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domingo, 5 de agosto de 2012

Sobre quando os filmes de Stephen Frears interessavam

Gary Oldman aos 29 anos como Joe Orton em Prick up Your Ears

O plano que abre Prick up Your Ears, em que Alfred Molina pergunta, no meio de uma escuridão, "Joe? John?", é mais interessante do que qualquer outro que Stephen Frears fez desde o oscarizado A Rainha.

A relação é inversamente proporcional: quanto mais anos se passam, menos interessantes ficam os filmes de Frears. Se ainda existe expectativa em quem está descobrindo um Frears dos anos 80 em ver o que virá na sequência, o mesmo não se pode dizer da produção contemporânea do britânico.

É verdade, seus filmes ainda são bons – A Rainha, Chéri – apesar de alguns desastres no caminho – Coisas Belas e Sujas. O que está em jogo não é “bom” ou “ruim”, mas o que gera interesse, filmes sobre os quais se sente vontade de falar.

Tenho dúvidas de que Frears vai conseguir repetir o tesão de seus longas feitos entre 1984 e 1990. Um dos que me agradam bastante é justamente Prick up Your Ears, mas entram também na lista The Hit (84), Minha Adorável Lavanderia, Ligações Perigosas (88) e Os imorais (90).



Nos filmes mais novos de Frears faltam um pouco daquela inteligência na decupagem, da sensibilidade de deixar a carga dramática da cena determinar a decupagem. Casos de quando entra um terceiro elemento na relação de Joe e Kenneth, ou na cena da morte (com inspirações fortes do expressionismo) ou na da orgia no banheiro.

Prick up Your Ears surge da biografia que John Lahr escreveu de Joe Orton, promissor escritor e dramaturgo britânico assassinado a marteladas pelo namorado Kenneth Halliwell em 1967. Orton estava preparando um roteiro para os Beatles naquele momento. Kenneth, o supostamente mentor de Joe não aguentou viver nas sombras quando o sucesso alcançou o parceiro.

Alfred Molina no papel de Kenneth -- ou aquele que não sabia que não tinha talento

Há algo desses dois personagens e mais o de Peggy – que abriu as portas para o trabalho de Orton como dramaturgo – que os tornam mais fascinantes do que os que recentemente Frears apresentou. Amor, paixão, inveja, sucesso, psicose, repressão, crônica policial e social... Diante desse material Frears consegue brincar entre o drama, o melodrama e a comédia. Há o auxílio também do roteiro e especialmente da montagem neste filme.

Mas não é só pelas histórias que tornam os filmes de antes mais instigantes que os de hoje. Há algo de direção nisso. Exemplo: a cena que parece uma réplica picante de uma chanchada da Atlântida, quando Joe e Kenneth transam pela primeira vez – durante a coroação de Elizabeth II como rainha. Uma cena divertida de trocadilhos.

Assim como as nuances entre os casais que perpassam o filme, a disputa feminino/masculino, a veia psicótica do assassino...

Vendo esse Prick up Your Ears fica a sensação de que Frears não fará mais filmes tão interessantes como esses de meados da década de 80.

PS: no lançamento do DVD de The Hit pela Criterion, publicou-se um ensaio bom e necessário para contextualizar o momento da produção britânica quando Frears passa a fazer longas para cinema. Clique aqui e leia.

Textos relacionados:
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sábado, 8 de março de 2008

Day-Lewis e a síntese dos anos 80

Daniel Day-Lewis ganhou, em 2008, o Oscar de melhor ator pela segunda vez. Sua interpretação de Daniel Plainview em Sangue Negro (There Will Be Blood) é marcante. Um dos pioneiros da prospecção de petróleo nos Estados Unidos, Plainview ganhou traços rudes e ambiciosos no trabalho de Day-Lewis.

Porém, antes do coração-de-pedra Plainview, o ator inglês havia se destacado em outro trabalho, há 23 anos, interpretando o também durão Johhny – este, porém, era bravo só na aparência.

O ano é 1985 e o filme é Minha Adorável Lavanderia (My Beautiful Laundrette), de Stephen Frears, mostrando a cena punk da Inglaterra bem diferente da pompa de A Rainha. O filme se passa em tempos de Tatcher no Reino Unido e Reegan nos EUA. Ou seja, neoliberalismo em alta, qualquer outro pensamento político em baixa.

O diretor usou os diferentes rumos tomados por dois irmãos paquistaneses para mostrar o confronto entre capitalismo e comunismo. Papa (Roshan Seth), socialista, foi jornalista e publicou diversos livros no Paquistão. Também foi um apoiador de Zulfikar Ali Bhuto, morto em 1979 após golpe de Estado dois anos antes. Hoje está numa pior, desiludido e afogado no álcool.

Seu irmão, Nasser (Saeed Jafrey), é rico e mantém a rédeas curtas um grupo de paquistaneses que se organizam à maneira das famiglias italianas. Nasser aproveita os tempos de domínio no mercado na Inglaterra para fazer dinheiro. Com dó de seu irmão, dá um emprego ao sobrinho Omar (Gordon Warneck), um dos milhares de jovens desempregados na Inglaterra, dá a ele um emprego em seu estacionamento.

Omar é ambicioso, quer fazer dinheiro. Seu pai quer que ele estude, vá para a universidade. Sua história se cruza com a de Johnny (Daniel Day-Lewis), antigo amigo de colégio que já na adolescência se juntara aos hoolingans.

Os dois reatam a amizade e Johnny passa a trabalhar para Omar. Mais que isso: se apaixonam. Os conflitos surgem porque a família paquistanesa quer que Omar se casa. Os amigos fascistas de Johnny não admitem que ele se uma a um “paki”.

Qual o mérito do filme? Abarcar várias faces da década de 80. Minha Adorável Lavanderia tem a cena homossexual desabrochando com mais liberdade em relação às décadas anteriores. Tem o princípio de desilusão com o comunismo. Tem o desemprego causado pela destruição do Estado de bem estar social. Tem a xenofobia europeia.

A frase-chave do filme: depois de meses sem sair de casa, Papa vai a inauguração da lavanderia do filho e lá encontra Johnny, que conhecia desde a infância. Depois de uma rápida conversa, pede para que use sua influência junto ao filho para demove-lo da idéia de ser dono de uma lavanderia. E sentencia para Johnny: “Você também tem de ir para a universidade. Todos nós temos de ter conhecimento para entender o que está sendo feito, e para quem, neste país”.