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quinta-feira, 14 de março de 2013

Filme da Semana

Os Residentes, de Tiago Mata Machado

Fez um bem danado rever Os Residentes em casa, sozinho, sem aquele clima de festival -- que é ótimo por possibilitar acesso a filmes, mas que demanda respostas rápidas para filmes que pedem uma relação gradual, sem afobação.

Os Residentes ganhou a Mostra de Tiradentes em 2011, após ser ignorado no Festival de Brasília no ano anterior. Falou-se muito da coletiva de imprensa, das respostas dúbias de seu diretor -- Tiago Mata Machado --, mas pouco do filme em si.

A Lume lançará o longa em DVD no próximo mês. Ótima oportunidade para revisão. Escreverei sobre o filme para a seção Home da Revista Preview, que tem aberto um espaço nobre, na área de resenhas, a filmes "fora do centro" -- vale a leitura mensal da revista.

Indico vivamente a leitura do texto Das Ruínas: livre reflexão a partir de duas exceções, escrito por Francis Vogner dos Reis para a Revista Cinética, traçando diálogos entre Os Residentes e Santos-Dumont - Pré-Cineasta?, de Carlos Adriano, filme que gosto mais até do que o de Mata Machado [clique aqui e leia].

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tiradentes2012, um balanço: o eixo fora do centro

Público comparece em peso à Mostra de Tiradentes

1. Em várias das micro-entrevistas dos realizadores à TV Mostra dizia-se que “Tiradentes está se consolidando…” ou como espaço para a difusão de um cinema mais arriscado ou como palco de discussões. Já é hora de tirar a frase do gerúndio, assumir esse protagonismo da mostra dentro do contexto do cinema brasileiro, pensar seus impactos e caminhos futuros. Após 16 edições, sendo as últimas sete com curadoria definida, priorizando novos realizadores, dá para assumir que a Mostra de Tiradentes, tal como passamos a conhecê-la desde 2008, já está consolidada.

2. A Mostra de Tiradentes não é só a janela para circulação de um certo tipo de cinema. É também um lugar em que esse certo tipo de cinema, que para economizar linhas costumamos chamar de “ousado”, é observado com respeito, sem pré-conceito. Esse é um dos principais méritos da mostra. Em 2013, o melhor exemplo é Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis, que dificilmente teria tanta repercussão se não fosse pelo clima do evento, propenso a prestar a devida atenção a “filmes-ovni”.

Tal atenção vale para outros longas nos últimos anos. Djalioh e Na Carne e na Alma em 2012; Os Residentes, que veio dos narizes torcidos do Festival de Brasília para a consagração em Tiradentes em 2011; Pacific em 2010, Sábado à Noite em 2008, entre outros. O barulho de Doce Amianto neste ano, ou a vitrine aos três longas da mostra Sui Generis, com destaque a Semana Santa, não é um caso isolado.

Continue lendo o balanço da Mostra de Tiradentes 2012 na Revista Interlúdio.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Tiradentes2012: Jards, debate e observações

Jards Macalé no documentário Jards, de Eryk Rocha

Após da mesa de debate sobre o documentário Jards, na qual participei, como crítico convidado, ao lado de Joaquim Castro (montador), Francisco Cesar Filho (mediador), Eryk Rocha (diretor) e Jards Macalé (protagonista) na 16ª Mostra de Tiradentes, algumas pessoas me procuraram pedindo o texto que li na apresentação do debate.

Reproduzo abaixo minha fala, com pequenas alterações, tentando preservar o espírito da oralidade. Não se trata de um texto articulado como crítica de cinema, apenas uma das diversas abordagens possíveis a Jards, concentrando-a num aspecto bastante particular.

Acredito que Jards seja um filme musical para se ouvir com o olho. Uma frase dessas pode parecer clichê porque obviamente um filme se vê com o olho, mas não é. A produção recente de documentários musicais – ainda que eu não ache Jards um documentário musical, mas uma poesia cine-musical – tem se baseado basicamente em: imagens de arquivo; entrevistas; produção musical do documentado.

Entram nessa linha filmes bons e ruins: Tropicália, Uma Noite em 67, os dois filmes sobre Tom Zé, Loki – Arnaldo Batista, Raul etc.

São filmes de natureza distinta, de escopo mais amplo, enquanto Jards tem um recorte de tempo e espaço mais delimitado – a gravação de um álbum. Mas ainda acho interessante ressaltar essa ideia de que é um filme musical para se ouvir com o olho.

O olho do espectador em Jards é tão importante quanto o ouvido. Em vários momentos, fiquei tentando em fechar os olhos e deixar a música entrar pelo ouvido – porque é assim que eu escuto música em casa, janelas fechadas, na escuridão –, mas relutei porque, conforme o filme foi se desenvolvendo, percebi que meu olho precisava participar dessa cena de apreciação.

Tanto que há uma profusão, uma quantidade grande de planos no olho, quando um filme sobre música ou sobre um fazedor de música costuma se concentrar no ouvido. A gente teve outro filme bom aqui em Tiradentes, Matéria de Composição, que constrói/desconstrói o processo de composição de três músicos eruditos, com muitos planos que tomam o ouvido do personagem como seu porto seguro, seja para começar um plano ou para encerrá-lo. Em Jards, me parece que o porto seguro do plano, quando se filma o Macao cantando, é o olho.

