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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Semana dos Realizadores: sobre filmes obrigatórios

A Cidade é uma Só?, o filme pop-político de Adirley Queiroz

Pela primeira vez desde 2009, quando foi criada no Rio de Janeiro, a Semana dos Realizadores: Voos do Cinema Brasileiro Contemporâneo aporta em São Paulo. Começa nesta quarta-feira (5/11) com a exibição do bom documentário Doméstica, de Gabriel Mascaro, às 19h no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, em forma de retrospectiva.

Há filmes obrigatórios, especialmente nesse contexto esquizofrênico do circuito exibidor, enxuto, reduzido, que atira certos filmes (especialmente os autorais brasileiros) em algum horário. Alguns dos filmes infelizmente terão sua passagem pelas salas de cinema restritas a festivais.

A Cidade é uma Só?, Estrada Para Ythaca, O Homem que Não Dormia, Praça Walt Disney, As Hiper Mulheres, Doméstica, Eles Voltam, Esse Amor que Nos Consome, Ovos de Dinossauro na Sala de Estar, Na Carne e Na Alma, Dona Sônia Pediu uma Arma para seu Vizinho Alcides, Pacific, Corpo Presente são alguns dos filmes que ilustram caminhos que as várias ramificações da produção brasileira seguem.

No meio da programação haverá debates, dos quais chama a atenção o do dia 12, “O que pode ser hoje um cinema político?”. E um par de aulas ministradas pelos críticos Francis Vogner dos Reis e Luiz Carlos Oliveira Jr., que falarão sobre os diálogos entre os filmes exibidos na Semana nos últimos quatro anos, traçando um contexto amplo que remonta ao começo dos anos 2000.

A programação está no site do CCBB-SP [clique aqui] e da Semana em São Paulo [clique aqui]. Abaixo, links para críticas, resenhas e comentários que escrevi -- publicadas em diferentes momentos veículos e, por isso mesmo, de profundidades distintas -- de alguns dos filmes que passarão na Semana.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Festival de Brasília - Balanço - O que dizem os jovens?

Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro, um dos filmes que impregnam

Não faltaram filmes que, entre a acomodação e a busca, preferiram a segunda. O que, se olharmos sem romantismos, implica maiores dificuldades, caminhos mais esburacados. Por isso, saímos do Festival de Brasília sem um grande filme. Mas, por favor, não confundam essa afirmação com o que chegou a ser equivocadamente escrito, de que a “45ª edição do evento chega ao fim sem nenhum destaque com força para roubar os holofotes”. Desde quando cinema é ladrão de luz? Não sejamos levianos – ou cegos.


Grosso modo, os que mais instigam, os que ficam na memória, são as produções de realizadores que estrearam no longa de ficção aqui em Brasília. Tal recorte – metade das produções da mostra competitiva era de diretores estreantes – gerou o irônico comentário de que o festival candango havia abocanhado um grupo de filmes que facilmente poderiam estar competindo na Aurora da Mostra de Tiradentes, seleção dedicada a jovens realizadores.

Mas é justamente por conta desse recorte priorizado que o Festival de Brasília retoma seu posto de protagonista no extenso e abarrotado calendário de festivais no Brasil.

Continue lendo o balanço do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Brasília, 3º dia - Dormir com um filme, acordar sem ele (Boa Sorte, Meu Amor, A Mão que Afaga, Otto)

Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão

Parte I – os que ficam


Nem sempre é assim, mas quando acontece é gostoso. Dormir com um filme, acordar com ele e dele se alimentar alguns dias. Após três dias de mostra competitiva, já começa a ficar claro os filmes que ficam, que revisitamos nas memórias, e os que se esvaem.

Ficam, entre os longas, Eles Voltam (mesmo que irregular) e A Memória que me Contam (justamente porque todos seus problemas servem como diagnóstico de uma situação). Antes de “bom” ou “ruim”, são filmes que gostei de ter visto. Ontem foi exibido Boa Sorte, Meu Amor, longa que, na primeira noite dormida com ele, está vivo. Será interessante observar sua imanência.

Daniel Aragão (Não me Deixe em Casa, Solidão Pública) não esconde a pretensão alta de seu filme. E obviamente é complicado manter um primeiro longa no topo, com regularidade em todos os planos, em todas as cenas.

Continue lendo o texto na Revista Interlúdio.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Brasília, 2º Dia - Que país é esse? (A Memória que me Contam, Kátia)

Simone Spoladore em cena de A Memória que me Contam

Algumas coisas não se pode cobrar do cinema de Lúcia Murat (Uma Longa Viagem, Quase Dois Irmãos, Que Bom te Ver Viva). Uma delas é a insistência no assunto dos rastros da Ditadura. É chover no molhado dizer isso, mas quem faz filme parte de um ponto de vista, o seu, e se posiciona no mundo com suas experiências.


