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domingo, 10 de junho de 2012

Cinema Mudo - Curso com Celso Sabadin

Repassando o e-mail que recebi -- e fazendo um pequeno jabá pro amigo Celso Sabadin.

Viagem à Lua, de George Méliès, homenageado por Scorsese em A Invenção de Hugo Cabret


"O jornalista e crítico de cinema Celso Sabadin ministrará, entre os dias 11 de junho e 16 de julho, o curso História do Cinema Mudo, na Biblioteca Pública Roberto Santos. As aulas, gratuitas, ocorrerão nas segundas-feiras, às 19h.

Serão cinco encontros analisando os primeiros anos do cinema, desde as primeiras experiências com imagens em movimento até a transição para o sistema sonoro, passando pelo desenvolvimento dos gêneros cinematográficos, praticamente todos criados na era do cinema mudo. Haverá exibições de trechos de filmes históricos e importantes do período.

No dia 11 de junho, será abordado o nascimento e a pré-história do Cinema. Nas duas semanas seguintes, Sabadin explicará sobre o período em que o cinema se firmou como espetáculo e como indústria e sobre a conquista do mercado norte-americano. O Expressionismo alemão e o Realismo Soviético, as primeiras grandes escolas estéticas da era silenciosa, serão apresentados no dia 2 de julho. Encerra o ciclo a transição para o cinema sonoro e a importância de O Cantor de Jazz para a História do Cinema, no dia 16 de julho.

Celso Sabadin faz colaborações nos sites Planeta Tela e 100% Vídeo, na Revista de Cinema e na Rádio Bandeirantes. É autor dos livros Vocês Ainda Não Ouviram Nada - A Barulhenta História do Cinema Mudo, Éramos Apenas Paulistas e Ofício de Cineasta. Ele prepara atualmente o lançamento de seu primeiro longa-metragem como roteirista e diretor, um documentário sobre Amácio Mazzaropi.

Serviço
Curso História do Cinema Mudo
Data: 11 de junho a 16 de julho
Horário: 19h
Inscrições: pelo telefone 2273-2390 ou pessoalmente na unidade.
Local: Biblioteca Pública Roberto Santos
Endereço: Rua Cisplatina, 505, Ipiranga
Telefone: 2273-2390"

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman



Da série Coisas que Escrevemos pelo Caminho:

Não é bonita, bonita, mas tampouco feia (...) Bastante rodada, pelo que sugere sua roupa estilo saco de batatas.

Jacques Doniol-Valcroze, Cahiers du Cinema, 1954, a respeito de Harriet Andersson em Monica e o Desejo (citado por Antoine de Baecque em Cinefilia).


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dia do Orgulho Hétero: o fascismo nos ameaça

O Urso de Lata é um blog de cinema, mas que não se furta de comentar os absurdos que aparentemente não têm nada a ver com filmes. O absurdo da vez é a aprovação na Câmara de Vereadores da Cidade de São Paulo de um projeto para instituir o Dia do Orgulho Heterossexual, aparente contraponto ao Orgulho Gay.

Vamos colocar uns pingos nos is que parecem ter se perdido no caminho: por que existe o Dia do Orgulho Gay? Por que os homossexuais, assim como outras “minorias”, são historicamente discriminados, não desfrutam de legislação que os coloque no mesmo patamar de cidadania que outros grupos sociais (só para lembrar que a união estável entre duas pessoas do mesmo sexo só foi aprovada há três meses – pelo Judiciário). A criação de um dia para celebrar o Orgulho Gay é apenas uma afirmação política de um grupo cujo grau de exclusão social tem diminuído ao longo dos anos, uma maneira de dizer: estamos aqui e temos de ser respeitados como qualquer outra pessoa.

Qual seria, então, o fundamento do Dia do Orgulho Heterossexual? Qual é a opressão que eles sofrem? Os héteros tiveram seu ingresso no Exército Proibido numa política semelhante ao “Don't ask, Don't Tell”? Não! Por conta de sua condição sexual, foram assassinados ou mandados para campos de concentração durante regimes ditatoriais? Não! Tem um romance proibido de ser abordado em uma novela de horário nobre justamente por sua sexualidade?