O olho do Jards, o olho da câmera, o olho do espectador. Por ser um filme de intervalos – gravação e momentos fora do estúdio ou do passado –,  me parece haver uma preocupação em estimular o olho não apenas quando a música acontece, mas principalmente quando ela não acontece.

E a minha leitura desse estímulo visual num filme musical está ligada à possibilidade de a imagem não só ilustrar uma música, uma nota, um acorde, mas dela oferecer possibilidades de percepção da música. Essas imagens do intervalo das gravações, assim como a maneira que a câmera registra as gravações, servem não para se tornar a síntese de algo, mas para levar o espectador a um estágio tal de percepção dessa ou daquela música.

Um dos momenos que melhor ilustra isso é o mar em preto e branco que balança suavemente para lá e para cá, embalando o nosso olhar, antecedendo uma canção que é justamente de embalar, Boi da Cara Preta.

O que o filme de Eryk Rocha mostra em muitos momentos é que é possível traduzir com a imagem um estado de espírito que a música causa. Por isso que é um filme para se ouvir com o olho.

Abrindo um parênteses dentro da carreira do próprio Eryk: num filme com imagens apuradas e belas como Transeunte, seu longa anterior, tanto o acesso do personagem ao mundo quanto do espectador ao filme era pelo ouvido, pelos sons que ele, Francisco, ouvia de uma cidade que lhe parecia distante. Agora, num filme em que o som automaticamente chamaria a atenção Eryk propõe um acesso pelo olho.

Nesse acesso à música pelo olho, há um momento de rara felicidade: a primeira canção executada, Só Morto, num arranjo bastante intenso, “descontrolado”, que propõe perder-se, deixar-se levar pela ultrassensibilidade. A imagem deixa a luz estourar, a câmera cola no rosto: em vez de domar a selvageria, ela deixa correr solta. É num momento assim que a gente entende como o filme Jards dá conta pela imagem de um texto musical

Abrindo outro parênteses: o professor Roberto Bozetti classifica a produção pós-tropicalista, que é o contexto em que o Macalé explode para o Brasil, após a maluca apresentação de Gotham City em 1969, como “canção de esgar” – ou seja, canções de sentido esgarçado, de aparente incoerência, de desconforto, de grito, que se opõe à ideia de “canção de confronto”, que caracteriza a tradicional MPB de meados dos anos 60:

(…) Como se o que ali se dizia só pudesse ser dito e só devesse ser percebido em frangalhos [1]

Ao menos para mim, que ouvi e ouço a produção musical do Macao em momentos distintos, foi a primeira vez que vi uma imagem capaz de dar conta, e mais, de me fazer ver e ouvir além do que eu já tinha feito sozinho, em casa, antes de assistir a Jards.

Para encerrar, acredito que tal apreço que o filme Jards tem pela imagem, apesar de ser um filme protagonizado pela música e por um músico, cobre um buraco que pouca gente se dedicou a entender: a influência e o diálogo das artes plásticas na produção de Macalé, um músico que não pode ser visto apenas como um fazedor de música.

O documentário de Eryk Rocha não encerra isso, mas inaugura uma possibilidade de percepção e entendimento da música de Macao usando um vocabulário de estímulo do olho, não do ouvido.

[1]. Roberto Bozzetti, Uma Tipologia da Canção no Imediato Pós-tropicalismo. Revista Letras nº34. Universidade de Santa Maria.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Tiradentes2012: Os Dias com Ele

Os Dias Com Ele, de Maria Clara Escobar


Os Dias Com Ele expande as possibilidades do cinema-confessionário de filhos que querem descobrir os pais. Um filme pequeno, já que concentrado na interação (ou falta dela) entre filha e pai e rodado em apenas um espaço físico – a casa dele. Surpreende como a limitação se faz potência nesse documentário de Maria Clara Escobar. É do precário que surgem os momentos mais bonitos e inteligentes do filme.

Carlos Henrique Escobar é o intelectual, filósofo autodidata, autor de Marx – O Filósofo da Potência e Zaratustra (O corpo e os povos da tragédia), preso político e torturado pela Ditadura Militar em 1973. Mas existe outro Carlos: o pai de Maria Clara.

Primeiro ruído do filme: no jogo de encenação que se estabelece entre direção-câmera-personagem, Carlos parece disposto a interpretar apenas o papel do intelectual. Os papeis de pai e de homem que reconta sua história como torturado pesam como um paletó de chumbo. Em vez de domar esse ruído, Os Dias Com Ele dá vasão.

Ela quer que ele fale da tortura, ele lê o trecho de um livro; ela pergunta das imagens da infância, ele pergunta como poderia ter interferido; ela diz que se trata de um filme sobre os dois, ele recua pois não fará o “papel de papaizinho”.

