Mostrando postagens com marcador Curiosidades. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Curiosidades. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A história do cinema chileno I

Numa viagem a Campinas em 2008, passei por um restaurante que tinha uma livraria na saída. Comprei dois livros: a biografia de Truffaut e um outro livro bem baratinho e destruído. “Historia del Cine Chileno – 1902/1966”.

Mario Godoy Quezada realizou o primeiro trabalho confiável de compilação de todos os filmes produzidos no Chile até metade da década de 60. Infelizmente, não analisa as produções ou procura aproximações estéticas entre elas. Seu objetivo é levantar tudo que foi feito ano a ano, quem dirigiu, quem estrelou, qual foi a repercussão.

No meio disso, há umas histórias divertidas que ilustram uma mistura de amadorismo e vontade de fazer cinema – especialmente no período mudo, o mais prolífico no Chile. Um dos causos ocorreu em 1924, que transcrevo, com tradução livre, aqui:

“QUANDO LUIZ ROMERO PEDIU AJUDA

Luis Romero y Z protagonizou um episódio curioso em Valparaíso quando decidiu tornar-se produtor e filmar “La Tarde era Triste”, baseada na popular canção cujos primeiros versos dizem: La tarde era triste, la nieve caía, un blanco sudario los campos cubría. Ao terminar de filmar o segundo rolo, já não tinha mais dinheiro para filmar. Então, anunciou a estreia e, ao final da projeção do segundo rolo, ele subiu ao palco e surpreendeu ao público, que havia ido ao cinema assistir a uma película completa. Romero y Z explicou as dificuldades econômicas que tinham que vencer os cineastas chilenos, utilizando sua própria história como exemplo. Disse que naquele exato momento não tinha mais nenhum peso para continuar a rodar, que só tinha conseguido filmar o que o público acaara de ver e que, para terminar, precisaria de financiamento. Há versões diferentes. Uns dizem que ele encontrou o rico necessário para soltar a verba, enquanto outros dizem que ele desceu do palco e passou o chapéu para os espectadores, disposto a receber de imediato a colaboração de um público ainda espantado com o que tinha acabo de acontecer”.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pássaros conversam


Estou aqui na redação do Cineclick, neste fim de tarde de quinta. Aqui tem um baita gramado e a janela da redação dá de frente para umas árvores. De repente, vários pássaros começam a piar. A Ana Paula comenta: "poxa, eles estão batendo o maior papo".

Ela tem razão, eles parecem conversar. Um deve estar dizendo que prefere o cinema marginal, o outro o cinema novo.

Mas, no fim, me lembrei novamente do filme do Pasolini, "Gaviões e Passarinhos", nas cenas que Toto (que é um padre em parte do filme) conversa com os voadores. Momentos de poesia do longa, momentos de poesia da vida.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Trailer de "Accattone - Desajuste Social"

No fim de uma sexta-feira extremamente morna, de lojas fechadas e pouquíssima gente na cidade, decidi, depois de descobrir que uma sessão do Reserva Cultural estava lotada, voltar para casa e me enfiar na minha videoteca.

Peguei “Accattone – Desajuste Social”, de 1961, primeiro filme de Pasolini cuja versão em DVD foi lançada em uma cópia bonita da Versátil. Antes de assistir, deixei o trailer rolando e fui jantar. Foi um dos trailers mais estranhos que já vi.

Bem diferente do mar de sangue de “O Iluminado” ou da verborragia e falta de surpresa de qualquer filme comercial contemporâneo – parece até que, em breve, o trailer vai substituir a própria obra, tamanha a quantidade de detalhes revelados em um minuto e meio.

O que me espantou no trailer do filme do Pasolini é o tempo gasto apenas para falar como o filme foi bem recebido pela crítica. Nas palavras do vídeo, “um filme que não precisa de propaganda porque os críticos já o recomendam”.

Wow! Então quer dizer que a função da crítica de cinema é recomendar filmes em vez de debatê-los e despertar olhares? O espectador deve assistir ao filme só porque o crítico disse “amém”? Propaganda e crítica se confundem? Crítica é só mais um elemento na máquina do consumo?