Ou seja, não há fundamento algum para a criação de um Dia do Orgulho Heterossexual, pois nunca lhe foram roubados direitos por sua sexualidade ou tratados como distorção. Em todas as frentes políticas, culturais, econômicas e sociais, sempre se reforçou a heterossexualidade como o padrão: héteros nunca precisaram incluir-se, ao passo que os homossexuais sim.

Uma lei como essa só representa o desejo dos conservadores que querem retomar o privilégio de oprimir minorias. É uma ilustração da frustração dos fascistas de não poderem mais apontar o dedo para um gay afetado na rua e gritar “viado” sem ter alguma consequência, moral ou legal. É uma frustração com o fim da barbárie e com a construção gradativa de respeito com todos os grupos sociais.

Autor do projeto, Carlos Apolinário (DEM, o ex-PFL, partido intrínseco à ditadura que agora se autodenomina “Democratas”), justifica-se da seguinte maneira: “a criação do Dia do Hétero não simboliza uma luta contra a figura humana dos gays, e sim contra aquilo que considero que são excessos e privilégios”.

Ele deve estar falando do privilégio de ser respeitado, né? Um privilégio pelo qual os héteros nunca tiveram de lutar em assuntos concernentes à sua sexualidade.

Para piorar, Apolinário solta a pérola “meu cabeleireiro é homossexual”. Olha como o vereador é democrata! Ser cabeleireiro, maquiador sidekick em novelas pode. Agora, esse papo de querer constituir uma família normal como as outras, tornar-se político, executivo de grandes empresas ou simplesmente exigir respeito, não.

Enfim, esse projeto é um sofisma, indicação clara do reino da mediocridade.

Voltemos a falar de cinema no próximo post.

sábado, 23 de outubro de 2010

"Um Homem Chato" X "Vocês, os Vivos"

Conversando com meu amigo João Nunes, crítico do “Correio Popular”, reclamava como me repetia em alguns textos. Escrevendo hoje sobre o norueguês “Um Homem Chato”, que está na Mostra integrando a retrospectiva do cinema do país que põe traços no “o”, me peguei sendo repetitivo novamente.

Na minha leitura, “Um Homem Chato” usa os mesmos mecanismos cômicos do sueco “Vocês, Os Vivos”. Logo após a sessão, uma senhora disse à sua amiga: “É... um humor bem nórdico, né?”. Pois bem, ela tem razão.

Hoje percebi como esse tal “humor nórdico” me encanta! Tanto que todas as vezes que assisto a algum filme que tenha essa pegada (e geralmente eles falam do estado das coisas ou da condição humana), penso sempre em “Vocês, os Vivos” como medida de comparação.

No Festival de Curtas, em agosto, foi a mesma coisa. Numa sessão tinha a sequência “Eu Sou Helmut”, “Incidente no Banco” e “Esquerda Direita”. Advinha qual longa os três curtas me lembraram? Nem preciso falar!!!

Nenhum dos filmes com o tal “humor nórdico” (seja lá o que isso signifique) conseguiu superar a relação emocionante que tenho com “Vocês, os Vivos” – talvez porque o filme de Roy Anderson não é só engraçado, mas muito inventivo cinematograficamente, ousado na forma.

Mas, vira e mexe volto a “Vocês, os Vivos”. Que filmão!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Eric Roth sobre filme noir: “eles te levam para becos que você não iria”

A seção de vídeos do site do Oscar costuma ter vídeos curtos, mas bons, sobre temas do fazer cinematográfico, como roteiro de filmes de gênero e montagem na era digital. Neste momento, a home page tem treze vídeos de roteiristas diversos falando sobre o filme noir.

O destaque desta sexta-feira é Eric Roth, que escreveu muitos filmes nos últimos vinte anos, entre eles “O Curioso Caso de Benjamin Button”, “O Bom Pastor”, “Munique”, “Ali”, “Forrest Gump” etc.