Continue lendo o texto sobre Os Dias com Ele na Revista Interlúdio.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Tiradentes2012: Matéria de Composição e a impressão humana

Matéria de Composição, de Pedro Aspahan

Matéria de Composição, o documentário de Pedro Aspahan sobre o processo criativo de três compositores para a trilha do mesmo vídeo experimental, poderia muito bem se chamar Matéria em Decomposição. Pois o trabalho é de mão dupla: enquanto cada músico escreve, compõe, ensaia e executa, o espectador do filme desconstrói, observa as partes. E se esse mesmo espectador tiver alguma acumulo de música clássica – acúmulo sensível, não necessariamente teórico –, o documentário abre uma janela para, enquanto se assiste ao filme, acessar um cardápio musical acumulado na memória e imaginar como ele foi construído por seus autores.

Por baixo do visível interesse no processo de criação, o que expande o alcance do filme é o que ele permite pensar a respeito da interpretação humana do mundo. A dinâmica do longa: Aspahan fez um curta no qual filma a destruição de uma casa. Azulejos que se quebram, concreto derrubado, muro que cai: o que antes era um todo – a casa – torna-se um acumulado de partes – portas, paredes, tijolos, fechaduras, ferrolho.

A feitura das imagens que servem de base para a criação da trilha dos compositores não é neutra porque o cinema não é neutro. Linguagem mais que consolidada, existe uma carga de sentidos nas aparentemente banais escolhas de Aspahan. Um travelling filmando uma porta entreaberta é repleto de significados, assim como a queda em câmera lenta de um muro.


Continue lendo o texto sobre Matéria de Composição na Revista Interlúdio.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Tiradentes2012: Mostra Panorama 3 e Ventos de Valls

Ventos de Valls, de Pablo Lobato

Se a segunda-feira começou bem com o debate sobre Doce Amianto à altura da vontade de cinema do filme de Uirá dos Reis e Guto Parente – com destaque para a exposição inicial do professor Denilson Lopes –, o restante do dia, salvo exceções, não confirmou expectativas.


Não incluo Sudoeste no grupo, já que visto e revisto em São Paulo. Mas tanto a Mostra Panorama – Série 3 e o primeiro longa da Mostra Aurora nivelam-se, no geral, por baixo.

O Tradutor tem vontade de enredo e emoção, mas é bastante desafinado em todas suas esferas de composição. Se fosse bem dirigido e com um roteiro menos problemático, seria ao menos um curta bonitinho, ainda que vazio pela premissa primária – espectador que deseja mudar a história do filme que vê.

Outros três curtas da sessão apostam na transformação da imagem particular, privada e em primeira pessoa ao status de imagem para o mundo, para todos. Só Mauro em Caiena consegue satisfazer a proposta satisfatoriamente: a narração dá mais substância afetiva às imagens sobre um lugar distante que acalenta uma alma em transformação.

Continue lendo o texto sobre a Mostra de Tiradentes na Revista Interlúdio.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Tiradentes2012: Doce Amianto e A Balada do Provisório

Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis

Ir a um universo de signos fortes e sair de lá com um filme que seja seu, que caminhe sem a necessidade de se reconhecer de onde vem cada momento, cada personagem, cada atmosfera. No segundo dia da Mostra de Tiradentes dois longas fazem esse momento de ir e voltar (ou tentar) com algo próprio.

Doce Amianto é o que consegue. Uirá dos Reis e Guto Parente fizeram um desses filmes que você não sabe muito bem em qual posição da cadeira deve se sentar para se relacionar com ele. Não só pelo exagero deliberado em cada componente do filme, que fazem o kitch de Almodóvar parecer um cálculo cinematográfico que esteriliza o desconforto, mas pela própria força de embate, pela frontalidade em se posicionar, pelo crença desmedida no que está no plano – esta, uma percepção subjetiva difícil de traduzir para quem não assistiu ao filme –, além da própria estrutura de boneca russa, de filmes dentro do filme.

Vê-se um traço muito forte de João Pedro Rodrigues, especialmente o de Morrer como um Homem, em Doce Amianto. Há uma conversa entre a cena do café da manhã na floresta e a cena do chá das travestis ricaças no longa de Rodrigues. Ou a cena do fado e a fantasia de morte de Amianto. Dá para enxergar Fassbinder na cena do encontro no bar, cujo rosto do personagem me levou diretamente a O Direito do Mais Forte é a Liberdade.

Mas Doce Amianto vai ao universo simbólico de tais filmes – e a outros que possivelmente deixei passar despercebido – para voltar com algo próprio – o tratamento da canastrice ou da narrativa de fantasia, por exemplo. A jornada da personagem Amianto, que passa o filme inteiro vivendo um sonho de centro, de inclusão, mas que finalmente decide dar uma banana e viver a felicidade própria como dá, sem pedir licença – o enquadramento corajoso da cena de sexo reforça isso –, é muito prazerosa de seguir e transpira muita firmeza nas enunciações do filme.

A Balada do Provisório, de Felipe David Rodrigues
Por outro lado, A Balada do Provisório também vai a um lugar já demarcado, mas volta com menos coisas interessantes. Temos no anti-herói André Provisório um novo respiro do malandro carioca que não esconde suas pretensões sacanas, dentro de um filme com bem-vindas piadas a uma cena cultural cheia de tipos – a bonitinha do teatro "experimental", maconheiro que só gosta de vinis etc.

Nos bons momentos senti que Provisório era uma Angela Carne e Osso, a incontrolável devoradora em A Mulher de Todos, só que de calças. O filme começa bem, especialmente na apresentação do personagem. Aos poucos, porém, torna-se repetitivo. A piada perde a graça, a sátira perde a força de provocação e a paciência com as desventuras de Provisório vai embora.