Vejam bem, questões que surgiram a partir de um filme que está mais para “filme de arte” do que “cinema comercial”.

Hoje o tom, me parece, é outro. Excertos de críticas – geralmente os trechos com adjetivos – são apropriados em trailers e materiais de divulgação, porém de maneira mais tímida que em “Accattone – Desajuste Social”.

Porém, não acho que estejamos melhores atualmente. A crítica apenas perdeu força (mas não importância) seja para instigar a discussão ou para orientar o consumo. A propaganda está muito mais sofisticada e diluída e cabe à crítica posicionar-se fora da máquina do marketing de um filme.

Em tempo: como o Youtube não me deixou incorporar o vídeo, o link do trailer está aqui.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ronaldinho Gaúcho

A seleção tem claras chances de ganhar o hexa neste ano. Parte disso se deve ao processo de renovação no qual Dunga é uma das peças. Mas, ainda concordo com o que Milton Leite diz: em todas as copas que o Brasil saiu como campeão, os jogadores que decidiram.

Clara também é a falta que Ronaldinho Gaúcho faz à seleção. Sim, com a amarelinha - à exceção da Copa de 2002 -, ele sempre rendeu menos no que nos times. Só que, hoje, a seleção tem um problema sério: não sabe o que fazer quando enfrenta um time fechado.

O toque de bola da seleção é de alta qualidade - é só lembrar do segundo gol. Mas, apenas Robinho tem o recurso do drible que, em jogo apertado, pode ser a única saída para marcar.

Com o que temos hoje, imagino que, taticamente, a seleção, que tem uma dupla de zaga fenomenal, não vai sofrer nem com a Costa do Marfim, nem com Portugal. São times ofensivos (especialmente o segundo), que jogam com três atacantes ou um meio-campo mais devoto em armar do que marcar.

E na segunda fase? Supondo que o Brasil termine em primeiro na primeira fase, vai pegar o segundo colocado do grupo H. Ou seja, Suíça ou Chile. Será que o toque de bola e as ultrapassagens dos laterais serão suficientes para suprir a deficiência de dois volantes burocráticos, um único meia de criação (Kaká) e um jogador-correria pela direita (Ramires/Elano/Daniel Alves)?

Palpite: ainda acho que o Brasil vai sentir falta de Ronaldinho Gaúcho.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Semelhanças entre "Avatar" e "O Nascimento de uma Nação"

Estou lendo talvez o melhor livro sobre “O Nascimento de Uma Nação”, filme do D.W. Grifith que, além de racista, condensou uma série de técnicas apresentadas em outros filmes e revolucionou o cinema do ponto de vista comercial.

Deixo para falar do primeiro em uma outra hora. Há um trecho do livro que o autor, Melvyn Stokes, fala apenas sobre o inovador esquema de distribuição do filme que, grosso modo, foi o primeiro a organizar exibições em uma escala nacional e a munir a imprensa (resumida a revistas semanais nacionais e jornais diários locais) de “informações”.

Stokes diz assim: “Quase tudo relacionado a ‘O Nascimento de Uma Nação’ era notícia: o custo para os exibidores manterem a cópia segura, as paradas que aconteceram antes da primeira exibição no local (muitas delas organizadas pela Ku Klux Kan), a presença de personalidades locais na première”, entre outras.

Esse trecho me fez pensar como a trajetória comercial de “O Nascimento de Uma Nação” e “Avatar” se parecem, mesmo com os 94 anos que separam os filmes. Na produção de James Cameron, também praticamente tudo vira notícia:

Como os Na’vi foram idealizados, os featurettes do tipo “conheça Pandora”, a corrida para derrubar “Titanic” do posto de maior arrecadação da história, se os atores vão voltar para a sequência, se esta será um prelúdio, se Cameron vai dirigir "Homem Aranha 4"...

Com isso, a curiosidade do público continua atiçada.

Ambas as produções também ocupam o assento de “ponto de virada da história do cinema”. O filme de Grifith não inventou a roda, mas reuniu diversas inovações estéticas que já tinha frequentado filmes do George Meliès e uma série de curtas-metragens produzidos para os Nickelodeons (entre os quais os próprios filmes de Grifith).