Por quase dois minutos, Roth dá algumas opiniões sobre o filme noir:

“Eles te levam para um mundo de sonhos, sonhos obscuros, de certa maneira. Os melhores conduzem para os obscuros, eu acho”.

“O filme noir apela para um tipo de mundo visual que não existe, becos, vielas, lugares nos quais você teria medo de ir”.

“São concisos, visuais, de certa forma. Não há muita reflexão no texto, em outras palavras, os personagens não falam de si mesmos. São mais pró-ativos do que reativos”.

“Pelo menos nos filmes mais antigos, o ‘storytelling’ é mais melodramático, só que ficou mais sofisticada com o tempo”.

Esse monte de entrevistas sobre o filme noir não é à toa. A Academia começa, em 13 de setembro, a série “Oscar® Noir: 1940s Writing Nominees from Hollywood’s Dark Side”. Advinha quem começa? “O Falcão Maltês”, noir de 1941 com Humphrey Bogart.

Imagina assistir no Samuel Goldwin Theatre um dos melhores filmes noir (por que não o melhor?) a US$ 5? Confesso que não é o meu gênero favorito no cinema, mas existem duas razões para não fugir jamais do filme de John Huston:

1: assim como a maioria dos noir, explica muito do momento dos Estados Unidos durante ou imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, além de ser ajudar a entender onde estava Hollywood naquele momento.

2: a personagem de Brigid O'Shaughnessyé. Vivida por Mary Astor (atriz muito requisitada na era do cinema mudo), a personagem é impossível de confiar. Não sabemos de que lado ela está, que jogo está fazendo, se é inocente, culpada ou os dois! Brigid é tão desestabilizadora quanto Candy (Jean Peters) de “Anjo do Mal”, filme de Samuel Fueller.

domingo, 25 de julho de 2010

Para onde irão os diretores de “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”

O Festival de Paulínia deste ano teve dois filmes/eventos marcantes: “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”, longa coletivo que retoma a experiência do Cinema Novo de 1961, e “Bróder”, a estreia do ótimo curta-metragista Jeferson De na direção de um longa-metragem.

Pelo júri, deu o carioca. Pela crítica, deu o paulista. Que bom que a escolha foi dividida e ambos os filmes ganharam os merecidos destaques. Aliás, corajosa a decisão do júri de premiar “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”, filme que, pelo seu próprio formato (cinco curtas metragens agrupados), é irregular – e, no conjunto, inferior a “Bróder”. Mas, mesmo assim, tem ótimos momentos e soluções muito criativas.

Agora que “5x Favela” ganhou sete prêmios em Paulínia, o que acontecerá com seus diretores? O filme estreia em circuito em 27 de agosto – com promessa da produtora Renata de Almeida de colocar o longa nos cinemas da zona sul carioca!

O cinema brasileiro, assim como o chileno e o uruguaio, vive de ciclos. Desde 1994 estamos baseados na dinâmica de produção do incentivo fiscal – com a ressalva do momento pós-Ancine. Ou seja, estamos na marca de 70, 80 filmes produzidos por ano há cerca de quatro anos. Mas, a distribuição e exibição para longas nacionais ainda é ridícula e profundamente injusta.

Então, a pergunta é: o que acontecerá com Manaíra Carneiro e Wagner Novais (episódio “Fonte de Renda), Rodrigo Felha e Cacau Amaral (episódio “Arroz com Feijão”), Luciano Vidigal (episódio “Concerto Para Violino”), Cadu Barcelos (episódio “Deixa Voar”) e Luciana Bezerra (episódio “Acende a Luz”)?

Quando o cinema não consegue receber atores revelações, eles vão para a televisão. O que acontecerá com os diretores? O cinema brasileiro precisa encontrar espaço para que eles façam o segundo, o terceiro...o décimo longa-metragem.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Paulínia ainda não acabou...

- De Paulínia

Paulínia ainda não acabou, mas tem coisas que já marcaram. Rapidinho, vamos a elas:

- a exibição e coletiva de "5x Favela - Agora Por Nós Mesmos".