Com o tempo, só resta a risada vazia e autômata em acessar o lugar simbólico de onde vem os personagens, pois o filme vai, vai, vai, mas não chega.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Tiradentes2012: A Paraíba vai ao centro

Onde Borges Tudo Vê, de Taciano Valério

Fora do centro é o eixo temático que a curadoria propõe para esta 16ª Mostra de Tiradentes. Estabelecê-lo como tema é mais uma formalização do perfil recente da mostra do que uma descoberta repentina de que algo fora do centro – entendendo-o tanto como localização geográfica como esquema de produção – está sendo feito.


A próxima semana vai responder para onde ainda é possível expandir a compreensão desse conjunto de filmes para além do que já se refletiu desde que a produção coletiva, a ação entre amigos e a divisão da autoria tornaram-se condição sine qua non de sobrevivência de filmes em locais que o hiato é um fantasma próximo.

Trazer para a noite de abertura um longa da Paraíba, estado que voltou a apresentar maior constância na produção, especialmente de curta-metragem, tentando romper com o traço de idas e vindas, de evolução e involução, é bastante interessante, um dado que precisa ser notado. Mas que não surge do acaso, já que desde 2000 aumentou a circulação de curtas, paraibanos.

De Carlos Downling vale lembrar o que há de divertido na filosofia de A Sintomática Narrativa de Constantino. Num outro registro mais sertanejo e tradicionalista há A Canga, de Marcus Villar. Há outros filmes de veteranos, como Homens, de Bertrand Lira e Lucia Caus, e Ikó-Eté, de Torquato Joel.

Continue lendo o texto na Revista Interlúdio.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Semana dos Realizadores: sobre filmes obrigatórios

A Cidade é uma Só?, o filme pop-político de Adirley Queiroz

Pela primeira vez desde 2009, quando foi criada no Rio de Janeiro, a Semana dos Realizadores: Voos do Cinema Brasileiro Contemporâneo aporta em São Paulo. Começa nesta quarta-feira (5/11) com a exibição do bom documentário Doméstica, de Gabriel Mascaro, às 19h no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, em forma de retrospectiva.

Há filmes obrigatórios, especialmente nesse contexto esquizofrênico do circuito exibidor, enxuto, reduzido, que atira certos filmes (especialmente os autorais brasileiros) em algum horário. Alguns dos filmes infelizmente terão sua passagem pelas salas de cinema restritas a festivais.

A Cidade é uma Só?, Estrada Para Ythaca, O Homem que Não Dormia, Praça Walt Disney, As Hiper Mulheres, Doméstica, Eles Voltam, Esse Amor que Nos Consome, Ovos de Dinossauro na Sala de Estar, Na Carne e Na Alma, Dona Sônia Pediu uma Arma para seu Vizinho Alcides, Pacific, Corpo Presente são alguns dos filmes que ilustram caminhos que as várias ramificações da produção brasileira seguem.

No meio da programação haverá debates, dos quais chama a atenção o do dia 12, “O que pode ser hoje um cinema político?”. E um par de aulas ministradas pelos críticos Francis Vogner dos Reis e Luiz Carlos Oliveira Jr., que falarão sobre os diálogos entre os filmes exibidos na Semana nos últimos quatro anos, traçando um contexto amplo que remonta ao começo dos anos 2000.

A programação está no site do CCBB-SP [clique aqui] e da Semana em São Paulo [clique aqui]. Abaixo, links para críticas, resenhas e comentários que escrevi -- publicadas em diferentes momentos veículos e, por isso mesmo, de profundidades distintas -- de alguns dos filmes que passarão na Semana.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Agradável, legal e gângster: premiado em Tiradentes na TV Brasil

“Daí eu pensei em como fazer um filme agradável, legal e gânster: Brasília, I love you”.

O que esperar de um filme cuja sinopse é essa aí acima? Dá pra esperar muita coisa porque A Cidade é Uma Só?, filme vencedor da Mostra de Tiradentes deste ano, é exatamente isso: agradável, legal e gângster.

Mas faltou acrescentar algo: político. A Cidade é Uma Só? é uma comédia política de dramaturgia difícil comparação ou classificação com o que está sendo feito no cinema brasileiro contemporâneo. Quem acompanhar a sessão de sexta-feira (20/4), às 2340, na TV Brasil, vai ter a chance de conferir que cinema crítico e humor se dão muito bem.

Adirley Queirós, o diretor, segue e constrói três personagens: um especulador imobiliário da periferia; um faxineiro que quer se candidatar a vereador pelo PCN (Partido da Correria Nacional); e uma senhora que vivenciou a exclusão da população pobre do “embelezamento” de Brasília nos anos 1970. Pano de fundo: a invenção de Ceilândia pela Ditadura Militar, cidade satélite que foi literalmente inventada (o “cei” de “Ceilândia” significa Campanha de Erradicação de Invasões). Adirley se define como “da primeira geração pós-aborto territorial”.

A Cidade é Uma Só? não foge da raia e vai para a briga: questiona a máquina eleitoral e a manipulação, o processo histórico excludente de Brasília, o discurso escroto da Ditadura Militar. Mas em vez de nos entregar um filme engessado com entrevistas de especialistas, falas emocionadas e outros bla bla bla, vemos um filme de amor e de risos.

Sua dramaturgia dá um drible em quem fica preso nas denominações de documentário e ficção. Não se sabe muito bem o que é encenação orquestrada ou espontânea. Também isso não importa porque em A Cidade é Uma Só? é tudo verdade, mesmo que quase tudo seja mentira. Mas não vou entregar mais do que isso para não estragar a surpresa.

O que reitero é esse poder que o filme tem de ser crítico, mas não sisudo. Ora se apoia inteiramente no seu personagem mais carismático, Dildu, o candidato a vereador, dono de um jingle maravilhoso (“Vamô votá, votá legal, 77223 pra Distrital. Dildu!”). Ora concentra a força da crítica em planos de rara beleza cinematográfica (o próprio encontro de Dildu em sua campanha isolada com a máquina eleitoreira profissional, personificada por um gigante carro de som, assim como a caminhada do cavaleiro solitário num cenário descampado de desolação).



A Cidade é uma Só é uma pequena contribuição ao cinema brasileiro que se assume como crítico. É possível colocar em debate e questionar o passado ou o presente sendo, sim, muito agradável, legal. E gângster, se possível.

Em tempo: quem já assistiu ou vier a assistir ao filme pode buscar comparativos dramatúrgicos tanto com O Céu Sobre os Ombros quanto Avenida Brasília Formosa. Faz sentido, sim, mas o filme de Adirley tem um humor crítico que não vejo muito nos outros filmes. E disso eu gosto demais.

Em tempo 2: a sessão em Tiradentes foi lindíssima, uma das mais eletrizantes que já presenciei em festival de cinema. Cine Tenda lotado embarcando no filme e entoando o jingle de Dildu no final. OK, emocionante, mas tenho um pouco de receio se quem embarcou na comédia da superfície deixou de perceber o que está por baixo. O mesmo medo que tenho com o “agridoce” de As Neves do Kilimanjaro.

As Neves do Kilimanjaro: um filme agridoce sobre o mundo do trabalho

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Morrem Paulo Cezar Saraceni e Adriano Stuart



Fiquei desconectado por dois dias e descubro que, além do jovem Festival de Paulínia, o cinema brasileiro perdeu duas figuras realmente de peso: o diretor e roteirista Paulo Cezar Saraceni e o diretor e ator Adriano Stuart.

Saraceni aos 79 anos, bastante doente (estava há oito meses internado por conta de um AVC), ainda teve um sopro de reconhecimento quando, em 2011, foi homenageado pela Mostra de Cinema de Tiradentes. Stuart, aos 68, faleceu vítima de parada cardíaca, andava um pouco sumido - o último filme que fez foi A Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins.

De Saraceni, fico com o impacto da beleza de seus primeiro filmes, o curta-metragem Arraial do Cabo (1959) e o longa Porto das Caixas (1962). Se me chamassem para falar de como o cinema pode ser poético, automaticamente mostraria cenas desses dois filmes, que são poéticos de um jeito que o cinema brasileiro conseguira ser até então só com Limite (1930).

O fluxo de poesia de ambos os filmes colou em mim de tal maneira na exibição em Tiradentes que me levou a escrever o seguinte:

Num filme correto, o fotógrafo auxilia o diretor a realizar os planos e criar uma ambiência de imagem. No caso de Porto das Caixas, não seria exagero afirmar que Mário Carneiro é cocriador ao lado de Saraceni. O trabalho belíssimo de iluminação, que joga os personagens num escuro da alma avassalador, emana uma falência humana paralela à pulsão pela vida.


Liberdade e prisão andam parelhas nesse filme. Chegar a um estado isento de coação pode implicar ultrapassar a linha da dignidade ou um criar uma prisão. É como se o Raskolnikov de Crime e Castigo, de Doistoiévski, fosse dividido entre a personagem da mulher e a do amante (Cláudio Cavalcanti).

Saraceni morreu sem conseguir lançar seu último filme, O Gerente, exibido na abertura da mostra mineira. Hábil em provocar amores ou ódios, o longa criou seu séquito de defensores ou detratores apenas com a projeção em Tiradentes e posteriormente foi destrinchado em dois textos críticos da revista Filme Culturaum positivo, outro negativo.

Ney Latorraca, o comedor de dedos das mulheres em O Gerente, adaptação de Drummond

No debate em Tiradentes, Julio Bressane disse, com a perspicácia que lhe é habitual, que já não havia mais espaço para o tipo de cinema que Saraceni fazia. Este demanda um movimento do espectador em direção ao filme, de que nós saiamos da nossa mediocridade comum para caminhar rumo ao filme. Sobre O Gerente, fez uma leitura inteiramente filosófica que que obviamente impressionou a todos.

É o mesmo cenário que aponta o crítico Inácio Araújo.

O que fazia vivo, ainda, era incomodar um pouco. Seus filmes não interessavam à Ancine, ao MinC, ao público chic. Esse público que, ao ver O Viajante, durante a abertura de uma mostra de melhores do ano promovida pelo Sesc, deixava a sala. Estava diante do, provavelmente, mais belo filme brasileiro desde os anos 90 do século 20, mas não sabia reconhecer.