Cameron também não inventou a roda, já que “Avatar” senta sua estrutura no ser humano descobrindo e desbravando/destruindo o desconhecido (conquista do Oeste?). Por outro lado, proporciona uma nova experiência visual e ilusória.

É exatamente nessa curva que ambos os filmes se encontram: são revolucionários do ponto de vista do espetáculo e como produto de entretenimento. Produções que tentam neutralizar a crítica e usar a imprensa como reprodutora de elogios.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Seleção de 82 e o Santos do domingo

No último parágrafo do conto de abertura de “As Mãos de Pelé e outros contos de futebol”, meu grande amigo crítico de cinema João Nunes diz o seguinte sobre um padre que amargurava a derrota do Brasil em 1982:

“A realidade era diferente do sonho, mas eu estava bem. Percebi que a alegria não nasce somente da vitória. A mim bastava, naquele instante, a lembrança da beleza daquelas jogadas para me sentir feliz”.

Pensei exatamente no jogaço entre São Paulo e Santos no domingo quando li esse parágrafo, especialmente sobre “a lembrança da beleza daquelas jogadas”. Desta vez o Santos venceu, mas, mesmo que não o tivesse feito, bastava ver as brincadeiras do alvi-negro praiano para se sentir feliz.

Não falo apenas pelo gol de Robinho – de letra, sim. Falo também da agressividade de Neymar, da falta de pudor de Paulo Henrique Ganso, do dedicado Léo, da ousadia de Arouca de subir ao ataque a toda hora – e forçar Miranda a cometer um pênalti. Falo do bom futebol.

Como corinthiano, acho que fará um bem danado se o Santos ganhar o Paulista. Será um ponto a mais na história do futebol jogado, não brigado e corrido. É muito talento individual junto para ser desperdiçado e penalizado com a perda de um título, de um clássico importante ou algo que o valha. Se esse time não pegar o caneco, é bem provável que surjam cobranças e Dorival Júnior vá parar na cruz.

Por isso, acho simbólica a vitória justamente em cima do São Paulo. Baluarte do pragmatismo, depende demais da visão de jogo de Hernanes e dos dribles do fominha Dagoberto. De resto, é um time de conjunto, que vai precisar de muito entrosamento para suprir a falta de talento individual.

Que venham mais Santos e outros times ousados. Isso faz um bem danado para o futebol.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Estão me xingando!

Coloquei lá no Cineclick a crítica de "High School Musical: O Desafio", a versão brasileira da franquia da Disney. Deixando de lado que é claramente um produto, antes de ser cinema (tanto que a direção de arte das versões brasileiras, mexicanas e argentinas são muito parecidas), acho que há uma tremenda sensação de descolamento com o que vemos.

Os Estados Unidos dominam a cultura e o pessoal da minha geração cresceu com um monte de símbolos norte-americanos na cabeça. O pop como a música que massacra nas rádios, os filmes dublados da TV, os blockbusters que dominam 450, 550 salas de cinema no Brasil etc.

Nesse imaginário, um filme como "High School Musical" é algo "natural". Por tudo isso, como premissa, é estranho ver o mundo colorido da Disney, que associamos especialmente aos contos de fadas, adaptados ao português, ao "samba" e ao Brasil, como ocorre em O" Desafio".

Confesso que, desde o início, já me sinto descolado. Como se fosse uma imagem e atmosfera que vejo há anos, mas com um som e língua que não pertencem a elas.

Hey, isso não significa que High School Musical é Cinema e nem que a versão brasileira não deveria ter sido feita. Se fizer bilheteria, melhor, porque é um pequeno passo a mais para movimentar a proto-indústria brasileira - supondo que isso ajude abrir espaço para filmes que não se colocam como produto.

Minha questão é: como ver um produto que automaticamente associo a outro momento? Será que trocar só basquete por futebol já muda a chave de leitura?

