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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Cinema Americano dos Anos 70 - Curso no CineSesc

Prezad@s leitores deste blog, peço licença para fazer uma autopromoção. Começa no próximo dia 14 de maio, no CineSesc, o curso Cinema Americano dos Anos 70, o qual ministrarei ao lado do crítico de cinema Sergio Alpendre. Aos interessados pelo assunto, informações completas vão abaixo.



Cinema Americano – Anos 70

Estados Unidos, anos 1970. Com o surgimento dos vários Cinemas Novos ao redor do mundo na década anterior e uma sensível mudança comportamental, uma geração de jovens cineastas – Scorsese, Coppola, De Palma, Friedkin, entre outros, que seriam identificados como Nova Hollywood – abre espaço por entre os estúdios e consegue fazer outro tipo de cinema, mais próximo dos anseios da juventude e num modo de produção menos engessado.

Enquanto isso, os mestres do Cinema Clássico – Billy Wilder, Mankiewicz, Kazan, Cukor – rodam seus últimos longas, assistindo ao crepúsculo de uma era. Contemporâneo à geração da Nova Hollywood, outros talentosos diretores começam a ganhar reconhecimento (Woody Allen, Robert Altman, Sam Peckinpah), espinafram o status quo (John Waters), veteranos mantém o espírito de risco (John Cassavetes) ou alcançam o sucesso (Don Siegel).

À margem, dois cinemas de gênero se fortalecem: o Horror, que tem em George Romero um sintoma do mal estar da sociedade norte-americana no período, e o Blaxploitation, que pela primeira vez coloca os negros como protagonistas em filmes de ação com heróis charmosos e incorretos, embalados pela música soul.

O curso Cinema Americano – Anos 70, ministrado pelos críticos de cinema Sérgio Alpendre e Heitor Augusto no CineSesc, vai traçar um panorama de um dos momentos mais ricos da produção norte-americana, marcado por algumas obras-primas, filmes conectados com o espírito de seu tempo e outros saudosos de um passado irrecuperável.

Cronograma

AULA 1: CREPÚSCULO DOS MESTRES

Crise em Hollywood, novos modos de produção e a chegada de jovem cineastas: para onde vão os mestres? Breves notas sobre os últimos filmes de Billy Wilder, Joseph L. Mankiewicz, Orson Welles, Elia Kazan, Vincente Minnelli e George Cukor.

AULA 2: BLAXPLOITATION E OS HERÓIS SEDUTORES

Panteras Negras, cinema jovem e heróis mal educados: quando os negros invadem o cinema em divertidos filmes de ação como Shaft e Cleópatra Jones. Ecos da mostra Tela Negra no CineSesc.

AULAS 3 E 4: NOVA HOLLYWOOD

Os cineastas que ficaram mais identificados com a Nova Hollywood: Scorsese, Coppola e De Palma. Mas também Friedkin, Bogdanovich, Bob Rafelson e Schrader. Como essa geração de cineastas-cinéfilos mudou a cara da indústria com seus filmes.

AULA 5: HOLLYWOOD ALÉM DA NOVA HOLLYWOOD

Não se enxergavam como um grupo, mas também fizeram cinema de um jeito diferente: os filmes de Woody Allen, John Cassavetes, Robert Altman, Sam Peckinpah, Don Siegel e John Waters.

AULA 6: ROMERO E O CINEMA DE HORROR

O gênero e seu tempo: seguindo a afirmação do crítico Robert Paul “Robin” Wood, a proliferação do horror no cinema americano dos anos 70 era um sintoma do mal-estar pelo qual passava a sociedade americana.


