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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pássaros conversam


Estou aqui na redação do Cineclick, neste fim de tarde de quinta. Aqui tem um baita gramado e a janela da redação dá de frente para umas árvores. De repente, vários pássaros começam a piar. A Ana Paula comenta: "poxa, eles estão batendo o maior papo".

Ela tem razão, eles parecem conversar. Um deve estar dizendo que prefere o cinema marginal, o outro o cinema novo.

Mas, no fim, me lembrei novamente do filme do Pasolini, "Gaviões e Passarinhos", nas cenas que Toto (que é um padre em parte do filme) conversa com os voadores. Momentos de poesia do longa, momentos de poesia da vida.

domingo, 4 de abril de 2010

Ainda Pasolini com "Gaviões e Passarinhos"

“Gaviões e Passarinhos” é realmente uma ótima parábola sobre a dominação. O que me espanta no filme do Pasolini é o pessimismo. Ele simplesmente trucida o marxismo para reafirmar, no fim, “assim começa, assim termina, assim continua essa história de gaviões e passarinhos.

Os gaviões são os mais fortes e devoram os passarinhos que se aproximam. É interessante observar o filme, compará-lo com a visão de mundo do neo-realismo e colocar “Gaviões e Passarinhos” ao lado de “Accattone – Desajuste Social”.

Para falar de realidade, Pasolini fez o movimento inverso e foi buscar na alegoria o seu filme. Lá, descobriu que uma parábola é tão poderosa para explicar a humanidade quanto a mitologia. Dali, saiu uma dupla, pai e filho, numa viagem de busca guiados por um corvo, chamado Ideologia, filho da Dúvida e da Consciência.

Não é fácil sair do mundo real pra falar de realidade. Precisa de uma dose louca de imaginação e os pés bem fincados no chão para não perder as afirmações nas quais o filme pretende chegar.

O tema do homem que não se redime e vai sempre destroçar o menor já havia surgido em “Accattone”. Mas, no filme de 1961, Pasolini ainda respirava demais o neo-realismo. Ou seja, planos panorâmicos, locações reais debaixo de muito sol, pouca música, personagens marginais, periferia. Em quase duas horas de filme, o sonho e o incerto aparecem só na última parte do filme, quando o cafetão imagina como será sua morte.

Já em “Gaviões e Passarinhos”, de 1966, o papo é diferente. O começo é quadradinho, comportado e indicaria que Pasolini pediria benção ao neo-realismo. Mas logo depois dos primeiros 15 minutos ele já embarca na parábola.

A realidade não deixou de existir. O filme apenas foi buscar outros instrumentos pra chegar onde queria: reafirmar o pessimismo com a possibilidade de mudança. Melhor: qualquer mudança está travestida em nova forma de dominação.

Discordo e concordo. Mas, não dá pra fugir: o cara sabia filmar e contar uma história, caramba! Só sinto falta de uma coisa: saber mais sobre o momento político italiano para entender por que ele deu uma resposta sem salvação e a atribuiu à essência da humanidade.

Aqui do meu lado, o Gerry diz, “off top of my head”, que a resolução do filme pode ser uma resposta ao momento político italiano, extremamente instável, país fragmentado, uma disputa alucinada de poderes e governos que não duravam. Afinal, a Itália teve 11 primeiros-ministros de 1953 a 1966

Como esse filme desceu no estômago dos italianos na época do lançamento? Como o Glauber de “Barravento” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” reagiria a um filme deste?

Acho que, mesmo com pegadas de direção diferentes (sendo Glauber muito mais teatral), o pessimismo com a ideologia está impregnado nos dois filmes. Em “Terra em Transe”, a esquerda não presta e a direita muito menos. O intelectual é um banana cooptado. O povo está lá para ser explorado.

Eita!

Em tempo: o DVD que tenho aqui em mãos foi lançada pelo Multimedia Group Promoções LTDA. O site indicado na contracapa não funciona. Alguém com mais tempo de estrada conhece essa trupe?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Trailer de "Accattone - Desajuste Social"

No fim de uma sexta-feira extremamente morna, de lojas fechadas e pouquíssima gente na cidade, decidi, depois de descobrir que uma sessão do Reserva Cultural estava lotada, voltar para casa e me enfiar na minha videoteca.

