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quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Cine Holliúdy - crítica
*originalmente publicado na Revista Interlúdio durante a cobertura da Mostra de SP
Alguns tentam ser cinema popular (leia-se Família Vende Tudo). Outros genuinamente o são. Este é o caso de Cine Holliúdy, um desavergonhado e cômico escancaramento da precariedade em se fazer cinema no Brasil.
Num momento de ultrarrealismo cultivado por ágeis avanços tecnológicos, sempre há o choque, para um espectador desavisado, com a precariedade. Já foi assim com Na Carne e na Alma, derradeira e maravilhosa obra de Alberto Salvá, repleta de coragem e carente de dinheiro. Invariavelmente será assim durante a trajetória de Cine Holliúdy.
Mas por trás da falta de recursos e da engenharia em se fazer um filme de época, ambientado nos anos 1970 no sertão cearense, existe um potência, um discurso e momentos eficazes. Halder Gomes, que recentemente produziu longas bem ruins como As Mães de Chico Xavier e Bezerra de Menezes, mostra um domínio do tempo e do texto cômico. O dialeto “cearencês” e suas expressões bastante atípicas para quem não vem do Ceará é um convite ao riso.
Há também uma precisão em caracterizar a cidade/bairro e seus tipos (a gostosa, o galã, o gay, a fofoqueira, o riquinho etc), assim como uma incorporação interessante do cinema de gênero, em especial os filmes de kung fu, na textura do filme.
Esses aspectos, porém, mesmo que suficientes para se assistir a um filme, encerram-se numa conversa de canto, numa recomendação “vá vê-lo porque é muito divertido”. O que interessa mesmo é que Cine Holliúdy tem um quê de alegoria sobre o cineasta brasileiro, esse misto de artista e bobo da corte, criador e animador de torcida: aquele que tem um discurso para reconstruir a realidade com a arte, mas que tem de se desdobrar para produzir e, quando feito o filme, rebolar para que seja visto, notado.
Pois é isso que representa Francisgleydisson na sua luta em tentar manter seu cineminha enquanto a televisão se alastra até por locais remotos. A película que se arrebenta em Cine Holliúdy e o personagem que tem de reinventar a história do filme dentro do filme pode ser lido como um edital que não se concretiza, por que não? É um reflexo do contexto brasileiro, misto de aspirações industriais e realidade artesanal, ação entre amigos.
Só que o filme não é romântico. Não há catarse, solução mirabolante e irreal. Não é um filme para se fugir da realidade, apenas para tomar fôlego e voltar para a briga. Com clareza, percebe que viver das brechas é algo ontológico do ofício de cineasta aqui – o subdesenvolvimento é um estado, não um estágio, provocaria Paulo Emillio Salles Gomes há quatro décadas.
Talvez sem saber, Gomes realizou o espelho do nipo-iraniano Cut, um dos melhores filmes da Mostra no ano passado. Misto de filme de mafioso com declaração de amor ao cinema, Shuji, o protagonista, literalmente apanha para viver, com o corpo, sua paixão. Seu alimento não é a comida, mas os clássicos – Welles, Ford, Ozu, Mizoguchi.
Francisgleydisson somos nós.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
MostraSP: Cine Holliúdy e Robocop: o pai que dá o exemplo
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| Cine Holliúdy, de Halder Gomes, que será exibido na Mostra de Cinema de SP |
Buscando na memória as reminiscências da sessão de Cine Holliúdy no Festival de Brasília, me veio a lembrança não só da paixão de Francisgleydisson, o protagonista, pelo cinema, mas seu esforço em dar o exemplo ao filho.
O longa de Halder Gomes será exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, esta é a razão para recuperar o filme na memória. Um filme que merece ser visto por diagnosticar, pela comédia, a precariedade de se fazer cinema no Brasil.
Mas esse aspecto eu deixo para ser comentado no texto da Revista Interlúdio, a ser publicado pela semana – aliás, boa parte da minha cobertura da Mostra estará por lá. A razão do post é a questão dos laços familiares e o exemplo ao filho.
Francisgleydisson briga com o poder da televisão numa cidadezinha (o filme se passa nos anos 1970) e luta para manter seu cineminha aberto. Lá passa filmes de kung-fu em cópias precárias. Cabra arretado, ele persiste num cenário adverso.
Em boa parte pelo amor ao cinema, mas não só. É a necessidade em se fazer exemplo para o filho, dando sustentação real aos sonhos do garoto, que serve também de combustível na travessia de Francisgleydisson. É aí que Cine Holliúdy, uma comédia chanchadeira, e Robocop, obra-prima de ação de Paul Verhoeven, se encontram.
É por saber que o filho tem como herói um policial de seriado que devolve com malabarismo de caubói a arma ao coldre que o também policial Murphy se arrisca a encarar os bandidões sozinho. E paga por isso. Perde não só seu corpo e sua autonomia como ser humano, mas especialmente a família.
Em ambos os filmes, o exemplo paterno é um poderoso subtexto. E ambos também compartilham de narizes torcidos. Robocop porque muitos ainda não conseguem aceitar que filmes de ação também são obras-primas; Cine Holliúdy (que não é uma obra-prima, não exageremos) por parecer fútil e apenas “engraçado” nas suas peripécias.
São filmes que não merecem ficar no limbo.
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