Serviço
Local: CineSesc (Rua Augusta, 2075)
Período do curso – 14 a 25 de maio
Horário – 19h30 às 21h30
Dias – Segundas (14 e 21), Quartas (16 e 23) e Sextas (18 e 25)
Valor total do curso: R$ 40 (inteira), R$ 20 (usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante) e R$ 10 (trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes)
Inscrições somente no CineSesc (3087-0500) - http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=220425


Biografia dos professores

Sergio Alpendre é crítico de cinema, professor, pesquisador e jornalista. Pós-graduando em cinema pela USP. Editor e fundador da Revista Interlúdio. Foi redator da Contracampo de 2000 a 2010. Colaborou para diversos veículos, incluindo Foco, Taturana, Cadernos Mais e Ilustrada (Folha de S. Paulo), Cineclick e revistas Bravo e MOVIE. Foi curador das mostras Retrospectiva do Cinema Paulista e Tarkovski e Seus Herdeiros, para as quais editou também os catálogos. Foi editor da 4ª edição da Revista da Programadora Brasil. Atualmente é redator do UOL Cinema e colaborador do Guia Folha (livros, discos, filmes). Ministra cursos de história do cinema e oficinas de crítica por todo o Brasil.

Heitor Augusto é jornalista e crítico de cinema colaborador das revistas Interlúdio, Preview, ESPN, além do site Cineclick. Escreve sobre filmes do circuito comercial, além de cobrir os principais festivais de cinema no Brasil e publicar ensaios temáticos. Colabora também com a Revista Zingu!, dedicada à História do cinema brasileiro. Publicou ensaio no livro Os Filmes que Sonhamos sobre o longa-metragem E A Vida Continua. Escreveu também para a Revista de CINEMA e Agência Carta Maior. Sócio-fundador da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, é editor do site da entidade. Mantém também o blog Urso de Lata.


terça-feira, 6 de março de 2012

Dossiê Coppola – ensaios do diretor de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now



Francis Ford Coppola, o diretor de obras-primas dos anos 1970 que ultimamente tem sido lembrado mais como dono de vinícola, é alvo de um amplo e maravilhoso dossiê da Revista Interlúdio, projeto que integro com muitíssimo orgulho [acesse aqui a home page do dossiê].

O Dossiê Coppola repete os moldes do que foi feito em janeiro com Alfred Hitchcock. São seis ensaios aprofundando questões do cinema do diretor das obras-primas O Poderoso Chefão, A Conversação e Apocalypse Now.

Abre o dossiê o ensaio “Breve Introdução ao Cinema de Francis Ford Coppola”, escrito pelo crítico Sérgio Alpendre, editor da Interlúdio, sobrevoando características gerais da carreira do diretor, roteirista e produtor.

Na sequência, “Anos 60: quando Coppola tornou-se um homem”, escrito pelo editor deste Urso de Lata comenta os primeiros filmes do período de formação do cineasta, em especial o grande Caminhos Mal Traçados (1969) e o divertido Agora Você é um Homem (1966), passando também pelo desastroso musical com Fred Astaire, O Caminho do Arco-Íris (1968).

“Sombras na Filmografia de Coppola”, de Leandro Cesar Caraça, esclarece a função de Coppola em diversos outros filmes além dos que assina como diretor ou roteirista, seja produzindo ou tapando buracos, como aconteceu no início da carreira, ou sendo apadrinhado por Roger Corman.

Por sua vez, o ensaio “A Saga de Michael Corleone”, também assinado por Alpendre, mergulha na trilogia do Chefão, apontando a melancolia do personagem e o caminho sem volta assumido da família Corleone.

As relações entre literatura e cinema são analisadas em “De Coração das Trevas a Apocalypse Now”, no qual Cesar Zamberlan escrutina a narrativa d olivro que é ponto de partida para mais uma obra-prima de Coppola.

A década de 1980, quando o sonho da Zoetrope é definitivamente enterrado, ganha análise de Luiz Carlos Oliveira Jr. no ensaio “'Nothing Gold Stay Gold': Coppola nos anos 80”, em que O Fundo do Coração e Vidas sem Rumo são contrapostos à produção setentista: a melancolia

Para encerrar, curiosidades da extensa carreira de Coppola são postas em lista no “ABC de Coppola”. Como cereja no bolo, filmografia completa comentada por diversos colaboradores da Revista Interlúdio.

Só posso convidar aos leitores que confiram o extenso Dossiê Coppola, devorem o cardápio com regozijo e que encontrem nos textos aberturas para ver, rever e reposicionar (positiva ou negativamente) a obra de Francis Ford Coppola.