Peguei “Accattone – Desajuste Social”, de 1961, primeiro filme de Pasolini cuja versão em DVD foi lançada em uma cópia bonita da Versátil. Antes de assistir, deixei o trailer rolando e fui jantar. Foi um dos trailers mais estranhos que já vi.

Bem diferente do mar de sangue de “O Iluminado” ou da verborragia e falta de surpresa de qualquer filme comercial contemporâneo – parece até que, em breve, o trailer vai substituir a própria obra, tamanha a quantidade de detalhes revelados em um minuto e meio.

O que me espantou no trailer do filme do Pasolini é o tempo gasto apenas para falar como o filme foi bem recebido pela crítica. Nas palavras do vídeo, “um filme que não precisa de propaganda porque os críticos já o recomendam”.

Wow! Então quer dizer que a função da crítica de cinema é recomendar filmes em vez de debatê-los e despertar olhares? O espectador deve assistir ao filme só porque o crítico disse “amém”? Propaganda e crítica se confundem? Crítica é só mais um elemento na máquina do consumo?

Vejam bem, questões que surgiram a partir de um filme que está mais para “filme de arte” do que “cinema comercial”.

Hoje o tom, me parece, é outro. Excertos de críticas – geralmente os trechos com adjetivos – são apropriados em trailers e materiais de divulgação, porém de maneira mais tímida que em “Accattone – Desajuste Social”.

Porém, não acho que estejamos melhores atualmente. A crítica apenas perdeu força (mas não importância) seja para instigar a discussão ou para orientar o consumo. A propaganda está muito mais sofisticada e diluída e cabe à crítica posicionar-se fora da máquina do marketing de um filme.

Em tempo: como o Youtube não me deixou incorporar o vídeo, o link do trailer está aqui.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Semelhanças entre "Avatar" e "O Nascimento de uma Nação"

Estou lendo talvez o melhor livro sobre “O Nascimento de Uma Nação”, filme do D.W. Grifith que, além de racista, condensou uma série de técnicas apresentadas em outros filmes e revolucionou o cinema do ponto de vista comercial.

Deixo para falar do primeiro em uma outra hora. Há um trecho do livro que o autor, Melvyn Stokes, fala apenas sobre o inovador esquema de distribuição do filme que, grosso modo, foi o primeiro a organizar exibições em uma escala nacional e a munir a imprensa (resumida a revistas semanais nacionais e jornais diários locais) de “informações”.

Stokes diz assim: “Quase tudo relacionado a ‘O Nascimento de Uma Nação’ era notícia: o custo para os exibidores manterem a cópia segura, as paradas que aconteceram antes da primeira exibição no local (muitas delas organizadas pela Ku Klux Kan), a presença de personalidades locais na première”, entre outras.

Esse trecho me fez pensar como a trajetória comercial de “O Nascimento de Uma Nação” e “Avatar” se parecem, mesmo com os 94 anos que separam os filmes. Na produção de James Cameron, também praticamente tudo vira notícia:

Como os Na’vi foram idealizados, os featurettes do tipo “conheça Pandora”, a corrida para derrubar “Titanic” do posto de maior arrecadação da história, se os atores vão voltar para a sequência, se esta será um prelúdio, se Cameron vai dirigir "Homem Aranha 4"...

Com isso, a curiosidade do público continua atiçada.

Ambas as produções também ocupam o assento de “ponto de virada da história do cinema”. O filme de Grifith não inventou a roda, mas reuniu diversas inovações estéticas que já tinha frequentado filmes do George Meliès e uma série de curtas-metragens produzidos para os Nickelodeons (entre os quais os próprios filmes de Grifith).

Cameron também não inventou a roda, já que “Avatar” senta sua estrutura no ser humano descobrindo e desbravando/destruindo o desconhecido (conquista do Oeste?). Por outro lado, proporciona uma nova experiência visual e ilusória.

