*Originalmente publicado no Cineclick durante a cobertura do Festival do Rio 2011.
Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios é um filme arriscado. Uma história de amor com Lavínia (Camila Pitanga), Cauby (Gustavo Machado) e Ernani (Zecarlos Machado). Na fruição pela carne, na volúpia e no desejo está sua força narrativa e tesão em captar quem assiste.
O triângulo amoroso constitui, na verdade, três partes de um mesmo ser, que se divide para se transformar em fragmentos: o corpo estonteante de Lavínia, que Camila Pitanga nos apresenta com a volúpia de Zezé Motta em Xica da Silva e com a agressividade sensual de Lázaro Ramos em Madame Satã; o olhar, a observação e a construção de Cauby, que tem em Gustavo Machado a encarnação do tipo forasteiro; a oralidade, a argumentação e a palavra do messias Ernani, com Zecarlos Machado defendendo a racionalidade.
Sentir, olhar e falar, três pedaços do eu. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, título quilométrico extraído do livro de Marçal Aquino, corre riscos ao assumir a busca por uma fruição pelo tato. Se buscarmos na música uma metáfora, sai a execução cerebral do piano, entra a energia do tambor e do atabaque. O vigor do filme está no ritmo sincopado.
Apenas uma história de amor
No palco do abarrotado Cine Odeon, casa dos longas e curtas brasileiros que competem na Première Brasil do Festival do Rio, os diretores Beto Brant e Renato Ciasca (Cão Sem Dono) lembraram que o filme se passa numa região de desmatamento que sofre com a presença avassaladora de madeireiras.
Informação desnecessária. Aquela cidade de conflitos políticos e econômicos está dada sem maiores apresentações. Um espaço frouxo na Lei que tem um delegado conciliador. A sensação é que o amor comum aos três personagens tem nesse cenário à deriva a definição perfeita de seu prazer e risco.
Por ser movido a fluidos, energia e desejo, Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios se desenvolve em breves capítulos. Assim sentimentos e entendemos quem é essa mulher intensa e instável, o fotógrafo forasteiro e o orador idealista. Um filme cujos breques podem até estar fora do lugar, mas que não impede a conexão ele e o espectador disposto a aceitar um filme irracional.
Camila Pitanga tem neste longa a sua prova, se ainda for necessária, de que precisa parar de perder tempo com a televisão e viver mais o cinema. Claro que muito de sua atuação cresce por conta da steadicam de Lula Araújo, com quem mantém uma dialética. Mas ela, a atriz, oferece o corpo, o olhar, o movimento, a ternura e o furacão à câmera.
Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios é imperfeito, sim, mas vigoroso e audacioso. Xamânico. Com um charme a mais: se Cauby nos lembra, obviamente, do fotógrafo de Antonioni de Blow-up – Depois Daquele Beijo, o plano final à Mônica e o Desejo nos apresenta uma Harriet Andersson amazônica. Ela se chama Camila Pitanga.
Ficha Técnica
Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, 2011
Cotação: 3,5 de 5
Direção: Beto Brant, Renato Ciasca
Elenco: Camila Pitanga, Gustavo Machado, Zécarlos Machado, Gero Camilo
Estúdio: Drama Filmes
Distribuição: Sony Pictures
Mostrando postagens com marcador Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)