E há muito ficou claro que Lúcia tem no cinema a maneira de se manter viva, sobreviver a si mesma – é sabido que, tal como muitos de sua geração, a cineasta foi presa e torturada pela Ditadura Militar, sequela da qual jamais se recupera.

Pode-se cobrar, obviamente, que faça filmes bons. Mas não se pode reclamar de ter sido enganado: quando vamos assistir a um filme de Lúcia Murat já sabemos que estará em discussão o Brasil sob o ponto de vista da geração que lutou contra a truculência militar, uma avaliação de seus méritos/deméritos e invariavelmente uma desilusão com o que se tornou o país (especialmente a questão da esquerda no poder, o cenário pós-Lula).

Talvez mais interessante do que reclamar que é mais do mesmo seria perguntar por que não tocam no assunto com filmes as gerações que não viveram a tortura na pele? Ou de quem viveu aquele momento de maneira diferente, tal como Ugo Giorgetti e seu cinema humanista consegue com Cara ou Coroa? Não residiria a possibilidade de frescor na entrada de outros cineastas, mais jovens talvez, nesta seara?

Continue lendo o relato do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Brasília, 1º dia: A cidade e suas bolhas (Eles Voltam, Câmara Escura, Linear)

Eles Voltam, de Marcelo Lordelo

A imagem-síntese do estado amedrontado em que uma certa classe média brasileira vive está em Recife Frio. Nela, pessoas literalmente brincam dentro de uma bolha gigante, que se parece com o monstrengo de Carpenter em Dark Star. A bolha física está colocada na bolha metafórica na sociedade capitalista contemporânea – o shopping center, substituto artificial dos encontros na praça pública, nas ruas.


Há pelo menos três anos temos assistido a filmes decididos em falar sobre os que vivem dentro da bolha – corrigindo: filmes tem sido produzidos, mas não necessariamente vistos, pois nem sempre eles encontram janelas de exibição além dos festivais.  O maior esforço tem vindo de Pernambuco em filmes que entre o panfleto e a ironia, preferem a segunda.

Eles Voltam e Câmara Escura, dois dos filmes da primeira noite da mostra competitiva do Festival de Cinema de Brasília articulam essa questão de maneira mais explícita, mas Linear, uma animação paulistana, também pode facilmente ser chamada para a conversa.

Continue lendo sobre o primeiro dia do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

Brasília, noite de abertura

A Última Estação, de Marcio Curi


Esse fenômeno lança alguma luz sobre a ambiguidade das posições do crítico brasileiro frente à produção cinematográfica de seu país. O filme nacional é um elemento perturbador para o mundo, artificial mas coerente, de ideias e sensações cinematográficas que o crítico criou para si próprio. Como para o público ingênuo, o cinema brasileiro também é outra coisa para o intelectual especializado. Atacando com irritação, defendendo para encorajar, ou norteado pela consciência de um dever patriótico, o crítico deixa transparecer sempre o mal-estar que o impregna. Todas essas posições, particularmente o sarcasmo demolidor, são véus utilizados para esconder o sentimento mais profundo que o cinema nacional suscita no brasileiro bem formado — a humilhação.

Algumas das ideias que Paulo Emílio Salles Gomes solidificou sobre o cinema brasileiro e seu estado subdesenvolvido, publicadas entre o começo dos anos 1960 até 73, data do seminal ensaio Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, ficaram datadas. Outras, pelo contrário, mostram-se de uma atualidade cruel. Uma delas é o desconforto em lidar com a precariedade do cinema nacional – apesar do falacioso entusiasmo momentâneo provocado ou pela presença em festivais internacionais, no campo da legitimidade, ou no volume de recursos nos editais, no campo da produção.

Paulo Emílio será constantemente evocado nesta edição do Festival de Cinema de Brasília, a 45ª, por ser um dos eixos do evento – a atualidade de seu pensamento deverá nortear as discussões. É preciso lembrá-lo não só para completar o hiato da trajetória do cinema brasileiro nos últimos quarenta anos, mas para clarificar onde a crítica entra na problematização de uma cinematografia. Aí entra o mal-estar da crítica, a posição ambígua do crítico e o longa de abertura, A Última Estação.

Continue lendo o texto sobre a abertura do Festival de Cinema de Brasília na Revista Interlúdio.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Em Brasília

Brasília, a terra que não chove

-- Brasília --

Do calor e falta de chuva de São Paulo para o calor e a falta de chuva de Brasília. Cá estou para mais um Festival de Cinema de Brasília: esta é a 45ª edição e os textos mais elaborados, em forma de diário, ficam para a cobertura na Revista Interlúdio [leia aqui a página de festivais].

De tudo que aconteceu na abertura ontem, uma coisa me chamou atenção, mais até do que A Última Estação, o longa que iniciou os trabalhos: o Secretário de Estado de Cultura, Hamilton Pereira da Silva.

