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quarta-feira, 19 de junho de 2013
Manifestações e Trabalhar Cansa: o novo
Este blog tem andado em silêncio por duas razões. Em parte pelo acúmulo de trabalho, que tem me impedido de escrever mais atentamente sobre alguns assuntos (Esses não faltam: por que gostaram tanto de Faroeste Caboclo, meu Deus?!; rever A Memória que me Contam, de Lúcia Murat, agora sem a correria do Festival de Brasília; o filme novo do Shyamalan, Depois da Terra).
Em parte porque – o que se segue é óbvio, mas vai que você andou por Marte nos últimos dias – a cidade de São Paulo está fervendo. A semana passada foi especialmente complicada pela repressão absurda da polícia e a prisão arbitrária do meu amigo Pedro (o jornalista Pedro Ribeiro Nogueira).
Reunido com amigos para assistir o épico jogo 6 entre Miami Heat e San Antonio Spurs na NBA, falávamos de basquete, por supuesto, mas também das duas últimas manifestações. Do temor que uma bandeira específica – revogar o aumento da passagem do transporte público – se tornasse um guarda-chuva que, no fim das contas, acabasse abrigando a turma daquela bobagem monumental chamada Cansei. Imagino que neste momento, qualquer pessoa de bom senso esteja tentando entender o que está acontecendo porque a turma do Cansei realmente colou achando que a onda é a mesma para surfar.
Por que os veículos tradicionais que antes pediam uma ação firme da PM (editoriais da Folha e do Estadão) agora diferenciam manifestantes, ativistas e vândalos? Por que a capa de Veja coloca na mesma manchete tarifa do transporte, corrupção e criminalidade? Por que tem gente cantando hino nas manifestações?! Por que surgiu uma petição pelo impeachment da Dilma?! Por que muita gente no Facebook se coloca como se estivesse num Fla-Flu?
Enfim, questões. Basicamente, é isso que temos, aqueles com menos pressa em fazer comentários sucintos e definitivos sobre o que se passa. Ora a clareza (perceber que tem gente que não está acostumada a manifestações), ora mais dúvida (como assim acham que dá para resumir tudo num “O Brasil acordou”?).
Essa dúvida com o novo – veja bem, o novo não é a manifestação ou a politização, porque afirmar isso é embarcar no “Brasil acordou” e desconsiderar a pauta de movimentos sociais acordados há bastante tempo – me lembra as bobagens que já se disse, e continua dizendo, sobre o cinema, sobre um filme que demanda uma codificação que está além do repertório, do vocabulário e da vontade do espectador.
Tipo os narizes torcidos para Holy Motors. É obrigatório gostar do filme do Carax? Evidente que não. Mas falar “que não é cinema”, “que não faz sentido” é demonstração de preguiça, Pedro Bó. Ou falar que não gostou de Trabalhar Cansa “porque as atuações são artificiais demais” é cegueira apressada de quem só aceita o registro naturalista, de quem só está disposto a enquadrar o filme na sua própria cartilha do Isso Pode, Aquilo Não.
É o mesmo que a NAACP fez com o Blaxploitation. Filmes como Sweet Sweetback Baaaadasss Song ou Shaft eram novos e com posicionamento político que não correspondiam às aspirações integracionistas do negro bem comportado, o Sidney Poitier de Advinhe Quem Vem Pra Jantar?.
Ou ao preconceito com a Nouvelle Vague ou com um filme como Acossado, que detratores acusam de embaralhar o começo, meio e fim.
Ou seja, o novo é mais complexo do que chavões dão conta. Não dá para abarcar as últimas semanas com posts apressados de Facebook, nem com 140 caracteres de Twitter, nem com “o Brasil acordou” Assim como não dá para enquadrar um filme, uma tendência, um movimento que foge do repertório tradicional com “isso não é cinema”, “isso é artificial”.
Precisamos, ora pois, parar e pensar antes de falar desenfreadamente. Em vez de reclamarmos “do que não faz sentido em Trabalhar Cansa”, que tal pensarmos sobre que raios é aquela mancha estranha na parede que resiste em desaparecer?
Em tempo, alguns links para pensarmos:
Leonardo Sakamoto sobre a mistura dos coxinhas, anauês e afins
Débora Lessa e Camila Petroni no Brasil de Fato sobre o perigo do hino
Antonio Prata na Folha sobre não estarmos entendendo nada
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
A Política ao Redor
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| O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho |
Leitores do Urso de Lata, um convite: publiquei na revista Caros Amigos de fevereiro um artigo intitulado A Política ao Redor. Como o trocadilho antecipa, o texto busca pensar o que há de político em filmes da safra recente brasileira que têm em comum um desejo de embaralhar gêneros.A análise segue alguns caminhos já rascunhados em textos tanto deste blog quanto para a Revista Interlúdio, Revista Preview e Cineclick. O texto dá mais atenção aos filmes O Som ao Redor e Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho, A Cidade é uma Só?, de Adirley Queirós, Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira, Doméstica, de Gabriel Mascaro, e Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra.
Uma ausência sentida nesse conjunto de filmes: Câmara Escura, de Marcelo Pedroso. Já rascunhei algumas ideias sobre o curta neste texto [clique aqui] durante a cobertura do Festival de Brasília. É um dos filmes mais efetivos e criativos que fala sobre a cultura do medo. O veículo impresso tem limitações de espaço. No último corte, tive de eliminar a parte que falava do filme, infelizmente.
Realço o convite. O texto não está disponível na internet, então é preciso adquirir a revista nas bancas. Boa leitura.
Textos relacionados:
O Som ao Redor - Crítica
Doméstica - Crítica
A Cidade é uma Só? - comentário
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Sobre Cosmópolis (ou o drible de Cronenberg)
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| Robert Pattinson, o bilionário amortecido |
Cosmópolis, o novo de Cronenberg, é o que mais desafia o lugar confortável do espectador entre os longas que estrearam no Brasil neste ano de 2012.
Não que seja este um filme cifrado, hermético, apenas para os iniciados e aprofundados nos códigos do cinema. É, sim, um filme que pede uma saída do lugar passivo – aquele no qual a pessoa espera o filme acontecer – para ir em direção a ele, fazendo, assim, com que ele aconteça.
Há um objetivo inicial do personagem principal, Erick Packer – cortar o cabelo. Mas cada cena constitui uma unidade que tem de se resolver (e se resolve) sozinha. Individualmente provocam um gozo. Juntas formam o mosaico de Erick – e, em última instância, do capitalismo moderno, da especulação financeira, do dinheiro que faz dinheiro, do anestesiamento de tudo que não seja o poder.
Como notou Sergio Alpendre no texto para a Revista Interlúdio [leia aqui a crítica], Cronenberg usa a canastrice de Robert Pattinson a favor de um filme que não usa um registro naturalista. E isso obviamente causa um incômodo a quem entende cinema como sinônimo de imitação da vida, de aposta na ideia da continuidade – acho que Trabalhar Cansa, com pretensões distintas das de Cronenberg, também passou pelo preconceito das “interpretações artificiais”.
Não vale ficar aqui citando todas as cenas do filme, suas possíveis leituras. Ou destacar este ou aquele diálogo num filme cujo encantamento depende demais do texto. Nem há sentido em apenas descrever os procedimentos para um espectador que ainda não viu o filme.
Isso eu deixo para os grandes como o Inácio Araújo, que com sua conhecida habilidade em dar conta da passagem da leitura do filme ao texto crítico, como vê-se nesta crítica aqui.
E uma recomendação viva para que você veja Cosmópolis, o filme do homem-limusine, antes que ele seja chutado das salas.
Um texto mais sério fica para quando o filme sair em DVD.
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