a cômica-melodramática (até A Flor do Meu Segredo, em 1995); e finalmente o período de amadurecimento como diretor, mais clássico (de Carne Trêmula, 1997, até Volver). Esta é uma tentativa de divisão didática e obviamente filmes não refletem uma postura estanque de um realizador, que só fala disso ou daquilo.

São momentos diferentes de seu cinema, cada um com um charme e sedução diferente, hábeis em cativar não apenas pelo tema, mas pelo estilo. Qual é a sedução de A Pele que Habito? Não há. E isso muito me preocupa.

O que ele ainda quer do cinema ou o que ele pode lhe dar? Qual fase inaugurar-se-á com dois filmes burocráticos como Abraços Partidos (que não é desastroso, apenas médio) e este longa que chegará aos cinemas em 4 de novembro.

A Pele que Habito não é um filme de Almodóvar, mas de Almodóvar querendo fazer um filme de Almodóvar. Um filme-almofadinha.

Antes da estreia voltarei algumas vezes a ele, abordando as questões que estão lá, mas não florescem no conjunto, e a outros momentos mais dignos da carreira de Pedro Almodóvar Caballero. Por ora, é isso: a maior frustração entre as estreias deste ano.

Em tempo: antes de chegar ao circuito comercial, será exibido no Festival do Rio, que terá a ilustre presença de Marisa Paredes, atriz de Almodóvar neste em outros filmes – se não me engano, o primeiro filme da dupla juntos foi Entre Tinielbas, de 1983.

Em tempo2: abaixo o trailer do filme: