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domingo, 10 de abril de 2011

Cópia Fiel nº3


Simplesmente impossível parar de falar em Cópia Fiel que, me contaram os amigos de crítica, fez um tremendo sucesso na primeira semana em cartaz – 10 mil espectadores – provavelmente por causa do fator Juliette Binoche.

No filme, James (William Shimell), um escritor que vai à Itália para falar sobre seu premiado livro Copia Conforme, defende que pouco importa o que é original ou o que é reprodução na arte. O ponto nevrálgico e a construção de sentidos se dá pelo olhar do observador.

James e Elle são casados, como o filme nos induz a pensar, apesar dos desvios? Não interessa! Afinal, a dinâmica que se estabelece na (recém?) relação deles é tão verdadeiro, sincero e verosímel quanto qualquer outra relação duradoura. O nosso olhar de espectador é quem vai responder a pergunta.

Para ilustrar a questão, reproduzo um pedaço do texto de João Bénard da Costa, que me acaba de ser apresentado por Sérgio Alpendre por causa do curso de cinema japonês, sobre Os Amantes Crucificados, de Kenji Mizoguchi – Alpendre reproduz a integra do texto na apostila do curso.

Não sei quem é que inventou a história do “sorriso do eterno feminino” a propósito da Gioconda. Sei é que há quase cem anos ninguém pára no Louvre diante do quadro, sem observar primeiro o sorriso, depois o eterno e por fim o feminino. E, só depois de os ter inventariado todos, é que balbucia um lugar-comum qualquer sobre a impressão geral que a chamada Mona Lisa, vista ao natural, lhe provocou (hoje, com aqueles enormes vidros à prova de bala que para lá puseram, é cada vez mais difícil ter qualquer impressão).

Visitantes mais sofisticados já não vão nessa do “eterno feminino”. Mas param mais ao lado, em frente de A Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana, para descortinar, nas três figuras, o abutre “sobreimpresso” que Freud lá viu e deu origem a um dos seus mais célebres ensaios sobre conteúdos manifestos e conteúdos latentes.

Depois da “leitura” de Foucault de Las Meninas (quanto a mim, completamente despropositada, mas essa é outra história) quantos visitantes foram ao Prado, não apenas para ver o quadro de Velázquez, mas para o comparar com a interpretação feita em Les mots et les choses? Eu próprio já levei Os Cadernos de Malte Laurids Brigge para o Museu de Cluny a fim de reler as páginas de Rilke sobre as tapeçarias de La Dame à la Licorne enquanto as revia com os olhos dele.

Proust foi talvez quem melhor escreveu sobre estas duplas visões: a do autor de uma obra e a do voyeur dessa obra. E, ele próprio, acrescentou à visão de Delft de Vermeer o “petit pan de mur jaune”, hoje quase tão célebre e quase tão citado como o próprio quadro, embora durante cerca de 250 anos ninguém o tivesse visto.

É completamente irrelevante perguntarmo-nos, como fazem alguns, mais cépticos ou mais cegos, se o que Freud viu, o que Rilke viu, o que Proust viu, está ou não está na obra em que o viram. Toda a visão é ideal (como toda obra de arte) e só por simpatia (no sentido etimológico da palavra) nos aproximamos dela. Se bastasse ter olhos para ver, os cegos seriam bem mais desgraçados e bem mais minoritários.

Também nada adianta perguntar - como muitas vezes se pergunta quando a evidência das duas visões é irrecusável - se tal pormenor ou tal sentido teriam sido “premeditados” pelo autor. A Gioconda pode continuar a ser o “eterno feminino”, mesmo que se venha a provar (como alguns sustentam) que o retrato não é de uma mulher mas de um rapaizinho; o quadro de Vermeer continua a dar-nos Delft em 1665, mesmo que em Delft nunca tenha havido tais cor-de-tijolo e tais cor-de-rosa e que Vermeer ficasse imensamente estupefato se lhe falassem de um “petit pan de mur jaune”. Sempre outras mãos pintaram ou escreveram pelas nossas mãos e sempre o amador se transformou na coisa amada.

Vai muito longo o preâmbulo. A coisa amada que hoje vos queria dar a ver chama-se Chikamatsu Monogatari. Batizaram-na no Ocidente como Os Amantes Crucificados (em Portugal nunca foi distribuída comercialmente) e realizou-a o japonês Kenji Mizoguchi ou Mizoguchi Kenji. Em 1954.


A íntegra do texto pode ser encontrado no site da Foco.

Em tempo: no post anterior sobre Cópia Fiel, o leitor Enaldo fez um comentário jocoso que, apesar do tom de brincadeira, é pertinente. Sim, Enaldo, quem disse que ela não estaria jogando todas as suas frustrações sobre o pobre coitado do escritor?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

Cópia Fiel é uma equação que inexplicavelmente que dá muito certo. Um filme de rigor e precisão formal que, em vez de frigidez, exala em seus poros um âmago vultoso e amigável. Abbas Kiarostami nos apresenta uma obra de tremendo apuro estético e sentimental, filmado de maneira sublime com olhar cheio de frescor sobre uma relação amorosa. É belo pela forma e pela emoção, razão e coração.

Um filme aparentemente simples. Afinal, trata-se apenas de uma discussão na relação d’Ela (Juliette Binoche) com James (William Shimell). Ele, britânico, chega à Itália para lançar seu novo livro, Copia Conforme. É assim que Cópia Fiel começa: uma mesa com uma garrafa de água, dois microfones e um exemplar do livro. Não há ninguém para falar, apenas o zunzunzum do público que aguarda. Após atraso, James entra em quadro.

Enquanto versa opiniões sobre a essência do livro – onde está a originalidade ou a cópia na obra de arte? – Ela atravessa o quadro e se senta na primeira fileira. Quem é esta mulher? Eles se conhecem ou são estranhos? Com que direito acomodou-se num assento reservado? Por que, na presença do olhar curioso d’Ela, James não se abala e continua a desenvolver suas ideias sobre o novo ou a reprodução deste.

Durante a palestra, James diz que gosta da palavra “original” por conta de sua etimologia, que remonta a nascimento. Porém, “original” também é arquétipo e, mesmo a relação do casal do filme sendo, talvez, de mentira, ela é inteiramente verdadeira. Tudo depende do olhar. Uma relação, ao mesmo tempo, igual e particular, porque o cinema lhe deu esse status. Só o cinema para nos fazer compartilhar de uma história que, de tão comum no cotidiano, passa despercebida ao nosso redor.

As belas paisagens da Toscana tiram Cópia Fiel da ambientação sonora muçulmana para levá-lo a um registro praticamente novo na obra de Kiarostami, o cristão. Sinos badalam, o sotaque italiano afaga os ouvidos, o barulho dos pássaros nos exige uma outra colocação do tempo. A câmera passeia por construções históricas, cafés charmosos e espaços tradicionais de arte. “A Itália é um museu a céu aberto”, diz uma personagem.

Mas não se trata da câmera-cartão-postal, e sim de ambientação. Esta história de amor autenticamente imitada só faz sentido na Itália? Indiretamente, Cópia Fiel defende que sim, ao colocar que na Toscana, repletas de esculturas e pinturas, é pertinente esse questionamento formal, que responde não só ao enredo, mas ao próprio filme: como encontrar originalidade na linguagem cinematográfica se ela já alcançou desenvolvimento pleno há mais de cinquenta anos?

Assim, pouco importa que a relação de Ela com James ou o próprio filme não sejam os primeiros a existirem, mas que guardem um olhar vivo capaz de refrescar a percepção humana e cinematográfica. Como a maioria dos grandes filmes, Cópia Fiel fala da vida e do cinema. Fica até difícil dar conta de um filme com tantas portas apenas nesta crítica.

É a melhor obra lançada nesses primeiros meses de 2011 ao lado de Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. É filme para se assistir mais de uma vez: na primeira, surge o gosto; na segunda, o êxtase. Cópia Fiel me deixou extasiado.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A simplicidade dos filmes de Kiarostami

O que mais encanta em Cópia Fiel, o filme novo do Kiarostami que iria estrear aqui em 14 de janeiro, mas teve o lançamento adiado pela Imovision, é sua falsa simplicidade.

Aparentemente, trata-se apenas de uma historinha de amor entre dois adultos que se encontram nas deslumbrantes paisagens da Toscana, Itália. Que ilusão! Enquanto finge falar apenas desse encontro entre Juliette Binoche e William Schimell, Cópia Fiel vai se construindo em camadas que discutem o original/cópia, real/representação, anseios/frustrações. Discute-se questões humanas e das artes, especialmente do cinema.

Mas essa falsa aparência de simplicidade acompanha a obra de Kiarostami há tempos. Um exemplo é o curta-metragem Duas Soluções Para um Problema, filme de 1975, sexto curta do iraniano.

Dois amigos na sala de aula são nos apresentados de maneira didática. Um é Nader, outro é Dara. Dara pegou o livro emprestado de Nader, mas o devolveu amassado. A partir desse evento são quatro minutos de parábola que ilustram, por exemplo, como pequenos e localizados conflitos tornam-se guerras.

Aparentemente simples, didático até, artesanal. Não passam de aparências. Abaixo, a íntegra de Duas Soluções Para um Problema que, assim como muitos outros curtas de Kiarostami, está no YouTube.