É exatamente nessa curva que ambos os filmes se encontram: são revolucionários do ponto de vista do espetáculo e como produto de entretenimento. Produções que tentam neutralizar a crítica e usar a imprensa como reprodutora de elogios.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Estão me xingando!

Coloquei lá no Cineclick a crítica de "High School Musical: O Desafio", a versão brasileira da franquia da Disney. Deixando de lado que é claramente um produto, antes de ser cinema (tanto que a direção de arte das versões brasileiras, mexicanas e argentinas são muito parecidas), acho que há uma tremenda sensação de descolamento com o que vemos.

Os Estados Unidos dominam a cultura e o pessoal da minha geração cresceu com um monte de símbolos norte-americanos na cabeça. O pop como a música que massacra nas rádios, os filmes dublados da TV, os blockbusters que dominam 450, 550 salas de cinema no Brasil etc.

Nesse imaginário, um filme como "High School Musical" é algo "natural". Por tudo isso, como premissa, é estranho ver o mundo colorido da Disney, que associamos especialmente aos contos de fadas, adaptados ao português, ao "samba" e ao Brasil, como ocorre em O" Desafio".

Confesso que, desde o início, já me sinto descolado. Como se fosse uma imagem e atmosfera que vejo há anos, mas com um som e língua que não pertencem a elas.

Hey, isso não significa que High School Musical é Cinema e nem que a versão brasileira não deveria ter sido feita. Se fizer bilheteria, melhor, porque é um pequeno passo a mais para movimentar a proto-indústria brasileira - supondo que isso ajude abrir espaço para filmes que não se colocam como produto.

Minha questão é: como ver um produto que automaticamente associo a outro momento? Será que trocar só basquete por futebol já muda a chave de leitura?

Ah, e por curiosidade, quem quiser ver os xingamentos dos leitores do Cineclick, leia a crítica. Já fui chamado de ridículo, que não deveria cobrar tanto de atores iniciantes, idiota, imbecil. Adoro.

A Todo Volume

Nunca fui um conhecedor de rock'n roll. Na adolescência, enquanto meus futuros amigos conheciam o metal, os Beatles e, no meio disso, um monte de porcaria, eu estava em Caetano, Cartola e um monte de outras porcarias também.

Digo isso para justificar minha imensa distância com A Todo Volume, doc de Guggeinheim sobre The Edge, Page e J. White. Gostei muito do filme, especialmente de descobrir como cada um deles elabora sua música. Pelo menos para mim, ficou claro porque, entre os três, sempre coloquei Page em primeiro, White em segundo e Edge em terceiro.

Aí vem meu grande amigo Sérgio Alpendre a falar sobre o filme e abrir mais uma porta para entendê-lo, a partir da história do rock.

"Esse é um mérito inegável do filme, deixar as coisas bem evidentes, além de estabelecer a devida filiação: The Edge é o irmão mais velho, rebelado pelo punk, que nega o pai para reencontrá-lo no futuro. Jack White é o irmão mais novo, também muito influenciado pelo punk, mas de uma maneira que só o aproxima do pai, porque ambos nutrem uma extrema paixão por rockabilly, blues rústico e rock distorcido e contagiante. O pai Jimmy Page, bonachão, se diverte com a paixão de um e a racionalidade de outro, mas todos ganham algo com esse encontro."

O texto completa está no chip hazard.

Em tempo: quer saber onde está passando?

terça-feira, 12 de maio de 2009

Fumando espero

Tem sido mais que interessantes as reflexões do ex-fumante Inácio Araújo a respeito do documentário anti-tabagista “Fumando Espero”. Quando o filme entrou em cartaz na semana passada ele escreveu uma crítica para a “Folha de S. Paulo”. Voltou à carga em seu blog, o “Cinema de Boca em Boca”.

Ele defende que o corte picotado do filme de Adriana Dutra é moldado pelos vídeos jornalísticos e pela publicidade. Ou seja, longe do cinema. Reitera que o documentário tem o efeito de provocar no espectador a vontade de fumar. E ainda relembra uma teoria do Carlão: você sabe se um filme é bom ou não pelo desejo de tragar. Se permanece na sala, é bom; se só pensa em acender um cigarro durante a projeção, é ruim.

Mas o filme também recebeu avaliações positivas. O “Cineweb” diz que ele “pode servir de apoio às pessoas que lutam para abandonar o cigarro”, mas ressalta que “é um filme bem intencionado, mas poderá ter dificuldades para atingir plateias mais amplas que não estejam envolvidas com o tema”. O “Cineclick” vai na mesma linha: “Cinematograficamente, trata-se de um documentário não muito inspirado. Seu conteúdo, porém, é de extrema importância e altamente indicado para exibição nos mais variados estabelecimentos de ensino”.

Atualizando: acabo de entrar no blog do Zanin. Ele acaba de postar um texto dele publicado no Estadão. "O filme poderia funcionar como um bom vídeo institucional da lei antitabagista há pouco aprovada em São Paulo."

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Will Smith

Em 2008, Will Smith virou sinônimo de sucesso de bilheteria. Logo em janeiro, chegou por aqui com “Eu Sou a Lenda”, sexta maior bilheteria com R$ 18 milhões (2,2 milhões de espectadores). Em junho, com “Hancock”, que se tornou a quinta maior bilheteria com R$ 21 milhões (2,7 milhões de espectadores).

No feriado natalino, estréia mais um filme com o ator como protagonista. “Sete Vidas” é um dramalhão de um homem que carrega uma culpa do passado e procura expiá-la salvando vidas de desconhecidos.

É a segunda vez que Smith e o diretor italiano Gabriele Muccino trabalham juntos. Em “À Procura da Felicidade”, a mão do diretor foi muito pesada, levando a história da perseverança de um homem para a crença cega da América como a terra das oportunidades para todos.

Em “Sete Vidas” ele se recupera do escorregão. Ben Thomas, agente da Receita Federal interpretado por Smith, faz o bem não porque é um ser puro e tem essa qualidade inata, mas como maneira de trabalhar o próprio trauma de um passado dolorido.

A trama do filme se desenvolve em torno dele e dá ao ator carta branca para prender as emoções do espectador. E consegue transformar um filme regular em interessante.

Em tempo: veja o trailer do filme:

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

“Terra Vermelha” por Luiz Bolognesi

O blog Autores de Cinema, espaço dos roteiristas, publicou uma pequena entrevista com Luiz Bolognesi, roteirista do longa “Terra Vermelha”, que depois de passar por festivais em Veneza, Rio, São Paulo e Amazonas, estréia no circuito comercial.

O filme, dirigido por Marco Becchis, adota o ponto de vista dos índios kaiowá. “Estive em várias reservas kaiowá, convivi com os índios, entrevistei lideranças e pajés, li teses antropológicas e depois desse convívio visceral decidimos fazer um filme do ponto de vista kaiowá, em vez de tentar esquadrinhar a realidade com um painel sociológico”.

Bolognesi, que já tinha escrito “Chega de Saudade” e “Bicho de Sete Cabeças”, ambos dirigido pela esposa Laís Bodansky, ainda fala do processo de criação, da improvisação dos índios, o ponto de vista do narrador e a recepção no Festival de Veneza.

A entrevista completa está neste link.

A crítica do filme está neste link.

Em tempo: O trailer do filme está na janela abaixo.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Pasolini II

Depois de assistir a segunda parte de "Teorema" -- aquela em que toda a família realmente sai dos trilhos -- pergunto:

o sexo é o aspecto mais transgressor que um burguês pode alcançar?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Teorema, 40 anos

Em setembro, fez quarenta anos que “Teorema” foi lançado na Itália. Ontem à noite eu revi a primeira parte do filme, no qual o Visitante (Terence Stamp) transa com todos os integrantes de uma família burguesa e os deixa em frangalhos.