Ah, e por curiosidade, quem quiser ver os xingamentos dos leitores do Cineclick, leia a crítica. Já fui chamado de ridículo, que não deveria cobrar tanto de atores iniciantes, idiota, imbecil. Adoro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A greve dos atores

Um misto de desinformação, jogo de interesses, disputa entre atores de alto escalão e um grupo menos popular, crise financeira, disputa sobre os pagamentos de conteúdo vendido online.

O Screen Actors Guild (SAG), sindicato dos atores mais forte dos EUA, está prestes a rachar. Há uma divisão em torno da decisão, ou não, de entrar em greve. Em ambos os lados, atores pesos pesados defendem a paralisação ou um mínimo acordo.

O The New York Times publicou nesta quarta-feira (17/12) um artigo razoável sobre o assunto que, de tantas idas e vindas, tende a criar uma neblina que impede uma visão panorâmica sobre o que de fato está acontecendo.

O texto, em inglês, está neste link.

Em tempo: um exemplo da divisão do SAG é a postura de Tom Hanks, considerado um “bom moço” nos bastidores, que se posicionou contra a greve.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Pasolini II

Depois de assistir a segunda parte de "Teorema" -- aquela em que toda a família realmente sai dos trilhos -- pergunto:

o sexo é o aspecto mais transgressor que um burguês pode alcançar?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"Advinha Quem Vem Para Jantar"

1955 foi o ano em que a ativista negra norte-americana Rosa Parks foi presa por se recusar a ceder seu acento no ônibus a um branco. Figurava, desde 1896, a segregação do “separados, mas iguais” que, grosso modo, previa que brancos e negros eram iguais perante a justiça, mas não poderiam freqüentar os mesmos locais.

Doze anos depois, o primeiro ator negro com status de pop star, Sidney Poitier, protagonizou “Advinhe Quem Vem Para Jantar”. No filme, um casal de classe média, supostamente liberal, tem de rever seus conceitos após sua filha decidir casar-se com um negro.

Essa mesma linha de abordagem, transportada apenas para a cor local baiana, está em “Tenda dos Milagres”, de Nelson Pereira dos Santos. Lançado em 1985, o jovem promissor engenheiro (Jards Macalé?) enfrenta o preconceito do personagem de Jofre Soares.

Olhar para a vitória de Obama, limpando todo o clima de oba-oba, dá um paralelismo perfeito: parece que foi ele botou a carinha na fresta da porta de entrada dos Estados Unidos pra dizer “adivinhe quem veio pra governar”.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Mr. Obama

Barack Obama foi eleito ontem. O primeiro negro presidente na história dos Estados Unidos. Enquanto isso, com 95% da apuração completa, 52% da população da Califórnia votou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Justo a Califórnia, considerado o símbolo do progressismo norte-americano.

Trocando em miúdos: a onda “change”, “the first black president”, “communist!” e definições do gênero são relativas. Dentro da extensa lista de besteiras ditas nos últimos dias por comentaristas políticos (e a Fox lidera de longe), a convicção de que a sociedade americana estaria menos à direita tem de ser relativizada.

Eleição de Obama é um avanço. Considerável. Mas, deixemos o oba-oba de lado para observar mais friamente.

Em tempo: “Desejo Proibido”, de 2000, mostra três gerações de casais de lésbicas. O primeiro, na década de 60, totalmente oprimido; o segundo, nos anos 70, em plena discussão do feminismo; o terceiro, nos anos 2000, na perspectiva da união estável entre homossexuais. O terceiro trecho, caso os números da Califórnia se confirmem, teria de ser repensado.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Karatê Kid

Na edição de despedida de 2007, a versão espanhola da revista Rolling Stone fez uma série “Por Onde Anda” com diversos personagens da década de 80. Um deles era Daniel San, quero dizer, Ralph Maccio, o Daniel San de “Karatê Kid”.

Pois bem, resposta encontrada. O Omelete publicou uma nota contando que o nosso Karatê Kid (aquele que seguia as orientações do seu Miyagi) faz uma breve aparição no episódio de Ugly Betty lá nos Estados Unidos.