Marlon Brando em Apocalypse Now

segunda-feira, 5 de março de 2012

Drive - Crítica


"Não carrego armas. Apenas dirigjo", diz Ryan Gosling, protagonista de Drive


Drive é um filme que permite um diálogo entre Francis Ford Coppola, Brian De Palma e Abel Ferrara. Tem-se neste que é o filme mais vigoroso e pulsante lançado (com muito atraso) no Brasil até este mês de março o trabalho de composição de O Poderoso Chefão, a violência sem volta de Scarface e o mergulho na podridão de um Vício Frenético.

Mas este filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn que muito antes de estrear no circuito brasileiro já ganhou status de cult, seja pelas exibições no Festival do Rio ou pelos compartilhamentos e fóruns da internet, é uma fábula macabra sobre Los Angeles. E isso dá cores um pouco diferentes dos seus colegas que falaram da podridão na Flórida ou em Nova York.

Faltou chamar para o diálogo outro filme: Chinatown, de Polanski, este sim um comentário sobre as bases corruptas e o histórico de crimes e ameaças que está no solo (literalmente) de Los Angeles.



Pronto, é com esses quatro filmes que vejo Drive estabelecendo pontes – apesar de, na entrevista a amigo Paulo Gadioli publicada na Rolling Stone, o compositor Cliff Martinez afirmar que O Massacre da Serra Elétrica foi uma das referências de Winding Refn.

A produção que o dinamarquês fez nos Estados Unidos, mas que passou (injustamente) ao largo do Oscar, numa clara demonstração do “humor” da Academia e do que se pretende manter ignorado à margem, é um filme de herói violento que se parece um OVNI no panorama do que se faz hoje em termos de filmes sobre a máfia ou centrado num personagem justiceiro.




A relação com o tempo narrativo é um tanto sinfônica neste filme. “Nada acontece”. Na verdade, tudo acontece. Prepara-se o terreno e ambienta-se o espectador no que está por vir. Só que num contexto de audiências ávidas por acontecimentos e eventos, Drive é tido como um filme lento, em que muita gente vai sair falando que é “chato, mas a fotografia é linda”.

(Parênteses: não deixa de impressionar como a velocidade e o desempenho autômato tornou-se uma quimera em cada pequeno espaço das nossas vidas, inclusive no futebol. Jogadores que cadenciam e que constroem com vagar uma jogada invariavelmente ganham a pecha de “desligados” ou “atrasam o time”. Parece não haver mais tempo para um ritmo que não a da velocidade limite, seja na narrativa cinematográfica, no futebol ou até mesmo no trânsito de São Paulo, que acaba de vitimar mais um ciclista em nome da “fluidez” ditada pelo automóvel, o corpo-máquina. Fecha parênteses).




Mas Drive é mesmo um filme de herói em conflito construído com um apuro ímpar pela beleza dos planos. Porque o Driver que Ryan Gosling performa é uma espécie de John Rambo atirado num filme que glorifica uma das bases da linguagem do cinema: a relação de tempo e espaço. O herói tem de voltar, contra a própria vontade, à era da escuridão e revisitar um passado que não mais lhe interessa. Não será mais possível cumprir o que diz no começo do filme: “Eu não entro no jogo enquanto você estiver roubando. Eu não levo arma comigo. Eu dirijo”.

E como qualquer herói de um filme que não busca a conciliação, há o sacrifício. O que torna a música de encerramento dos créditos de uma precisão absurda. Diz a letra: “Real human being, and a real hero”.

Não dava para ser de outro jeito.

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Análise do Oscar: O Artista leva 5 estatuetas e reforça poder de Weinstein

O Artista dominou principais categorias do Oscar


As cinco estatuetas que O Artista ganhou no 84º Oscar em 2012, incluindo Melhor Filme e Direção [veja todos os vencedores], mostram que Harvey Weinstein, o cara que colocou Cidade de Deus sob os holofotes do Oscar, é de novo o rei do pedaço.

Afinal, em tempos de franquias, filmes de super-heróis genéricos e orçamentos astronômicos, não é fácil tornar um filme em preto-e-branco (e mudo) no filme-que-todo-mundo-está-comentando.