- a exibição de "Eu Não Quero Voltar Sozinho", uma semente no diálogo.

- a frustração, seguida de catárse, com "Lixo Extraordinário".

- a força de "Bróder", exibido num teatro abarrotado.

E a premiação nesta quinta, como será?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os mitos do cinema jovem

De Paulínia

Em Paulínia, até agora tivemos dois filmes que podem ser facilmente considerados jovens, “Desenrola” e “Eu Não Quero Voltar Sozinho”. O primeiro se parece com “High School Musical”, enquanto o segundo é popular e mais cerebral. Ambos foram exibidos ontem, domingo (18/7), aqui em Paulínia.

Quando olhei a programação, achei que o curta-metragem de Daniel Ribeiro (por ser um diretor de filmes mais sofisticados) teria uma recepção morna e o longa-metragem de Rosane Svartman iria criar uma catarse no cinema repleto de jovens. Engano, ledo engano.

Ambos foram fortemente aplaudidos. Claro que “Desenrola” tem mais apelo e elenco televisivo, sequencias musicais intermináveis etc. Mas, para o “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, que é 1-curta-metragem; 2-temática gay; 3-tem mais cara de “filme de arte”, a recepção foi muito calorosa, mesmo.

Essa recepção põe um bem-vindo ponto de interrogação sobre o que é um filme popular jovem. “Desenrola” aposta na estética da televisão. “Eu Não Quero Voltar Sozinho” usa o cinema. E ambos dialogam abertamente com o público.

Só para ter um exemplo: Bia, 14 anos, a super simpática filha da Flávia Arruda, uma das assessoras do Festival de Paulínia (ao lado da Carol e da Margô), disse ter gostado de “Desenrola”. Mas, em comparação com “As Melhores Coisas do Mundo”, prefere o filme da Laís Bodanzky. Porém, o que ela “amou” foi “Eu Não Quero Voltar Sozinho”.

A juventude ainda tem salvação ;)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Beijo da Mulher Aranha

De Paulínia

Pena que não tenho tanto tempo para falar sobre “O Beijo da Mulher Aranha”. Festival é sempre uma correria e sempre fica aquela sensação de que você está perdendo alguma coisa. Mas o filme de Hector Babenco, exibido com uma cópia restaurada ontem à noite, pede um comentário à cada camada. Fala-se de muita coisa naquele filme. Vou pegar apenas uma.

Méritos sejam divididos à direção de Babenco, ao texto original do livro de Manuel Puig e à adaptação do roteiro de Leonard Scharader, “O Beijo da Mulher Aranha” tem a maestria de captar a dificuldade de social de ser gay entre os anos 70 e 80.

William Hurt interpreta Luis Molina, preso por ter feito sexo com um adolescente, que divide cela com Vicente Arregui, preso político. O personagem de Molina transpira dignidade, mas se afasta da representação idealizada.

Em linhas muito rápidas, um dos aspectos brilhantes do filme está na feitura do personagem homossexual. O filme de Babenco é irmão de “Romance”, de Sérgio Bianchi (no sentido de falar da impossibilidade do amor), da canção “Ideologia”, de Cazuza (“o meu prazer/agora é risco de vida), e do curta-megragem “Bailão”, de Marcelo Caetano (que reconta a história da famosa boate paulistana sob uma perspectiva política).

Existe muita coisa para se falar de “O Beijo da Mulher Aranha”, seja pelo olhar onírico ou pelo realista. Mas, só para começar a conversa, o personagem gay merece o registro pela habilidade do filme em entender uma época.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Easy Rider e Dennis Hopper


Dennis Hopper se foi. Não dá nem para lamentar muito porque, como ele estava brigando com um câncer há tempos, a morte é alívio. Sem contar que ele aproveitou, e muito, a liberdade da vida.