Ele dá um pulinho no salão de cabeleireiro para aparar as mechas e fica batendo um papo meio “pastime” com a cabeleireira. Clique aqui para ver o vídeo

James Whale, o Frankenstein

Amanhã, terça-feira (28/10), o Telecine Cult vai passar “Deuses e Monstros”, filme que conta parte da trajetória de James Whale, o diretor de “Frankenstein”. O longa é um ótimo exemplo do que um ator mediano é capaz quando está ao lado de um gênio.

Brendan Freaser interpreta o jardineiro que cuida do jardim de Whale. Clayton Boone, personagem de Brendan, tem um quê de Ennis del Mar de “O Segredo de Brokeback Mountain”, naquela coisa de “não sou gay, mas transo com homens”. Na verdade, Ennis tem um pouco de Clayton, já que “Deuses e Monstros” é de 1998 e “O Segredo de Brokeback Mountain” é de 2005.

Clayton passa a desenvolver uma relação estranha com Whale, assumidamente homossexual. Estranha porque não sabemos se é gay ou não; se sente admiração pela pompa aristocrata de seu patrão; se sente pena daquele senhor doente que só é passado. Várias camadas de relação.

O Brendan, mediano pra medíocre, tem uma atuação satisfatória. Isso porque ele está ao lado de Ian McKellen, ator duas vezes indicado Oscar de coadjuvante (“Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” e “Deuses e Monstros”). McKellen coordena todas as ações do personagem de Brendan, já que este não existiria se não fosse em função daquele.

O olhar fugidio de McKellen, muitas vezes disfarçado de boas lembranças, joga o espectador num mar de dúvidas: ele foi feliz mesmo? Sua vida eara o prenúncio da imagem pela imagem?

Uma seqüência é realmente chocante: o diretor Bill Condon refilma um trecho do original “A Noiva de Frankenstein”. É de se emocionar.

Em tempo: a versão dublada de “Deuses e Monstros” é bem (!) engraçada. Ian McKellen foi dublado por Luiz Carlos de Moraes, famoso dublador brasileiro e ator de telenovelas. Ele já trabalhou em “Chaves”, “Dragon Ball Z”, “Street Fight”...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A diferença entre filmes

de Gramado, Rio Grande do Sul

Bressane declarou recentemente que só aceitou a homenagem recebida na quarta-feira pelo Festival de Gramado por conta da nova curadoria (Sérgio Sanz e José Carlos Avellar) que, segundo o cineasta, está tirando o festival do funeral.

Este ano, os filmes estão muito diferentes entre si. Duas noites em especial evidenciaram as diferenças:

-- “Perro Come Perro” e “Pachamama”

O longa colombiano vai ao mundo do crime para ambientar sua história cheia reviravoltas, numa dinâmica de ação com a cor local (“magia negra”). Na trama, e em seu desfecho, há um círculo do qual não se foge, como o título sugere: cachorro come cachorro. A comilança sempre vai ocorrer com A que come B que come C que come D...

Já o nacional “Pachamama”, de Eryk Rocha, é pessoal, em primeira pessoa, um olhar filtrado. A ação não é pré-determinada, mas deixa-se levar pelos acontecimentos políticos da Bolívia e Peru. Fala de identidade, de política e integração.

Neusa Barbosa, crítica do Cineweb, fez um elo interessante entre os dois: “um começa onde o outro termina”. “Pachamama” olha para trás, para como a América do Sul foi formada; “Perro Come Perro” parte do cenário já dado, obviamente fruto da história.

-- “Juventude” e “Cochochi”

Domingos Oliveira teatraliza a relação entre três senhores que se encontram para lembrar do passado. Diálogos e câmera são o esteio do filme. O importante é falado (ironia, textos cômicos), não fica de fora ou sugerido.

Já o mexicano faz outro caminho: fala-se pouco, aposta-se no olhar e no ambiente onde os planos são filmados. Silêncio, roteiro não mirabolantes e pequenos pedaços de história dentro da grande história.


Resumindo: Domingos está mais para Woody Allen; Cárdenas e Guzman para diretores iranianos.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Bressane em Gramado

de Gramado, Rio Grande do Sul

Bressane é um choque. Ele acabou de dar uma coletiva calorosa aqui no Festival de Gramado, pois vai ser homenageado na noite de hoje com o troféu Eduardo Abelim. Semana passada, já havia declarado que não entendia a razão da homenagem. Afinal, Gramado, nos últimos anos, prefere celebridades a filmes potentes.