Num ano em que os longas favoritos – o de Hazanavicius e o de Scorsese – falaram sobre cinema, os membros preferiram o que ficou mais na superfície. Com isso, A Invenção de Hugo Cabret reinou nas categorias técnicas, mas passou ao largo das mais visadas.

Entre a comédia romântica muda francesa que imita e celebra a Hollywood dos anos 1920 e 30 e o filme para toda a família que fala de memória cinematográfica e preservação de arquivos, ganhou o primeiro. Em todo o caso, fosse a estatueta de Melhor Filme para O Artista ou para A Invenção de Hugo Cabret, este ano foi uma temporada de produções superestimadas.

Mas é melhor nem reclamar por um filme apenas satisfatório ter ganho o Oscar. Se dermos uma olhada quem saiu vencedor nos anos 2000, vamos encontrar Chicago, O Discurso do Rei ou até mesmo Quem Quer Ser Um Milionário?. Ao menos a existência de O Artista me parece mais interessante por dialogar com o cinema e quebrar o ciclo de lixo tecnológico que invadem as salas semanalmente.


A Invenção de Hugo Cabret, outra homenagem ao cinema, levou cinco estatuetas

No meio dos prêmios entregues nas quase três horas de cerimônia, alguns fatos que quebraram a monotonia. Meryl Streep ganhou sua terceira estatueta após 29 anos, desta vez pelo mediano A Dama de Ferro. Teve também um Oscar de Roteiro Original para Woody Allen que, como de praxe, nem apareceu no Kodak Theater. Woody não ganhava um Oscar de Roteiro desde Hanna e suas Irmãs (1987).

Outra estatueta marcante como fato histórico foi a de Atriz Coadjuvante para Octavia Spencer, apenas a oitava ator/atriz negra a ganhar o prêmio da Academia. Mais um para a lista de fatos: Christopher Plummer, ganhador do Oscar de Ator Coadjuvante por Toda Forma de Amor, é o mais velho a levar uma estatueta (82 anos).

A grande gafe da morna cerimônia foi sem dúvida o tradicional vídeo que a Academia faz para homenagear os profissionais que morreram no último ano. Assim como nos anos anteriores, muita gente ficou de fora. O pior em 2012 é que gênios foram esquecidos, especialmente Theo Angelopoulos (A Poeira do Tempo) e Raul Ruiz (Mistérios de Lisboa). Esqueceram-se até de Maria Schneider, a atriz da cena da manteiga em O Último Tango em Paris.

Não se esqueceram, porém, de Whitney Houston ou de Steve Jobs.

A cerimônia teve também um plano no avantajado bumbum de Jennifer Lopez e no não tão dotado de Cameron Diaz, além de as pernas de Angelina Jolie terem ficado de fora por conta de seu ousado vestido. O Oscar fez uma nova tentativa em se tornar mais descontraída – steadicam acompanhando Robert Downey Jr. no palco, o mestre de cerimônias Billy Cristal se misturando na plateia, apresentadores com mais espaço para brincar – e discursos muito, mas muito curtos, felizmente.

A sensação deste Oscar 2012 é que a Academia se parece cada vez mais com os produtores mais velhos dos anos 1960 que, face às mudanças do mundo e do próprio cinema, chutava para todo lado no afã de recuperar público e entender o que o jovem queria ver nas telonas.

A ver no que isso vai dar.

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Meia-noite em Paris - Crítica

OSCAR 2012: O Artista é o Melhor Filme; veja todos vencedores

Veja todos os vencedores do Oscar em 2012

O Artista ganhou o Oscar de Melhor Filme na cerimônia realizada na noite deste domingo (26/2). O longa-metragem que homenageia o cinema de Hollwyood dos anos 1920 e 30 foi o campeão de estatuetas da noite (cinco).

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, outro favorito da noite, levou também cinco estatuetas, mas concentradas em categorias menos visadas.