Stuart, o hitmaker

Dos filmes de Adriano Stuart como diretor tenho uma memória muito vaga. Seus maiores sucessos foram os filmes dos Trapalhões (Stuart e J.B.Tanko foram os que mais filmes fizeram com Didi Mocó e companhia).

Vale lembrar que na lista das 20 maiores bilheterias do cinema brasileiro de todos os tempos (relação que é liderada pelos 11 milhões de especctadores de Tropa de Elite 2), Stuart dirigiu um quinto dela. Juntos Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978), O Cinderelo Trapalhão (1979), O Rei e os Trapalhões (1980), Os Três Mosqueteiros Trapalhões (1980) e O Incrível Monstro Trapalhão (1981) somam 22.792.926 milhões de espectadores.



Além desses números assombrosos, o que permanece com mais força é a imagem de Stuart como ator, especialmente dos filmes de Ugo Giorgetti. Sua presença tanto em Boleiros – Era uma Vez o Futebol tanto Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos é hilária. Há também Festa, é preciso não esquecer.

Em dois dias, sábado e domingo, o cinema brasileiro perdeu gente boa demais.

Em tempo: a foto principal que ilustra este post foi carinhosamente roubada do Facebook de Carlão Reichenbach.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Wando e o cinema: Vou Rifar Meu Coração

Wando, ícone do romântico e do brega, em cena do documentário Vou Rifar Meu Coração


Ironia do destino que Wando, o cantor que falou de amor e sexo, tenha morrido do coração. Um infarto o levou.

O Wando que se tornou nacionalmente conhecido e loucamente idolatrado é o cantor e compositor de 1974 para cá, após o lançamento do álbum Moça. Por quase quatro décadas, o mineiro que se fez no Rio de Janeiro manteve-se no seleto grupo dos ases da música brega/romântica.

O que não deixa de ser uma generalização. Como classificar uma canção como Benedito e Julieta, uma das faixas mais criativas do primeiro álbum de Wando, Glória a Deus no Céu e Samba na Terra – um LP eminentemente sambista que traz influências de Martinho da Vila e MPB4.

Mas não vou me alongar com opiniões sobre a carreira de Wando. Prefiro lembrá-los que existe um contraditório e interessante documentário que coloca sob os holofotes a música romântica e a força que ela tem para falar de sentimentos. Trata-se de Vou Rifar Meu Coração, o filme de Ana Rieper que estreou no Festival de Brasília em 2011 e foi exibido na Mostra de Tiradentes em janeiro deste ano.

Debati o filme com a diretora e a produtora Suzana Amado em Tiradentes. Prosa rica.

Vou Rifar Meu Coração é quase um consultório sentimental. Ou seja, o mesmo mote do documentário recente de Eduardo Coutinho, As Canções – o que os distingue é a proposta de encenação. Personagens abrem seus corações e com as músicas de Wando, Amado Batista, Odair José, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Lindomar Castilho, entre outros, falam de dores e amores.



Este é sem dúvida a grande força do documentário: um filme de sentimentos. Mas ainda permanecem questões em torno da música e de classificações.

No debate, questionei como Vou Rifar Meu Coração coloca um cara mais sofisticado como Odair José no mesmo balaio musical de Amado Batista. A diretora ponderou que não foi a intenção mergulhar nas diferenças musicais entre o que convencionou chamar “cantor romântico/brega”.

Escolha válida a de Ana: documentário tem de ter corte e ela escolheu um. Como admirador de música, porém, senti falta de algo menos en passant.

Agnaldo Timóteo, um dos entrevistados do documentário


Mas a grande contradição de Vou Rifar Meu Coração está na força de uma entrevista e no acordo de outra. A diretora conseguiu extrair de Agnaldo Timóteo – se não me falha a memória, pela primeira vez numa entrevista – um comentário aberto sobre a homossexualidade de suas músicas como Galeria do Amor ou Amor Proibido.

Por outro lado, a entrevista com Lindomar Castilho é controversa. Refrescando a memória: o cantor da música que dá título ao filme levou suas letras sobre ciúme ao limite e matou a ex-mulher enquanto ela se apresentava como cantora num bar. Ficou sete anos preso.

O filme dá a chance do cantor justificar seu ato desesperado – o que é legítimo –, mas sonega do espectador a informação de que aquela conversa velada de Lindomar sobre ciúmes e loucura teve consequências drásticas. Quem não sabe que Lindomar matou a mulher vai pensar que ele está falando genericamente apenas de música.

Na minha leitura, isso leva a uma perigosa naturalização das coisas.

Aguardo a estreia do filme nos cinemas, agendada para abril, para ver como será a reação dos espectadores tanto para o registro de consultória sentimental do documentário quanto o musical e a contradição da entrevista.

Por enquanto, fica o registro para quem sente saudades de Wando: assista a Vou Rifar Meu Coração.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

TIRADENTES 2012: Política, cidade e debate entre crítica e cineastas marcam mostra



Muita coisa aconteceu na pequenina Tiradentes nos últimos nove dias. Da homenagem a Selton Mello à premiação de A Cidade é uma Só?, torna-se até difícil abarcar em apenas um texto o que aconteceu na 15ª Mostra de Tiradentes, tamanha a intensidade dos debates e a possibilidade de diálogos oferecida pelos filmes exibidos.