Falando em liberdade, peguei “Easy Rider”, co-protagonizado, co-roteirizado e dirigido por ele. No Brasil, saiu como “Sem Destino”, para assistir. Uma edição linda, comemorativa do 30º aniversário do longa, lançada pela Columbia, com direito a legendas em tailandês, chinês e coreano – alguém se aventura nessas línguas?.

Sim, liberdade é o assunto, mas não está nas palavras, nem nos diálogos. Está sim nos gestos, mas não só. Está principalmente pela não necessidade de causa e efeito, ou da explicação de onde os personagens vieram. The ride is easy, é isso que Denis Hopper quer com o filme.

“Easy Rider” é de 1969 e só poderia ter sido feito como um road movie. No vazio das estradas, nas imensidões das paisagens do Arizona ou do Novo México, na imprevisível aparição de novos personagens no caminho da dupla.

Só que o filme tem várias portas que permanecem abertas após o fim. Frases que indicam algo muito sério, mas que está extremamente imbuído no subtexto, como um “We blew it” que sai do nada, logo antes da grande última sequência, ou a própria conclusão do filme, um grande ponto interrogação digno de fazer os irmãos Coen tirarem o chapéu.

Como, para mim, o grande assunto do filme é a liberdade – tratada sob a perspectiva da contracultura e da mistura entre drogas, política e sexo –, chuto um significado para o final. Para mim, o roteiro de Hopper, Peter Fonda e Terry Southern previu o que se tornaria os Estados Unidos dos anos 70.

O espaço para os hippies e para a liberdade sem controle estava indo para o saco. O país “entrou na ordem”, embarcou em suas guerras e foi caindo cada vez mais à direita na esfera política. A resposta à contracultura foi um crescimento do conservadorismo que só viria a pisar no freio em meados dos anos 90, com Clinton, e sair de cena (ao menos, temporariamente) com Obama.

Mesmo sendo um filme que responde efetivamente à sua época, “Easy Rider” fica impregnado, viu? Hopper dirige como se fosse Scorsese e ainda se inspira em Hitchcock para filmar um assassinato.

Falando em Scorsese, me veio um livro que finalmente começo a ler hoje à noite, “Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’roll Salvou Hollywood”, cuja edição brasileira foi traduzida por Ana Maria Bahiana.

O subtítulo fala justamente de “Easy Riders, Ranging Bulls”, em referência tanto ao filme de Hopper como o “Touro Indomável” de Scorsese. Ouvi coisas maravilhosas do livro e, só pelo título, me fez pensar o seguinte: dá pra pensar o cinema americano dos anos 70 em diante sem Scorsese e sem Coppola? Difícil, né?

Se essa geração salvou Hollywood do marasmo, quem é que irá salvá-la agora? As adaptações de quadrinhos? Como tem ficado cada vez mais difícil se surpreender com um filme americano contemporâneo. Por isso que, a cada novo longa do Clint Eastwood, a expectativa vai lá em cima.

PS: chamada da primeira página da “Folha de S. Paulo” neste domingo: “O astro de cinema Dennis Hopper, 74, morreu em sua casa em Venice, na Califórnia. Americano, ele sofria de câncer de próstata. Hopper ficou mundialmente famoso como ator e diretor do filme “Sem Destino” (“Easy Rider”), de 1969, em que contracenou com Peter Fonda”.

Chamada preguiçosa que ainda perdeu a chance de contar que o filme revelou um tal de Jack Nicholson. Já a matéria de dentro, provavelmente escrita às pressas, é irritantemente burocrática e presa a um infográfico com uma linha do tempo com os principais trabalhos do ator.

O texto complementar de André Barcinski ainda tenta salvar a colheita, lembrando que Hopper foi um símbolo de rebeldia dentro dos estúdios e um dependente de cocaína por muitos anos. E só.

Já o “Estado de S. Paulo”, ao menos no Caderno2, não publicou sequer uma linha.

domingo, 23 de maio de 2010

Ladrão de Casaca


Depois de me frustrar porque o aparelho de DVD simplesmente resolveu parar de rodar “Sangue de Heróis”, do John Ford, voltei pra estante e resolvi pegar algo que há muito ensaiava assistir, mas nunca tive coragem.