Cresci ouvindo meu pai, o senhor “Casablanca”, falar sobre esse filme. Vi quando era criança. Só havia entendido mesmo a mensagem mais direta do filme: o bonitão que leva uma família inteira pra cama – até o patriarca.

Ao rever, entre em contato direto com outra camada do filme, quiçá a mais relevante: a burguesia e o cristianismo. Pasolini faz um tratado irônico e crítico à burguesia, utilizando o sexo do Visitante para tal.

Em uma versão muitos mais elaborada, é o mesmo que o Cazuza (“sou burguês, mas eu sou artista”) ao berrar “a burguesia fede/a burguesia quer ficar rica”.

Vou continuar assistindo a segunda parte de “Teorema”. É muito interessante voltar a tomar contato com Pasolini, agora com olhos menos inocentes.

Em tempo: abaixo, a seqüência inicial do filme.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Êxtase dos Anjos

Em 1965, Koji Wamatsu abalou Berlim com “Secrets Behind the Wall”, da linhagem “filmes eróticos baratos”. É muito curioso pensar o efeito da produção de Wamatsu nos anos 60 e 70 e exibi-la a um público jovem hoje. Em seus filmes, pululam defesas anarquistas e em um, especificamente, discute-se a todo tempo algo completamente fora de moda hoje: metodologia revolucionária.

“Êxtase dos Anjos” é de 1972. O diretor, ex-militante, pegou parte da discussão entre as esquerdas e colocou na tela, com um frescor à Godard. Os personagens, cujos nomes são em homenagem à Revolução Russa, não sentam à mesa para falar que o certo é a ação direta e não a tomada do Estado.

Wamatsu é mais sutil que isso. Sua visão anárquica do mundo se transporta para o uso da ferramenta cinematográfica. Ele usa takes bem longos, especialmente no início do filme, para dar tempo ao espectador de tomar contato com toda a ação, não apenas com seu início e seu resultado.

Wamatsu é a atração principal do Indie 2008, que começa nesta sexta-feira, 7. Mais informações, clique aqui.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

James Whale, o Frankenstein

Amanhã, terça-feira (28/10), o Telecine Cult vai passar “Deuses e Monstros”, filme que conta parte da trajetória de James Whale, o diretor de “Frankenstein”. O longa é um ótimo exemplo do que um ator mediano é capaz quando está ao lado de um gênio.

Brendan Freaser interpreta o jardineiro que cuida do jardim de Whale. Clayton Boone, personagem de Brendan, tem um quê de Ennis del Mar de “O Segredo de Brokeback Mountain”, naquela coisa de “não sou gay, mas transo com homens”. Na verdade, Ennis tem um pouco de Clayton, já que “Deuses e Monstros” é de 1998 e “O Segredo de Brokeback Mountain” é de 2005.

Clayton passa a desenvolver uma relação estranha com Whale, assumidamente homossexual. Estranha porque não sabemos se é gay ou não; se sente admiração pela pompa aristocrata de seu patrão; se sente pena daquele senhor doente que só é passado. Várias camadas de relação.

O Brendan, mediano pra medíocre, tem uma atuação satisfatória. Isso porque ele está ao lado de Ian McKellen, ator duas vezes indicado Oscar de coadjuvante (“Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” e “Deuses e Monstros”). McKellen coordena todas as ações do personagem de Brendan, já que este não existiria se não fosse em função daquele.

O olhar fugidio de McKellen, muitas vezes disfarçado de boas lembranças, joga o espectador num mar de dúvidas: ele foi feliz mesmo? Sua vida eara o prenúncio da imagem pela imagem?

Uma seqüência é realmente chocante: o diretor Bill Condon refilma um trecho do original “A Noiva de Frankenstein”. É de se emocionar.

Em tempo: a versão dublada de “Deuses e Monstros” é bem (!) engraçada. Ian McKellen foi dublado por Luiz Carlos de Moraes, famoso dublador brasileiro e ator de telenovelas. Ele já trabalhou em “Chaves”, “Dragon Ball Z”, “Street Fight”...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Overdose de Poderoso Chefão

É um clássico. Neste segundo semestre, haverá uma overdose de “O Poderoso Chefão”, o primeiro da série de Coppola. A cópia restaurada do filme foi exibida na semana passada durante o Festival do Rio.

Na próxima semana, o filme também vai ganhar exibição na Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo. E pra completar, nesta terça-feira, 14, o Telecine Cult vai passar os filmes. Entre o fim da tarde e o início da noite, 18h50.

Todos os filmes da série estão disponíveis em DVD. Porém, assistir à produção de Coppola em 35mm, com som decente e em tela grande é uma experiência. Não se trata apenas de “assistir a um filme”, mas de uma experienciação, plagiando Glauber Rocha.


Em tempo: além de a TV ter hoje "O Poderoso Chefão", "Borat" também ganhou uma sessão, às 15h15 no Telecine Light.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A Mostra se aproxima

Fim de festival do Rio com “Se Nada Mais Der Certo”, de José Belmonte, saindo com o Redentor de melhor filme. Intervalo de uma semana e aí vem a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa nesta sexta-feira (17/10). Mais de 400 filmes serão exibidos.

No sábado, foram apresentados à imprensa a relação dos filmes, sessões especiais e convidados. Em seguida, dois curtas foram exibidos ao lado do longa “Horas de Verão”. Olivier Assays começa em um ponto, passa por outro e termina num terceiro, que se relaciona num primeiro.

A família é Berthier, cujo um dos membros, Paul Berthier, foi um pintor famoso. A matriarca é Hélène. Seus filhos vão comemorar o aniversário com a mãe na casa forrada de obras de Berthier. O passado e o presente são confrontados – este, parece ser apropriado por pessoas que renegam o acúmulo do que já passou.

Usando a família como metáfora, Assays crítica uma geração que não olha para trás e não presta – nem se interessa – na construção da França. Em um terceiro momento, o diretor encaminha o filme para os adolescentes e sua relação com o país, sempre usando o convívio familiar como pretexto para abordar o tema. É nesse ponto que o filme balança um pouco na linha trazida deste o início: a relação de uma geração com o passado (peça de museu?) e o presente (moderno?).

Em tempo: “Horas de Verão” (“L’Heure d’été”) integra a seleção de filmes da programação Expectativa da Mostra.

domingo, 28 de setembro de 2008

A câmera (s)em movimento

RIO -- "Na Cidade de Sylvia" é um bom filme para se ver sem dar sequer uma bisbilhotada na sinopse. O título indica uma localização e alguém que faz parte dela. OK, então uma vai se relacionar com a outra, provavelmente elas terão particularidades em si. Talvez a cidade seja até o mundinho de Sylvia. Certo?

Errado! O filme, dirigido por José Luis Guerín, chegou muito (!) comentado aqui no Festival do Rio, onde está sendo exibido na mostra Expectativa. Ele (Xavier Lafitte) se apaixonou por uma garota há seis anos em Estraburgo. Resolve voltar à cidade para buscá-la. Todo o filme é a perseguição do jovem em torno da bela garota.

A mise-en-scène dos atores é o esteio do filme. A câmera segue a garota e, por vezes, substitui o olhar d'Ele para que possamos admirá-la da mesma maneira que o rapaz faz. Em muitos momentos, o filme parte para a exaltação do feminino, do contorno entre as silhuetas d'Ela, combinadas com o desenho moderno e despojado da bolsa e o jeito de andar como se estivesse em uma passarela.

Apesar de diversas cenas em movimentos, elas não conduzem o filme para um movimento. O efeito para o espectador não é de uma aventura one surpresas podem acontecer, mas de um observar -- voyeur -- da garota e do rapaz em sua procura. O cenário é a bela Estrasburgo e suas ruas clássicas.

Com cerca de 30, 35 minutos de filme, uma espectadora do Estação Botafogo levantou-se e, em alto e bom som, protestou: "ah, essa tortura é demais pra mim!". E foi embora. Mesmo assim, o restante do público ficou, aparentemente, envolvido com o filme. Muito diferente do efeito "platéia perturbada" na sessão de ontem no Estação de Cinema no filme "A Fronteira da Alvorada", de Phillipe Garrel. As cenas cadavéricas de aparição de Carole, a amada de François, geraram risos.

Em tempo: "Na Cidade de Sylvia" foi exibido este ano em Veneza. Foi avaliado como o filme "mais autoral" da competição -- isso porque "Erva do Rato", de Julio Bressane, foi exibido fora de competição. Abaixo, o trailer do filme.

Latinidade tecnológica

RIO -- Como o cinema, assim como todas as linguagens artísticas, passam pela subjetividade, os filmes trazem, em maior ou menor quantidade, as experiências e inquietações de seus realizadores. Um tipo de cinema cujas experiências pessoais saltam para as questões colocadas na terra é o de Alex Rivera.

Filho de peruano com americano, ele cresceu em contato com o american way of life e com a latinidade. E por ser fruto tanto do opressor como do oprimido politicamente, a questão da imigração é cara em seu cinema. Com maior experiência em vídeos e docs, Rivera estréia no longa-metragem de ficção com "Sleep Dealer", que integra a Premiére Latina do Festival do Rio.

Pra começo de conversa, um paradigma é posto. Quando se fala da exploração do imigrante, pensa-se em uma ficção com toques realistas, como aconteceu em "Babel", de Alejandro González Iñarritu. Mas Rivera põe o pé no freio do realismo e joga a história no gênero da ficção científica. Nas próprias palavras do diretor: "É uma ficção científica que se passa no México e que, basicamente, usa o gênero sci-fi para olhar para assuntos políticos em voga hoje, mas os imaginando cinco minutos á frente, no futuro"

Memo Cruz (Luis Fernando Peña) mora em Oaxaca, área rural do México, mas é ligado em tecnolgia e sonha em sair do local. A região é assolada pela falta de água depois que uma empresa passou a represá-la. Devido a uma de suas invenções tecnológicas, seu pai é assassinado. Parte então para Tijuana, a cidade conectada, onde os habitantes, se quiserem se conectar à economia global, usam fios que plugam diretamente no corpo. Lá encontra Luz (Leonor Vargas), uma contadora de histórias.

O grande tema do filme é a condição do migrante. Mas dentro do gênero sci-fi. Memo não precisa ir aos Estados Unidos para conseguir um sub-emprego. Basta apenas que trabalhe em empresa que o emprega em uma obra em San Diego (EUA). Memo precisa apenas conectar-se a uma máquina e... tcha-ram: está controlando um robô que trabalha em uma construção cível. Ao seu lado, uma jovem controla um robô que colhe laranjas na Flórida. Privacidade e liberdade são duas palavras inexistentes em Tijuana.

Rivera tem uma postura de esquerda. Como é muito ligado à internet e ao mundo cyber, não propõe a Revolução, mas a sabotagem, a ação direta como mecanismo de resistência. Justamente essa ação direta vai unir Memo, o piloto Rudy (que assassinou o pai de Memo) e Luz. O diretor propõe uma lição com o filme: mesmo com uma realidade de conexão total e irrestrista, vai haver sempre aquele aparentemente contectado, mas que não passa de um membro da periferia explorado.

Em tempo: o site de Rivera (clique aqui) tem detalhes da carreira, vídeos, links de cyberativismo. E no vídeo abaixo, o diretor, Leonor e Jacob Vargas explicam detalhadamente seus personagens.

A construção de um estilo

RIO -- Alguns cineastas apresentam diferentes "fases", períodos em que se interessam por temas e abordagens diferentes. Certamente é possível encontrar, quando olhamos mais profundamente, elos entre os filmes. Como Lírio Ferreira, que com "Baile Perfumado" falou do olhar estrangeiro por meio de um líbanês e em "Árido Movie" com o homem do tempo radicado em São Paulo e que tem de voltar para o sertão.