Confira todos os vencedores da 84ª cerimônia do Oscar:

Melhor Filme
O Artista

Melhor Diretor
Michel Hazanivicius, de O Artista

Melhor Ator
Jean Dujardim, de O Artista

Melhor Atriz
Meryl Streep, de A Dama de Ferro

Melhor Ator Coadjuvante
Christopher Plummer, de Toda Forma de Amor

Melhor Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas

Melhor Filme em Língua Estrangeira
A Separação, de Asghar Farhadi

Melhor Roteiro Original
Woody Allen, Meia-noite em Paris

Melhor Roteiro Adaptado
Alexander Payne, Nat Paxon, Jim Rash, de Os Descendentes

Melhor Animação
Rango, de Gore Verbinski

Melhor Fotografia
Robert Richardson, de A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Trilha Sonora
Ludovic Bource, de O Artista

Melhor Música
Bret Mckenzie (Man or Muppets), de Os Muppets

Melhor Montagem
Kirk Baxter e Angus Wall, de Millenium – O Homem que Não Amava as Mulheres

Direção de Arte
Laurence Bennett e Robert Gould de A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Documentário
Undefeated, de Daniel Lindsay e T.J. Martin

Melhor Efeitos Visuais
Rob Legato, Josh Williams, Ben Grossman e Alex Henning de A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Edição de Som
Philip Stockton e Engene Gearty, de A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Mixagem
Tom Fleischman e John Midgley, de A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Figurino
Mark Bridges, de O Artista

Melhor Maquiagem
Mark Coulier e J. Roy Helland, de A Dama de Ferro

Melhor Curta-metragem – Ficção
The Shore, de Terry George

Melhor Curta-metragem – Documentário
Saving Face, de Daniel Junge e Sharmeen Obaid Chinoy

Melhor Curta-metragem – Animação
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret: breves comentários

Scorsese participando de cena de A Invenção de Hugo Cabret, favorito ao Oscar


A cerimônia de premiação do Oscar acontece na noite deste domingo (26/2). Para mim só existe um grande filme na lista de indicados e este é A Árvore da Vida (já vejo algumas caras emburradas para essa afirmação). Existem filmes bons, e aí entra A Invenção de Hugo Cabret. É uma produção encantadora, sem dúvidas, e apaixonante por articular comentários sobre o próprio cinema. Melhor: esse filme de Scorsese é um parque de diversão cinéfilo. Mas não é um grande filme.




Scorsese é realmente um cara que faz um bem danado ao cinema. Conseguir colocar num filme caríssimo como Hugo os filmes de George Méliès feito no comecinho do século 20 é para poucos.




No afã de criar diálogos entre os filmes, temos dito que tanto Scorsese quanto O Artista são filmes nostálgicos e que falam do cinema. Espera aí, Pedro Bó, pois existe uma diferença crucial. Cinéfilo até o último fio de cabelo e sempre se posicionando na História do Cinema, Scorsese faz um filme sobre cinema, enquanto Hazanavicius fala de Hollywood. A maneira em que Hugo dialoga com outros filmes (como Safety Last!, a cena que Harrol Lloyd se pendura no relógio) é bem mais interessante.




Ambos os filmes flertam com convenções narrativas na esperança de conectar-se com um grande público (O Artista na história de amor, Hugo com a aventura infantil). A diferença (e daí vem o maior encantamento que um deles provoca) é que Hazanavicius abandona a conversa com o cinema para se tornar uma mera comédia romântica em preto e branco, enquanto Scorsese vai e volta, resistindo para instigar o espectador a descobrir o cinema.



Hugo custou US$ 150 milhões, mesma faixa de outros filmes cheio de efeitos visuais como Velozes e Furiosos 5 (US$ 125 milhões), Missão Impossível: Protocolo Fantasma (US$ 145 milhões) e Thor. Ao contrário desses blockbusters, o filme de Scorsese não chegou nem perto de arrecadar nos EUA o valor de seu orçamento. Isso não é surpresa alguma: Hugo é primeiramente um filme sobre um cinema pouco conhecido (o mudo em sua primeiríssima fase). Quem vai buscando uma grande aventura irá se decepcionar – apesar de ela estar lá, no filme, mas não é o que mais encanta.





O uso do 3D não como ferramenta tecnológica, mas sim como elemento narrativo, faz os outros filmes feitos ou convertidos para o formato parecerem brincadeira de criança. Conseguiu ser até melhor do que a viagem sensorial de Werner Herzog em Caverna dos Sonhos Esquecidos.