“Ladrão de Casaca”, de Hitchcock. Quer dizer, tem lá a assinatura do diretor e uma aparição dele em uma cena, mas está longe de ser um filme realmente pensado e conduzido como Hitchcock. Botando os pingos nos is, “Ladrão de Casaca” é um filme completamente trivial e igual a outras dezenas, um ponto muito baixo na carreira do cineasta. Trocando por miúdos, é chato mesmo!

É curioso como há pouquíssimas coisas no filme que podemos encontrar a marca dele. Por exemplo, a sequência inicial. Um filme de Hitchcock não apenas começa, mas já está a ponto de bala na partida. O grande mistério ou uma mudança abrupta da rotina de seus personagens (os “beats” que o guru de Hollywood Robert McKee tanto fala) ocorre na primeira cena, sem perda de tempo.

Outro detalhe que permite enxergar minimamente Hitchcock é a divisão do seu herói John Robie (Cary Grant, extremamente lindo). No passado, um ladrão de jóias. No presente do filme, um homem que precisa provar a sua inocência quando um imitador de seus métodos começa a atacar os ricaços. Ali está a divisão entre aparência (Robie é um ladrão) e essência (Robie está tentando pegar o ladrão).

Bom, acabam aí as características do mestre do suspense em “Ladrão de Casaca”. Um dos méritos de Hitchcock, como diretor, é justamente não se prender apenas em “quem é o criminoso?”, ou seja, no desfecho de “whodunnit?”. O suspense é sempre gancho pra ele falar de outras coisas, como da própria discussão sobre o cinema (“Janela Indiscreta”) ou na desunião/união entre corpo e alma (“Um Corpo que Cai”).

Mas o Hitchcock de “Ladrão de Casaca” está mais pra Aghata Christie. O mistério que se auto-alimenta. Tipo os filmes de M. Night Shyamalan.

Ah, pra que eu não seja chamado de chato, a dupla de protagonistas é mais bela do que toda a Riviera francesa. Cary Grant, o homem mais sexy de Hollywood nos anos 40 e 50, ao lado de Grace Kelly, de rosto inocente e feminilidade agressiva.

Fiquei até pensando no DVD especial que a Paramount lançou, sob o selo de “Edição de Colecionador”, com uma penca de extras. Jura mesmo que “Ladrão de Casaca” tem fãs fieis assim? Wow! Então quero uma edição especial para “Frenesi” também.

Em tempo: Ah, sim, “Ladrão de Casaca” tem locações turísticas, palacetes, figurino requintado e mansões. Preguiça.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ugo Giorgetti dispara

Existe um adjetivo mais forte do que "minúsculo"? "Diminuto", "ínfimo", "miúdo"? Para um cineasta bom como Ugo Giorgetti, infelizmente são esses os adjetivos justos para definir o tamanho do lançamento de "Solo", seu filme mais recente, que estreia nesta sexta, 14 de maio.

Na verdade, estrear já é uma vitória para o filme, já que o Adhemar do Espaço de Cinema foi resgatá-lo do limbo iminente. Confesso que ainda não assisti ao filme, mas tenho um baita respeito por outras coisas que o Giorgetti já fez, como "Festa" e "Sábado".

O cineasta deu uma entrevista séria ao Mauricio Stycer, publicada lá no UOL Cinema (o link está aqui). Um misto de sinceridade, decepção, raiva, resignação, crítica. Pulando os adjetivos e indo pra onde realmente interessa, Giorgetti questiona: pra onde vai o cinema brasileiro?

Só pra ter uma ideia:

- "E também o fato de que não é o seu roteiro, a sua ideia ou o seu valor pessoal que transforma você num candidato forte a fazer um filme, mas os seus contatos sociais. Formou-se uma cadeia que não tem nada a ver com o cinema."