Mas, para além do diálogo nas entrelinhas, há diretores, como Phillipe Garrel, que nos deixam com a sensação de "hmm, eu já vi isso antes...". Ao assistir "A Fronteira da Alvorada", da mostra Panorama Mundial do Festival do Rio, muito do já apresentado em "Amantes Constantes" (2004) é retomado. Não me refiro especificamente apenas à fotografia em preto e branco, mas também a enquadramentos, o close nas musas e no muso (Louis Garrel). E a retomada do tema do amor.

Entre os pontos de diálogos dos dois filmes, ambos exigem mergulho total (!) do espectador. Como é relativamente previsível o desfecho das histórias dos personagens principais, o espectador têm de se apegar aos detalhes e as surpresas mínimas de situações que o diretor propõe. Senão, a história não passa de um começo, um fim com um recheio no meio.

Assim como em "Amantes Constantes", o protagonista é interpretado por Louis Garrel e se chama François. No filme anterior, o amor e a liberdade frente aos acontecimentos de maio-68 e do ano seguinte eram o motor. Não só o amor também volta para ligar o François de "A Fronteira da Alvorada" à Carole (Clémentine Poidatz), mas a liberdade. Após o suicídio da namorada, ele não consegue se desgrudar da sua imagem, que o perturba e influencia sua decisão final.

Infelizmente, no quesito estilo, os espectadores brasileiros que não são consumidores da Amazon.com ou habitués de downloads do eMule não podem ir além na comparação entre os filmes anteriores de Garrel. "Amantes Constantes" (prêmios de fotografia e direção em Veneza) foi o primeiro longa do diretor a estrear no Brasil. E "Fronteira da Alvorada", que concorreu à Pauma de Ouro em Cannes este ano, será distribuído, novamente, pela Imovision (ainda sem data de estréia definida).

Em tempo: o ator Louis Garrel, o novo rosto bonitinho da França, é filho do diretor Phillipe Garrel. Abaixo, o trailer do filme.

sábado, 27 de setembro de 2008

Paul Newman

RIO - Em meio a movimentação do Festival do Rio, uma notícia realmente muito chata: morreu Paul Newman.

O factual, causa da morte e filmografia, estão neste link do Estadão.

Comentários sobre a carreira do ator estão no blog do Merten (clique aqui).

E, daqui a pouco, aqui no Rio, "Sujos e Sábios", estréia de Madonna na direção. Exibido em Berlim este ano, o filme entrou mudo e saiu calado. Não foi motivo de comoção, nem de reclamação. Vamos ver na seção da Gávea neste sábado.

sábado, 16 de agosto de 2008

A pulsão da estréia

de Gramado, Rio Grande do Sul

Selton Mello e Matheus Nachtergaele são dois atores com sangue nas veias, de personagens que rompem limites da interpretação. A mesma pulsão de ator está na estréia de ambos na direção de longas-metragens. Selton com “Feliz Natal” (premiado no Festival de Paulínia) e Matheus com “A Festa da Menina Morta” (exibido ontem à noite em Gramado).

Selton foi do transe de “Lavoura Arcaica” (“neste filme eu pude ser eu mesmo, me expressar”) ao idealista Dico de “Os Desafinados”. Em vez de aliviar ao estrear na direção de longas (já havia feito dois curtas), o ator-diretor mergulhou em “Feliz Natal” para mostrar a degradação de cada membro de uma família. Selton aposta na alma dos atores, cola a câmera no rosto para extrair sentimentos e explode na trilha para criar angústia.

Matheus, como ator, foi de releitura de Mazaroppi em “Tapete Vermelho” ao gay afetado Dunga (“Amarelo Manga”). Na direção, com “A Festa da Menina Morta”, mantém o movimento de mergulho profundo para falar de incesto, religiosidade, fé e limites humanos, ambientando a confusão em uma comunidade ribeirinha do Amazonas.

Corajoso dois atores consagrados agregar uma nova camada à carreira (a direção), abordando temas profundos. Ou, talvez, simplesmente um movimento natural e sincero com eles mesmos. Selton, por exemplo, declarou que, como ator, pode se expressar apenas duas vezes: em “Lavoura Arcaica” e “O Cheiro do Ralo”. A direção de “Feliz Natal” é a terceira.