São muitas idéias despejadas. Uma capacidade de associação absurda. Citações a escritores, filósofos, pensadores. Pra quem é jovem, o exemplo do “chutar o pau da barraca” dentro do cinema nacional é Cláudio Assis (“Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas”). Aliás, o título do novo filme de Cláudio, “A Febre do Rato” é quase igual ao novo de Bressane, “Erva do Rato”. Também tem algo de bressaniano a falência e a mediocridade do ser humano que Cláudio aponta em “Amarelo Manga”.

Mas Bressane, 62 anos, parece ser mais articulado. Para os jornalistas, que precisam classificar para facilitar o entendimento (afinal, não fazemos tratados sociológicos), fica difícil resumir o que é o cineasta. Talvez quem já tem 20, 30 e até 40 anos de profissão seja mais hábil em fazê-lo – e já estejam acostumados com idéias bressanianas.

Pra quem é jovem, não. Ele é uma injeção de vida, uma vontade de descobrir. À priori, repassando as anotações da coletiva, dá pra encontrar algumas contradições em seu discurso. Mas algo de quente ali tem.

O tempo vai explicar o que é esse algo.

Acadêmicos e populares

de Gramado, Rio Grande do Sul

Brasileiro tem mania de autoridade. Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, aprofunda a idéia de cordialidade, traço que marca o país desde a escravidão. É a relação que permite um contato entre classes sociais diferentes que não altera nem uma vírgula das diferenças sociais (os estratos continuam o mesmo). Com os anos, fomos criando uma mania de dar crédito apenas ao que tem um ar de autoridade. O popular vira folclore, pra guardar num museu, e o erudito ganha status de cultura, merecedor de respeito.

Na música, é mais ou menos assim: os ex-office boys Claudinho e Buchecha gravam “Fico Assim Sem Você” e a canção é considerada de “baixa qualidade”; a Adriana Calcanhotto regrava e a classe média pronuncia um sonoro “ahh, como é bonitinho!”.

E ontem, aqui em Gramado, foi dia do erudito e acadêmico virar muleta e jogar o popular, que brilha sem filosofar, para escanteio. O curta “Hiato”, do carioca Vladmir Seixas, que participa da mostra competitiva, fala da ocupação que o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) fez no shopping Rio Sul, em Botafogo, em 2000. Sete aos depois, o diretor conversa com alguns militantes que participaram do atos e mescla com imagens de arquivos, que mostram seguranças e atendentes olhando para os favelados com um ar de nojo.

As entrevistas com os pobres (mesmo que prejudicada pela ausência de luz em uma confusa referência à estética da fome de Glauber Rocha) são geniais. Nas falas, a pobreza não ganha nenhuma definição politicamente correta, principalmente com uma senhora, ex-prostituta, que passa a mensagem sem atravessadores.

Mas há sempre a muleta dos acadêmicos. Não contente com a fala de quem participou do ato, o diretor recorre ao documentarista Silvio Tendler, a pesquisadora Ivana Bentes e de um filósofo que, um milhão de desculpas, eu não anotei o nome (e o filme não tem site para consulta).

Ivana, que polemizou no lançamento de “Cidade de Deus” com a idéia da cosmética da fome, chove no molhado no depoimento em “Hiato”. Ela solta um óbvio “as novas mídias possibilitam tomar contato com o fato cru, em tempo real”. E?

Tendler, que ironiza/elogia a estética da fome do diretor do curta, solta um “globaritarismo”. Alguém me explica o que é isso?

Mas a pérola vem do filósofo: ao falar do impacto da ocupação de pobres em um shopping center, ele solta um “choque de intensidade”. Hã? Oi? Como assim? Como diria José Simão, uma linguagem tucanada, mãe do “choque de capitalismo” de Gilberto Gil e do “choque de gestão” de Arruda e Alckimin.