- "Eu tinha o roteiro deste novo filme antes mesmo do “Boleiros 2”. Inscrevi na Ancine com outro título, “Abaixo a Ditadura”. Começamos a trabalhar e eu percebi que “Boleiros 2” era mais fácil de viabilizar em termos de dinheiro. Mas eu tinha que cancelar este projeto na Ancine – você não pode ter dois filmes ao mesmo tempo. Aí o burocrata na Ancine falou: “Esse filme é muito mais legal que o ‘Boleiros 2’. Não cancela”."

- "Fui no “pitching” (uma audição para seleção de projetos) em Paulínia. O cara que ia julgar os projetos logo falou: “Eu queria dizer que nós não entramos no mérito dos roteiros”. Eu falei: “Desculpe te interromper, mas você não entra no mérito dos roteiros?” Ele: “Não. O nosso critério é o quanto o filme vai ser rodado em Paulínia, quanto dinheiro vai ficar aqui, quantos empregos ele vai gerar”."

A entrevisa na íntegra ainda traz mais coisas para pensar e discutir, afirmar e desmetir. Algo que precisa ser lido.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Jafar Panahí: preso no Irã

Juliette Binoche chorou na coletiva sobre “Copie Conforme”. Jafar Panahí, cineasta iraniano premiado tanto em Cannes como em Veneza, foi preso pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad. A razão oficial, nenhuma. Trata-se de mais uma tentativa de impedir os cineastas de falar, assim como o governo chinês fizera no fim dos anos 90 – lá, ou os diretores se submetiam ou não conseguiam mais filmar, como lembra Jia Zhang-ke.

Pois bem, Jafar está preso e, como protesto, o Festival de Cannes o escolheu como jurado. Cadeira vazia nas reuniões do júri. O que levanta duas questões:

1) A força do cinema. Filmes já foram usados como propaganda, combustível militante, reafirmação do imaginário de um povo, uniu tribos sob identidades. Mas, qual a força do cinema hoje? Se pensarmos sobre a vitória de “Guerra ao Terror” no Oscar, filmes continuam com impacto, já que a Academia deu seu prêmio a uma produção que ressalta os valores bélicos norte-americanos.

Mas, se pensarmos na prisão de Jafar Panahí, parece nenhuma. Ao mesmo tempo que prender um cineasta pode significar o medo de um governo pelo poder dos filmes, isso mostra também que a capacidade de mobilização é mínima. O que aconteceu, desde então? Cannes o colocou como júri para protestar e alguns cineastas assinaram um manifesto.

Qual a pressão que as associações de roteiristas e diretores fizeram sobre os governos de seus países? Cadê protesto nas ruas? Por que não se faz filmes que tenham a censura iraniana como tema? Nenhuma pressão sobre as relações comerciais entre os países e o Irã?

O que leva a uma segunda ideia:

2) Manter desocupada a cadeira de Jafar Panahí é o protesto mais efetivo? Que tal Thierry Fremaux, o diretor do festival, parar Cannes? Por que é muito radical? Vai se perder muito dinheiro? Por que artista não interfere na vida, apenas fala dela?

Fico pensando em Jean-Luc Godard e François Truffaut que, ao lado de outros cineastas, implodiram Cannes em 1968. Claro, outro momento, mas, como lembra o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”, havia algo mais importante que o cinema naquele momento: a vida.

Por isso, Godard, que se tornou uma figura completamente esquisita, questionava: pra quê discutir plano geral, plano médio ou qualquer outra coisa se o mundo está fervendo lá fora do Palais des Festivals? Como se furtar à vida quando ela pede urgência?

terça-feira, 4 de maio de 2010

Damas do Prazer 2

Há umas duas semanas atrás, escrevi sobre “Damas do Prazer”, considerado um dos filmes mais sofisticados da Boca do Lixo, lá pro Cineclick (o link está aqui). O filme faz parte da mostra Clássicos e Raros, cuja seleção está ótima, atualmente rolando no CCBB e na Cinemateca.

