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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Agradável, legal e gângster: premiado em Tiradentes na TV Brasil

“Daí eu pensei em como fazer um filme agradável, legal e gânster: Brasília, I love you”.

O que esperar de um filme cuja sinopse é essa aí acima? Dá pra esperar muita coisa porque A Cidade é Uma Só?, filme vencedor da Mostra de Tiradentes deste ano, é exatamente isso: agradável, legal e gângster.

Mas faltou acrescentar algo: político. A Cidade é Uma Só? é uma comédia política de dramaturgia difícil comparação ou classificação com o que está sendo feito no cinema brasileiro contemporâneo. Quem acompanhar a sessão de sexta-feira (20/4), às 2340, na TV Brasil, vai ter a chance de conferir que cinema crítico e humor se dão muito bem.

Adirley Queirós, o diretor, segue e constrói três personagens: um especulador imobiliário da periferia; um faxineiro que quer se candidatar a vereador pelo PCN (Partido da Correria Nacional); e uma senhora que vivenciou a exclusão da população pobre do “embelezamento” de Brasília nos anos 1970. Pano de fundo: a invenção de Ceilândia pela Ditadura Militar, cidade satélite que foi literalmente inventada (o “cei” de “Ceilândia” significa Campanha de Erradicação de Invasões). Adirley se define como “da primeira geração pós-aborto territorial”.

A Cidade é Uma Só? não foge da raia e vai para a briga: questiona a máquina eleitoral e a manipulação, o processo histórico excludente de Brasília, o discurso escroto da Ditadura Militar. Mas em vez de nos entregar um filme engessado com entrevistas de especialistas, falas emocionadas e outros bla bla bla, vemos um filme de amor e de risos.

Sua dramaturgia dá um drible em quem fica preso nas denominações de documentário e ficção. Não se sabe muito bem o que é encenação orquestrada ou espontânea. Também isso não importa porque em A Cidade é Uma Só? é tudo verdade, mesmo que quase tudo seja mentira. Mas não vou entregar mais do que isso para não estragar a surpresa.

O que reitero é esse poder que o filme tem de ser crítico, mas não sisudo. Ora se apoia inteiramente no seu personagem mais carismático, Dildu, o candidato a vereador, dono de um jingle maravilhoso (“Vamô votá, votá legal, 77223 pra Distrital. Dildu!”). Ora concentra a força da crítica em planos de rara beleza cinematográfica (o próprio encontro de Dildu em sua campanha isolada com a máquina eleitoreira profissional, personificada por um gigante carro de som, assim como a caminhada do cavaleiro solitário num cenário descampado de desolação).



A Cidade é uma Só é uma pequena contribuição ao cinema brasileiro que se assume como crítico. É possível colocar em debate e questionar o passado ou o presente sendo, sim, muito agradável, legal. E gângster, se possível.

Em tempo: quem já assistiu ou vier a assistir ao filme pode buscar comparativos dramatúrgicos tanto com O Céu Sobre os Ombros quanto Avenida Brasília Formosa. Faz sentido, sim, mas o filme de Adirley tem um humor crítico que não vejo muito nos outros filmes. E disso eu gosto demais.

Em tempo 2: a sessão em Tiradentes foi lindíssima, uma das mais eletrizantes que já presenciei em festival de cinema. Cine Tenda lotado embarcando no filme e entoando o jingle de Dildu no final. OK, emocionante, mas tenho um pouco de receio se quem embarcou na comédia da superfície deixou de perceber o que está por baixo. O mesmo medo que tenho com o “agridoce” de As Neves do Kilimanjaro.

As Neves do Kilimanjaro: um filme agridoce sobre o mundo do trabalho

quinta-feira, 12 de abril de 2012

As Neves do Kilimanjaro: a França em discussão

As Neves do Kilimanjaro é um baita case de como fazer um filme sobre o mundo do trabalho ser assistido por senhoras conservadoras em sessões de início de tarde embaladas por uma canção idílica.

Perspicácia é o que não falta a Robert Guédiguian, diretor e corroteirista deste filme francês que estreou no Brasil na sexta-feira passada (6/4). Sobra-lhe inteligência para trazer aquilo que Theo Angelopoulos chama de a Grande História para o cotidiano, para a vida do homem médio, estabelecendo assim o diálogo (empático ou antipático) entre personagem/espectador.

Tem-se neste filme de crise a França contemporânea em discussão, com ecos comuns a outros países europeus. Guédiguian é muito esperto na abordagem e vai num registro de cinema universal (filme de amor) para propor uma discussão político-econômica. É a mesma inteligência que Scorsese tem com A Invenção de Hugo Cabret que, como bem definiu o crítico e cineasta Kleber Mendonça Filho, “é um filme sobre preservação de arquivos” travestido de aventura juvenil para toda a família.

As Neves do Kilimanjaro (não parece título de filme fofinho e idílico?) é o homem francês cinquentão colocado num divã coletivo: de que serviu a nossa atuação política se hoje o arroxo neoliberal não estende o Estado de Bem-Estar Social para as jovens gerações que entram no mercado de trabalho?

Há, então, um abismo de gerações. De um lado, os cinquentões que fizeram o arco militância-pequena burguesia consciente socialmente; de outro, os que estão perto dos trinta e descobrem um mundo do trabalho bem menos amigável e questionam se foram de fato conquistas as que seus pais fizeram.



É necessário um traumático assalto para que esse abismo venha à tona, a calmaria se dissipe e apareça a questão: é vencedora ou derrotada a geração representada pelo personagem coroa de Jean-Pierre Darroussin? Qual é a melhor forma de ler a sequência inicial, em que frases de luta (“unidos venceremos”) estão inseridas num cenário de derrota? Qual derrota é maior, dos velhos ou dos jovens?

Traduzindo, discussão político-econômica, divã de gerações, filme de crise. Mas Guédiguian faz isso trazendo para o núcleo elementar, a família. Fala de amor, amizade e culpa no meio do caminho. Com isso, vai tocando uma grande discussão sobre como a geração das greves da França se veem. O tal roubo que acontece no filme é o combustível a impulsionar a reflexão.

As Neves do Kilimanjaro é um filme sobre o mundo do trabalho travestido de filme de amor e relações.

E a essência de tudo isso está na canção abaixo, que dá nome ao filme. É um típico exemplar de cancioneiro francês. Um comentário irônico sobre esse tal lugar que vai te envolver como uma manta branca onde você poderá dormir logo. Seria a França ainda esse lugar? Melhor: ainda existe esse lugar?