Sem meio-termo, sem desvio de caminho. Para que enfiar um “choque de intensidade” quando um dos ocupantes do shopping já decretara: “os lojistas olhavam pra gente com cara de nojo. E o nojo é deles mesmo, pois o dono mandou apenas baixar as portas, não olhar pra gente daquele jeito. Os balconistas não são ricos! Pergunta se algum deles moram em Botafogo?!”.

Uma aula de consciência de classe dada por um pobre em apenas 30 segundos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Negros em Gramado

de Gramado, Rio Grande do Sul

Um desafio interessante ao caminhar pelas simpáticas ruas de Gramado: encontrar um negro. Por cerca de uma hora e meia, fiquei sentado nas mesas de um café próximo ao Palácio dos Festivais, local de exibição dos filmes do festival. Notei a presença de apenas dois negros, duas senhoras que entraram em uma loja.

Gramado é uma cidade turística da serra gaúcha. Quem formou o povoado, em meados da década de 1870 foi uma dupla de luso-açorianos. Quem construiu a cidade foram imigrantes italianos e alemães.

Pois bem, andar nas ruas da cidade assemelha-se a caminhar por ruas da Alemanha. O refresco do ar “deutche” (como definiu meu amigo Marcelo, gaúcho) está na entrada do Cine Vídeo (centro com estandes publicitários do festival). Há uma área onde rola black music (tipo Chris Brown), cheia de garotada, com roupas folgadas. Sem a presença de casacos longos.

Ali pertinho dessa área, durante a tarde desta segunda-feira (11/08), o cineasta Jeferson Dê, paulistano criador do Dogma Feijoada, dava entrevista para a imprensa. Também por lá estava o ator André Ramiro, o PM André Matias de “Tropa de Elite”. Recentemente, Ramiro, nascido na Vila Kenedy (Rio), atacou de cantor de rap. Ambos estão ministrando oficinas como atividades paralelas do festival. Um dos debates: o papel do negro na cultura brasileira.

A política em Gramado

de Gramado, Rio Grande do Sul

A cidade está em clima de cinema, obviamente. É bonito ver as atrações turísticas que se armam em torno do Palácio dos Festivais, local de exibição dos filmes. Mas nem só de filmes vive a cidade. A política está por aqui, viva.

Na capa da edição de sexta-feira do Correio Gramadense, a propaganda de dois candidatos à prefeitura da cidade. Abaixo das três manchetes principais, Fedoca, do PDT, traz o lema “Gramado para todos”. No pé da página, o candidato da situação, Nestor Tissot, do PP, companheiro de partido do atual prefeito, Pedro Henrique Bertolucci, reeleito em 2004 derrotando Fedoca no primeiro turno.

O bissemanal Jornal de Gramado, também na edição de sexta-feira, traz as mesmas propagandas. A posição, porém, está invertida: a situação está acima, a oposição abaixo.

Nas páginas internas do Correio Gramadense (sem versão online disponível), uma foto ilustrando notícia sobre a abertura do diretório político da situação ocupa três quartos de página. O candidato da oposição tem duas diretas sobre sua campanha. Ambas ocupam duas colunas de meia página.

Já na página 4 do Jornal de Gramado, os candidatos parecem ter pesos parecidos. À esquerda, no topo de uma das páginas, uma aspas do candidato da situação. À direita, aspas do candidato da oposição. Ambas foram retiradas de um programa de rádio e versam sobre o mesmo assunto: turismo, a principal atração da cidade.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Louis Garrel

Desde meados da década de 1960 até os anos 2000, o cinema francês tem três nomes fortes quando o assunto é atuação. Gerard Depardieu estreou nos cinemas em 1967 com “Le Beatnik et le Minet”, mas explodiu para o grande público com a atuação em “Asterix e Obelix Contra César” (1999) – apesar de “Cyrano”, produzido nove anos antes, ter garantido premiação em Cannes e indicação ao Oscar.

Jean Reno (marroquino batizado Juan Moreno y Jederique Jiménez) já deu boas andadas em Hollywood com “A Pantera Cor de Rosa”, “Código Da Vinci” e “Missão Impossível”, mas estreou nos cinemas em “L’Hipothèse du Tableau Volé”.