Normais são as participações de políticos, discursos inflados etc. Até aí nada demais, Brasília é igual a Tiradentes, que é igual a Recife. Não conheço de perto o trabalho dele, mas fiquei com um pé atrás ao ouvir alguém da plateia protestando contra o que chamou de não desvio dos recursos do FAC.

Me chamou atenção o tom inadequado, oficioso além da conta, enaltecendo o cinema, mas aparentemente distante dele. Aí eu entendi o que pegou: a pessoa que vi subindo no palco é muito, mas muito semelhante ao personagem comunista do grande filme de Ugo Giorgetti, Cara ou Coroa.

Está lá o personagem, no filme, do diretor de teatro falando de vanguarda, de arte e tal, mas esbarra no entendimento burocrático que o membro do partidão tem acerca da cultura, sua função para o povo. Mais conversa sobre a vanguarda, o Living Theater, a juventude, o trabalho de corpo. Mas o burocrata não entende, só quer saber de algo: vai ou não vai funcionar para a conscientização política a tal peça de teatro que o diretor está montando?

Vendo o secretário ontem -- que, repito, não acompanho o trabalho de perto -- pensei no filme de Giorgetti. Mesmo se passando em 1971 o delineamento que ele faz de certos personagens é tão preciso que permite essa conversa rápida entre o ontem e o hoje.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Festival de Brasília 2012, os selecionados



Tremenda surpresa a seleção do Festival de Brasília de 2012, que acaba de ser anunciada. Após uma edição desinteressante como a do ano passado, em que se mudou o rumo apontado em 2011, Brasília apresenta um conjunto filmes -- especialmente os longas -- com um potencial que faz jus à importância do festival candango.

Destaque para a presença maciça de produções pernambucanas na seleção: três longas de ficção (metade da competição), um longa documental e outros três curtas. Gabriel Mascaro (Avenida Brasília Formosa, Um Lugar ao Sol), por exemplo, emplacou um longa e um curta na seleção.

O potencial tanto da seleção do Festival de Brasília quanto o de Gramado (que surpreendentemente também voltou a despertar algum interesse apenas pelos filmes exibidos, não pelo frio, turismo etc) refletem, suponho, a saída do Festival de Paulinia do calendário. Brasília e Gramado, que andavam na berlinda, de repente voltam a chamar a atenção.

Abaixo, a seleção do Festival de Brasília 2012:


‎45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

FILMES SELECIONADOS

Mostra competitiva de longa-metragem ficção
Comissão de seleção:
Cibele Amaral - diretora, atriz, roteirista e produtora.
José Geraldo Couto - Jornalista, crítico de cinema e tradutor.
Marcio Curi - cineasta e produtor de cinema.
Pedro Butcher - jornalista e crítico de cinema e editor do site Filme B.
Sérgio Borges - cineasta

LONGAS-METRAGENS DE FICÇÃO SELECIONADOS:

1. A memória que me contam, de Lucia Murat, 95min, RJ
2. Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão, 95min, PE
3. Eles voltam, de Marcelo Lordello, 100min, PE
4. Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes, 90min, PE
5. Esse amor que nos consome, de Allan Ribeiro, 80min, RJ
6. Noites de Reis, de Vinicius Reis, 93min, RJ

Mostra competitiva de longa-metragem documentário
Comissão de seleção:
Ana Paula Sousa - jornalista especializada em cultura e crítica de cinema.
André Luiz Oliveira - cineasta e músico.
Guto Pasko - cineasta e roteirista de cinema e TV.
João Jardim - cineasta
Leonardo Sette – cineasta

A comissão de seleção gostaria de registrar que um dos critérios utilizados para a seleção dos seis filmes foi privilegiar o ineditismo.

LONGAS-METRAGENS DE DOCUMENTÁRIO SELECIONADOS:

1. Doméstica, de Gabriel Mascaro, 85min, PE
2. Elena, de Petra Costa, 82min, SP
3. Kátia, de Karla Holanda, 74min, PI
4. Olho nu, de Joel Pizzini, 101min, RJ/MT
5. Otto, de Cao Guimarães, 70min, MG
6. Um filme para Dirceu, de Ana Johann, 80min, PR



Mostra competitiva de curta ficção e Mostra competitiva de curta Animação
Comissão de seleção:
Felipe Joffily - cineasta
Fernando Mourão Gutiérrez – diretor de filmes de animação e professor do IESB
Marcya Reis – jornalista, roteirista e documentarista na TV Câmara.
Rafael Urban - cineasta, roteirista e produtor.
Thomas Larson - chargista e ilustrador e diretor de desenho animado.