Na tentativa de dar conta do que é esse filme de Scorsese, existe uma frase especial: “é por vezes desconjuntado, inflado, no limite perigoso da prostituição hollywoodiana, mas sempre apaixonado”. O autor é o crítico Sérgio Alpendre, editor da Revista Interlúdio. João Nunes, crítico do Correio Popular, também coloca uma questão muito interessante: "Estará o espectador atual, repleto de informações tecnológicas interessado em saber como se fazia cinema mudo e, no caso de Méliès, cinema de fantasia no longínquo final de século 19?"

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Táxi Driver, clássico de Scorsese com De Niro, reestreia no Cine Olido


Táxi Driver (1976), clássico de Martin Scorsese que deu a Robert De Niro um dos mais interessantes papeis de sua carreira, reestreia nesta sexta-feira (9/11) exclusivamente no Cine Olido, em São Paulo. A cópia restaurada, previamente exibida no Festival de Berlim e na Mostra de São Paulo, integra o projeto Em Cartaz no Cine Olido – ingressos a R$ 1.

O filme é um dos grandes documentos do mal estar na sociedade norte-americana pós-Guerra do Vietnã (1959-75). Travis Bickle, o protagonista cuja paranoia fica mais intensa nas cores da cópia restaurada a ser exibida no Olido, é um pequeno comentário de um período de incertezas. Reflete também o breve momento em que o modelo de produção de Hollywood, então em crise, deu espaço a uma outra geração que fez filmes radicais dentro do sistema – e por ele foi engolido no fim da década.

Travis não dorme, não tem amigos, família ou companheira. Nas vésperas das eleições presidenciais, desconhece o que significa Republicanos ou Democratas. Veterano de guerra, volta para a vida civil sem a menor compreensão do termo “vida civil”. Desequilibrado, Travis quer “limpar toda a sujeira e o fedor de Nova York”. No seu táxi, encontra toda a sorte de gente: maníacos, maridos traídos, ricaços com prostitutas, políticos...



Taxi Driver é um documento porque registra precisamente o mal estar de uma sociedade. Um momento de incertezas nos Estados Unidos, de seu Exército foi derrotado em Saigon, e do inoperante presidente boa-praça do momento, Jimmy Carter. No filme, vive-se a apreensão das prévias eleitorais – Charles Palantine, o candidato, não deixa de ser uma citação ao bom-mocismo de Carter, que se tornaria presidente em 1977.

Talvez o melhor exemplo do desequilíbrio de Travis esteja na trilha de Bernard Herrmann, o compositor favorito de Hitchcock. A trilha vai do romântico/idílico ao sombrio/soturno num instante. Uma mudança tão brusca como a ajeitada de Travis no retrovisor na sequência final, indicando que depois da calmaria haverá outra tormenta.

Documento de época, sim, mas também atualíssimo, por conseguir ser a representação do desconforto. São nos momentos de insegurança e indefinições que tipos escondidos na gaiola como Travis vêm à superfície. O discurso do maluco de Realengo, que matou doze pessoas em abril dentro de uma escola, é tão confuso quanto a “limpeza” que Travis propõe como a salvação de Nova York.

Taxi Driver é uma obra-prima atemporal, que vai continuar fazendo sentido por muitas outras gerações. Só é difícil alimentar esperanças de que, dentro de Hollywood, surja um filme como esse, que se transforma, no final, numa grande sinfonia da morte e da falta de sentido humano. Os tempos de Nova Hollywood, da geração que arrebentou portas, mas depois foi engolida, se foram.

Serviço

Projeto Em Cartaz no Cine Olido
Reestreia de Táxi Driver
De 09 a 15/12
Sexta, sábado, terça, quarta e quinta-feira às 19h30
Domingo às 17h30
Segunda-feira, dia 12/12, não haverá sessão
Valor do Ingresso: Inteira: R$1 / MEIA-ENTRADA: R$0,50
Compra do ingresso somente na Galeria Olido, de Terça a Domingo das 14h às 21h na semana do filme
Galeria Olido: Avenida São João, 473



Em tempo: leia a íntegra do roteiro escrito por Paul Schrader neste link.