Já Danieal Auteuil, também cinquentão assim como Reno, é marcado, no Brasil, pela neurose de “Caché” (2005), a sensualidade de “Pintar ou Fazer Amor” (2005) e a singeleza de “Conversas Com Meu Jardineiro” (2007).

Porém, pós anos 2000, uma carinha nova apareceu no pedaço. Louis Garrel, diferente dos três antecessores, é bonito, além de ser bom ator. Surgiu com força em “Os Sonhadores” (2003), de Bertolucci. Em 2005, imergiu nos anos 60 para viver François Dervieux em “Amantes Constantes”. Este ano, no Brasil, Garrel veio com “Em Paris” e “Canções de Amor”, ambos sob a direção de Christophe Honoré.

Atenta a ele, a edição bimestral julho/agosto da Cahiers du Cinéma, a revista impressa de cinema mais importante do mundo ao lado da Variety, traz o ator na capa, com um perfil. A manchete: “Louis Garrel: A Grande Conversa” (clique aqui).

terça-feira, 24 de junho de 2008

O Che na era do consumo

Mesmo tocando especificamente na questão por meio de um entrevistado que aparece pouco antes dos créditos finais, “Personal Che” provoca a reflexão do que é a imagem na sociedade do consumo. Como a mercadoria pode ser “a gosto do freguês” – do inglês, “customized”, ou, do espanhol, “personal”.

O brasileiro Douglas Duarte e a colômbiana Adriana Mariño fogem do didatismo e abordam com originalidade a figura de Che. O documentário percorre Cuba, Líbano, Alemanha, Estados Unidos e China (esqueci algum) conversando com personagens que se apropriaram de maneira particular das idéias, pensamentos e atitudes de Ernesto Guevara, assassinado por agentes da CIA, em parceria com o governo boliviano, em outubro de 67.

Entre as dezenas de entrevistados, apenas dois expressam claramente quais eram as idéias políticas de Che, em direção a que caminhou sua luta e as contradições de quem o relê hoje.

Os entrevistados mostram contradições absurdas: camponesas bolivianas dizem que Che é milagroso, sendo que um vendedor de santinhos afirma que o São Che serve para tudo (de casamentos a pedidos impossíveis). Che, na condição de marxista, era ateu e considerava a religião um desvio no caminho à revolução.

A dupla de documentaristas encontrou também neonazistas alemães que comparam o argentino com Hitler (“ambos eram revolucionários”); conversam com um revendedor de carros nascido em El Salvador mas morando em Nova Jersey que coleciona camisetas de Che como um numismático; o diretor teatral libanês que omite as armas na encenação; e o parlamentarista chinês que exige democracia.

As respostas para quem foi Che são um verdadeiro “Deus nos acuda”. Muitos afirmam que ele lutava pela paz. Contraditório, pois, na condição de guerrilheiro, pegou em armas para construir outros regimes. Outro afirma que ele lutava pela justiça: mais do que isso, pois Che não usou justiça sem valor de sentido, sem propósito ideológico.

O pega mesmo é quando as respostas esbarram na mitologia e na sociedade do consumo. O mito acercou-se de muitos entrevistados (principalmente das senhoras religiosas que consideraram-no um santo).

Mas, uma das reflexões gritantes nas entrelinhas (expressada na fala de um entrevistado pouco antes da subida dos créditos finais) é o poder que o capitalismo tem em transformar símbolos em mercadoria e, neste processo, retirar-lhe o sentido. Um vendedor de camisetas americano diz não saber quem é Che, mas comercializa o produto porque vende muito

Quarenta anos depois, Che virou mito, lenda, fashion, sexy, defensor da paz, nacionalista, igualitário, camiseta, foto do Korba. Tudo, menos o que foi de fato durante a década de 50 e 60: um guerrilheiro revolucionário.

Em tempo: o documentário mostra, de relance, uma curiosidade. Para o público que quiser consumir Che, não reproduzir politicamente Che, tem uma “Carteira de Revolucionário”, vendida a US$ 5 na mesma loja norte-americana que vende as camisetas a rodo.

Em tempo II: uma busca no site da Livraria Cultura indica pelo menos 110 livros com a palavra “Guevara” no título.