CURTAS-METRAGENS DE FICÇÃO SELECIONADOS:

1. A Mão que afaga, de Gabriela Amaral Almeida, 19min, SP
2. Canção para minha irmã, de Pedro Severien, 18min, PE
3. Eu nunca deveria ter voltado, de Eduardo Morotó, Marcelo Martins Santiago e Renan Brandão, 15min, RJ
4. Menino peixe, de Eva Randolph, 17min, RJ
5. Vereda, de Diego Florentino, 20min, PR
6. Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques, 13min, SP


CURTAS-METRAGENS DE ANIMAÇÃO SELECIONADOS:

1. Destimação, de Ricardo de Podestá, 13min, GO
2. Linear, de Amir Admoni, 6min, SP
3. Mais Valia, de Marco Túlio Ramos Vieira, 4min22, MG
4. O Gigante, de Luís da Matta Almeida, 10min35, SC
5. Phantasma, de Alessandro Corrêa, 10min20, SP
6. Valquíria, de Luiz Henrique Marques, 8min32, MG

Mostra competitiva de curta-metragem documentário
Comissão de seleção:
Beth Formaggini - documentarista, pesquisadora e produtora audiovisual.
Caio Cavechini - jornalista e documentarista.
Ciro Inácio Marcondes - crítico e professor de cinema

CURTAS-METRAGENS DE DOCUMENTÁRIO SELECIONADOS:

1. A cidade, de Liliana Sulzbach, 15min, RS
2. A ditadura da especulação, de Zé furtado, 10min20, DF
3. A guerra dos gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins, 19min30, SP
4. A onda traz, o vento leva, de Gabriel Mascaro, 24min47, PE
5. Câmara escura, de Marcelo Pedroso, 25min, PE
6. Empurrando o dia, de Felipe Chimicatti, Pedro Carvalho e Rafael Bottaro, 25min, MG


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Festival de Brasília 2011

Começou ontem, segunda, 26, a 44ª edição do Festival de Brasília, o evento mais tradicional do cinema brasileiro, palco de discussões, lançamentos de filmes e propostas político-estéticas. Neste ano, muitas mudanças até difíceis de colocar só em um parágrafo: alteração da data, queda do ineditismo, fim da mostra digital (que encurtou a participação dos curtas), ampliação dos espaços de exibição...

Neste ano, vou acompanhar à distância: o cansaço bateu, o corpo pediu para continuar em São Paulo e o atendi, apesar da curiosidade em acompanhar a repercussão das mudanças.

Mas, para quem está interessado em acompanhar o debate, quatro indicações diferentes:

- matéria que publiquei ontem no Cineclick entrevistando diversos setores e tentando ampliar as discussões

- artigo do crítico Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo, que aponta um apequenamento do festival com as decisões equivocadas de 2011.

- artigo do crítico Cid Nader, do Cinequanon, que pede uma certa prudência da crítica em já qualificar as mudanças como ruins (discordo de alguns pontos, mas acho válida a colocação).

- leitura integral do blog Festival de Brasília em Perigo, que recupera o processo de mudanças antes mesmo de elas serem anunciadas e explica todas as polêmicas dos bastidores.

Enfim, leituras obrigatórias para quem se interessa pelos rumos do mais tradicional festival de cinema brasileiro.

domingo, 28 de novembro de 2010

O quadro não preenchido


Ivo Lopes Araújo já assinou alguns trabalhos notáveis como diretor de fotografia. Com Petrus Cariry, tem uma parceria criativa que resultou em “O Grão”, “Dos Restos e das Solidões” e “A Montanha Mágica”. Com a mineira Marília Rocha, cofotografou “A Falta que me Faz”. Com os colegas cearenses da Alumbramento, codirigiu “A Amiga Americana”.

Aqui no Festival de Brasília, o cearense participa do festival como fotógrafo do mineiro “O Céu Sobre os Ombros”. Um filme sobre três personagens de classe média baixa que buscam preencher suas vidas.

Esperava mais, confesso. Há cenas bonitas para os olhos, com a câmera parada congelando a presença dos atores no quadro como em uma pintura. Mas, poxa, o roteiro poderia avançar um pouco mais.

O filme parece ficar naquilo que o crítico baiano André Setaro identificou na dicotomia entre forma e conteúdo, “o que se conta” versus “como se conta”. O resultado de “O Céu Sobre os Ombros” dá a impressão de que o segundo é mais importante do que o primeiro.

Discordo que haja uma rivalidade entre as duas escolhas. Elas podem estar lado a lado tanto harmonicamente como opostamente. Exemplo: narra-se uma cena de amor com uma canção que remete à desilusão.

Talvez a forma ganhe muito mais importância do que o conteúdo quando se abdica inteiramente de se agarrar a uma história, a uma fábula, quando a proposta é construir sentido apenas com a associação de planos e montagem.

Como cinéfilo, gostaria de ter visto o esmero da câmera/fotografia/planificação refletido também na dramaturgia e no roteiro.