Passando pelos longas-metragens que competiram na seleção Aurora, dedicado a novos realizadores comprometidos com um cinema um pouco diferente do que você está acostumado a ver no circuito comercial, percebe-se uma preocupação clara com a cidade e o desenvolvimento urbano. Melhor: por um viés político-cinematográfico.

São os casos de A Cidade é uma Só?, grande premiado da Mostra de Tiradentes, HU, agraciado pelo Júri Jovem, Corpo Presente, As Horas Vulgares e Balança Mas Não Cai, cinco dos sete filmes projetados na Aurora.

Continue lendo o texto de balanço da Mostra de Tiradentes no Cineclick.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Protesto contra violência da polícia em Pinheirinho chega a Tiradentes

Marat Descartes, um dos atores de Corpo Presente, protestou contra violência em comunidade do Pinheirinho


A noite de quarta-feira (25/1) na Mostra de Tiradentes foi de celebração pela pré-estreia de Corpo Presente, mas também de protestos. Assim como acontecera há dois dias quando os cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra, de Trabalhar Cansa, criticaram a ação da Polícia Militar, endossada pela prefeitura de São José dos Campos e pelo governo do Estado de São Paulo, de desocupação da comunidade do Pinheirinho, o ator Marat Descartes leu, no palco do Cine Tenda, uma moção de repúdio.

“Estamos em um momento de alegria e celebração, mas não podemos fechar os olhos para algo de muito grave que está acontecendo em nosso país e, em especial, São Paulo”, disse Descartes, antes de iniciar a leitura da “Moção de repúdio à política do coturno em Pinheirinho”, mesmo manifesto que havia sido lido por Rojas e Dutra na terça-feira. O público do Cine Tenda aplaudiu a atitude.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

As Horas Vulgares: jazz e desencanto na Mostra de Tiradentes

As Horas Vulgares, raro exemplo de longa-metragem produzido no Espírito Santo

 Após um começo desinteressante com o documentário Balança mas Não Cai, a seleção Aurora da Mostra de Tiradentes, dedicada a diretores no primeiro ou no segundo longa-metragem, ganhou novo ânimo na noite de terça-feira (23/1) com a exibição de As Horas Vulgares.

Dirigida por Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize, o filme se passa em Vitória, Espírito Santo, e tem como centro de ação o encontro de dois amigos, Théo e Lauro, na noite das ruas da cidade e na casa de amigos. Numa bela fotografia em preto e branco, eles lembram do passado, de uma mulher que une a história os dois (ela se chama Clara), das noites de jazz e do desconforto com a falta de ação.

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As Hiper Mulheres: índias do Xingu vão cantar na Holanda

 As Hiper Mulheres, documentário que mostra o ritual cântico de uma tribo indígena do Xingu, exibido na noite de domingo (22/1) na Mostra de Tiradentes, é um dos filmes a integrar a legião de brasileiros que vai invadir o Festival de Roterdã.

A partir da próxima quarta-feira (24), o festival holandês estará abarrotado de longas e curtas-metragens produzidos no Brasil – alguns deles inclusive passaram por Tiradentes. Ao todo, serão sete longas e cinco curtas, além de uma extensa retrospectiva da produção da Boca do Lixo e da presença de Helena Ignez, musa de Rogério Sganzerla, no júri do Tiger Awards.

Roterdã também vai marcar um fato raríssimo: dois longas brasileiros – Sudoeste e O Som ao Redor – estarão na mostra competitiva principal, acontecimento quase nunca visto num festival europeu de grande porte. O máximo de penetração que o cinema brasileiro tem conseguido em eventos do Velho Continente tem sido em Cannes – média de quatro filmes por ano, mas espalhados em mostras paralelas.

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Em Tiradentes, a questão de como representar no cinema

Denise Fraga, protagonista de Hoje, foi premiada no Festival de Brasília


Pode parecer loucura, mas há um diálogo entre dois filmes de feitura diferente, ambos exibidos no sábado (21/1) aqui na Mostra de Tiradentes. De um lado Djalioh, inspirado num conto que Flaubert, o autor de Madame Bovary, escreveu em 1837. Do outro está Hoje, longa da premiada Tata Amaral (Antônia, Um Céu de Estrelas) que se aproxima das feridas da ditadura.

O questionamento da representação de uma história é o principal ponto de contato para o diálogo de filmes tão distintos. É esse questionamento que faz com que Djalioh enverede por uma contação de histórias, com narradores que se revezam como personagens, ou que Hoje, grande vencedor do Festival de Brasília, adote métodos menos tradicionais para a encenação do que não há como ser dito.

No filme de Tata temos a história de uma mulher de meia-idade (Denise Fraga) que acaba de se mudar para um outro apartamento. De sopetão, enquanto os móveis são carregados pelos ajudantes, um homem (Cesar Troncoso) aparece e questiona o passado de Vera – que descobriremos ter adotado o nome de Ana Luiza no passado.

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domingo, 22 de janeiro de 2012

Billi Pig conversa com a chanchada e com caos brasileiro

Grazi Massafera interpreta Marivalda, que sonha em se tornar atriz.