Além da falta de pudor que o diretor/fotógrafo Antonio Meliande tem não só com o sexo, mas com se aproximar (e não se esconder) dos temas que surgem ao longo do filme, faltou mais um detalhe que eu só percebi hoje, na aula do Inácio, quando se falou de Emile Zola e a adaptação de Jean Renoir para “A Besta Humana”.

Pois bem, “Damas do Prazer” é inspirado em alguns contos do Zola, em especial "Nana". Eu não conheço absolutamente nada de sua literatura, mas na aula de hoje discutimos sobre como ele dá um ar heróico a operários. Como ele posiciona seu olhar dando aos pobres do cotidiano a mesma importância dada pela literatura clássica aos ricos. É um olhar social, mas também humano. É afirmar que a rotina deles é tão merecedora de atenção artística quanto a de seus patrões.

Quando assisti a “Damas do Prazer”, simplesmente não saquei, por desconhecer Zola, de onde vinha a inspiração do escritor no filme. Pimba, a ficha caiu: está no tratamento dado às prostitutas!

No filme, produzido em 1979, são cinco mulheres. Umas na flor da idade, caso da Japa, outras virando a curva, como Cora. O que a direção e o argumento escrito por Ody Fraga fazem? Antes de serem taxadas como mulheres da vida, sedutoras, imorais, sofredoras bla bla bla, “Damas do Prazer” coloca um elemento fundamental: trabalhadoras. Sem juízo de valor. Não são mais ou menos trabalhadoras pelo fato de serem prostitutas. Apenas operárias – no caso, do sexo.

Passando o filme na cabeça depois de ter um mais que rápido contato com as ideias de Zola, fica muito claro isso como textura. Claro que pintam umas aventuras, dramas, amores, felicidades e etc no caminho das cinco mulheres. Só que, antes de tudo isso, o filme as colocas como operárias que batem cartão – rodam a bolsinha, digamos –, toda noite no ponto.

É só um comentário que achei necessário acrescentar para ampliar um olhar de quem assistiu ao filme trinta anos depois de ser feito e sem um contato íntimo com o sistema da Boca do Lixo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A história do cinema chileno I

Numa viagem a Campinas em 2008, passei por um restaurante que tinha uma livraria na saída. Comprei dois livros: a biografia de Truffaut e um outro livro bem baratinho e destruído. “Historia del Cine Chileno – 1902/1966”.

Mario Godoy Quezada realizou o primeiro trabalho confiável de compilação de todos os filmes produzidos no Chile até metade da década de 60. Infelizmente, não analisa as produções ou procura aproximações estéticas entre elas. Seu objetivo é levantar tudo que foi feito ano a ano, quem dirigiu, quem estrelou, qual foi a repercussão.

No meio disso, há umas histórias divertidas que ilustram uma mistura de amadorismo e vontade de fazer cinema – especialmente no período mudo, o mais prolífico no Chile. Um dos causos ocorreu em 1924, que transcrevo, com tradução livre, aqui:

“QUANDO LUIZ ROMERO PEDIU AJUDA

Luis Romero y Z protagonizou um episódio curioso em Valparaíso quando decidiu tornar-se produtor e filmar “La Tarde era Triste”, baseada na popular canção cujos primeiros versos dizem: La tarde era triste, la nieve caía, un blanco sudario los campos cubría. Ao terminar de filmar o segundo rolo, já não tinha mais dinheiro para filmar. Então, anunciou a estreia e, ao final da projeção do segundo rolo, ele subiu ao palco e surpreendeu ao público, que havia ido ao cinema assistir a uma película completa. Romero y Z explicou as dificuldades econômicas que tinham que vencer os cineastas chilenos, utilizando sua própria história como exemplo. Disse que naquele exato momento não tinha mais nenhum peso para continuar a rodar, que só tinha conseguido filmar o que o público acaara de ver e que, para terminar, precisaria de financiamento. Há versões diferentes. Uns dizem que ele encontrou o rico necessário para soltar a verba, enquanto outros dizem que ele desceu do palco e passou o chapéu para os espectadores, disposto a receber de imediato a colaboração de um público ainda espantado com o que tinha acabo de acontecer”.