“Esse filme surgiu de um desejo nosso de dar uma elevada no cinema comercial brasileiro”. As palavras da produtora Vânia Catani explicam as intenções de Billi Pig, o longa de abertura da Mostra de Tiradentes. É a tentativa de José Eduardo Belmonte, o diretor de Se Nada Mais Der Certo e A Concepção, ampliar o diálogo de seu cinema com o público e, indiretamente, criar uma outra via: filmes que não precisam descer ao nível de Cilada.com para ter público.

“É um filme absurdo”, declarou o diretor na abertura, ao lado dos atores Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves e Murilo Grossi. A exibição aqui em Tiradentes é um teste interessante para um filme que abertamente busca comunicação larga com o público e é dirigido por um cineasta marcado como autoral.

Há em Billi Pig um escracho, e também um certo cinismo, com coisas tipicamente brasileiras: a bandidagem aloprada, o sincretismo religioso, a diva de subúrbio, as instituições frouxas e o jogo de cintura para sobreviver. Mais do que cinema de massa, o filme trava um diálogo com um período em que o cinema brasileiro foi profundamente popular: no auge das chanchadas nas décadas de 40 e 50, quando Oscarito, nosso maior comediante, reinou ao lado de beldades que cantavam no cinema as músicas que viriam a fazer sucesso no carnaval, com enredos que comentavam situações tipicamente brasileiras e especialmente cariocas.

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Mostra de Tiradentes homenageia Selton Mello e discute ator no cinema

Diretor e protagonista de O Palhaço receberá homenagem nesta sexta (21/1)

 Pelo segundo ano consecutivo, a Mostra de Cinema de Tiradentes, o mais inquieto dos eventos do calendário de festivais brasileiros, vai homenagear um ator. Se 2011 foi o ano de Irandhir Santos, que caiu na boca do povo após o sucesso de Tropa de Elite 2, neste edição os holofotes se voltam a Selton Mello, um ator que também é autor.

A 15ª Mostra de Tiradentes começa nesta sexta-feira (20/1) com a exibição do inédito Billi Pig, de José Eduardo Belmonte. Selton é um dos exemplos de ator que transita por muitas frequências dentro do cinema brasileiro. Pode ser lembrado por um projeto muito autoral como Lavoura Arcaica ou pelo carisma de O Auto da Compadecida, um playboy maconheiro em Árido Movie ou um romântico em A Mulher Invisível. Selton conseguiu tanto ser dirigido por um esteta como Julio Bressane quanto por um diretor com influências do videoclipe como Mauro Lima.

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sexta-feira, 4 de março de 2011

Qual o rumo dos festivais?

Na terça-feira, a Pró-Cultura, que faz a assessoria tanto do pólo de cinema de Paulínia quanto do festival, anunciou que o evento da cidade irmã de Campinas aumentou consideravelmente os prêmios aos vencedores.

Em vez dos R$ 150 mil do ano passado para Melhor Filme, em 2011 teremos R$ 250 mil. Vou repetir: R$ 250 mil! Brasília deu R$ 80 mil, Cine Ceará R$ 16 mil e É Tudo Verdade, festival de documentários, dará R$ 100 mil, o mesmo prêmio que Paulínia reserva neste ano para docs.

Pergunto: o que acontecerá com os festivais de cinema brasileiro que costumam selecionar as produções em 35mm, geralmente orçadas entre R$ 1 e R$ 4 milhões? Como Gramado, Festival do Rio, Cine PE, Brasília e Cine Ceará vão manter sua capacidade de atração a esse tipo de cinema incentivado?

No ano passado, com a mudança de curadoria, que passou para as mãos de Sérgio Sanz e José Carlos Avellar, Gramado mudou um pouco de cara, se afastou dos flashes e se dividiu entre filmes como Bróder e O Último Romance de Balzac. Em 2010, Brasília mudou seu perfil, tentando se aproximar de um fazer cinematográfico um pouco diferente.

No ano passado, tanto o festival em Recife quanto o de Fortaleza tiveram um leque menor de opções na hora de selecionar longas-metragens. Acho que, quando Paulínia entrou no calendário de Festivais em 2008, o Cine PE foi afetado de imediato.

Como vai ficar a Première Brasil do Festival do Rio deste ano? Esta mostra do evento carioca tem conseguido, nos últimos anos, atrair os melhores filmes deste modelo de produção – o cinema incentivado e feito em 35mm –, mas como será 2011 frente à possibilidade de Paulínia trazer Selton Mello (O Palhaço), Vicente Amorim (Corações Sujos), Marco Dutra e Juliana Rojas (Trabalhar Cansa), Toni Venturi (Estamos Juntos) na competição e, talvez em exibição especial, Cao Hamburger (Xingu) e Cláudio Torres (O Homem do Futuro)?

Estou com a sensação de que haverá uma polarização entre dois festivais. De um lado, Paulínia, com seu prêmio vultoso e uma geração de mídia muito maior do que em outros eventos. Do outro, a Mostra de Tiradentes, com sua habilidade em acompanhar um cinema cujo modelo de produção é uma alternativa ao incentivado e fomentar a reflexão sobre o cinema brasileiro.

Em que posição ficarão os outros festivais de cinema? Coadjuvantes?