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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar2013: breves comentários da premiação

Ben Affleck, que não foi indicado a Direção, segura estatueta de Melhor Filme

Como ontem passei toda a cerimônia fazendo troça do Oscar pelo Facebook, aqui vão brevíssimos comentários com um pouco de seriedade sobre a festa dos funcionários do cinema americano, que não é tão séria assim:


  • A premiação pulverizada deve ter pegado de calças curtas quem participa de bolão. Argo ganhou Roteiro Adaptado, Django Roteiro Original; As Aventuras de Pi, Direção; Lincoln, Ator, e O Lado Bom da Vida, Atriz. A vitória de Argo no Sindicato dos Produtores sinalizava a força do filme de Ben Afleck. Mas dar o Oscar a ele significaria premiar, pela segunda vez em 80 anos, como Melhor Filme uma produção que não teve seu diretor indicado. Foi o que aconteceu.



  • Foi um Oscar de questões bastante americanas por filmes como Argo, Django e Lincoln. Um sutil detalhe: ganhou o filme com traços patrióticos sobre um episódio heroico. Os outros dois, que falam de um calcanhar de Aquiles que é bastante visível na sociedade contemporânea, a escravidão e seus rastros, ficaram no posto de coadjuvante. Com o componente adicional de que Tarantino ganhou o Roteiro Original, como se “seu filme é bom, mas essa história de colocar um negro matando os brancos é um pouco demais para a nossa estabilidade”. Yes, we cannot.



  • A parceria de produção Grant Heslov e George Clooney vai dando certo. Os dois têm se especializado em “filmes de qualidade” sobre grandes temas. Casos de Boa Noite, Boa Sorte, Tudo Pelo Poder e, agora, Argo. De Heslov, porém, o que mais gosto é o longa que dirigiu, O Homem que Encarava Cabras.



  • Christoph Waltz repetiu a estatueta de Bastardos Inglórios e ganhou como Ator Coadjuvante. Problema: ele é tão protagonista quanto Jamie Foxx (discuto esse acesso condicionado de Django no centro do filme neste post aqui).



  • As Aventuras de Pi venceu Melhor Fotografia. Deveria ter ganho um sub-Oscar de Melhor Fotografia em Chroma Key. De quebra, levou Efeitos Especiais. Duas leituras possíveis: a visão equivocada que mistura alhos com bugalhos, caindo no clichê da fotografia como “algo bonito de se ver”, ou uma mensagem direta da indústria de que o caminho é o CGI, tela verde e tudo mais: quem não concordar que se dane.



  • Bastante infeliz a homenagem, durante toda a cerimônia, dos musicais da última década. Chicago é medíocre, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho tem seus momentos. Os Miseráveis, contenedor de 2013, é um desastre. Vincente Minnelli e Jacques Demy devem ter se revirado em seus túmulos.



  • Não houve grandes gafes no segmento que homenageia os mortos do ano anterior. Surpreendentemente, Tonino Guerra, roteirista de Fellini, por quem a Academia ficou encantada no fim dos anos 1950 até meados dos 60, e Chris Marker, foram lembrados. Não houve, a menos que tenha comido bola, uma ausência na lista de alguém do quilate de Theo Angelopoulos.

  • Haneke, como era de se esperar, levou apenas o Oscar de Filme Estrangeiro, apesar das outras quatro indicações. Independente de gostar ou não do filme, ficou claro a leitura simplista de Amor nos discursos de apresentação, que salientavam apenas o que está à mão, ou seja, o amor entre dois velhos. Há, porém, o mais importante: a velha Europa que rui.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Oscar: o que pensa um votante da Academia

Os votos do Oscar. "Michael Haneke odeia os seres humanos", explica o votante.

Na semana que antecede a entrega do Oscar, um votante da Academia resolveu abrir a sua cédula de votação, e as justificativas dos filmes escolhidos, para um repórter do The Hollywood Reporter. Enquanto preenchia a cédula, o votante fazia comentários a respeito de suas escolhas. A cerimônia de entrega do Oscar acontece neste domingo (24/2).

Para quem observa o Oscar com olhar minimante crítico, entendendo o papel que ele tem na legitimação de um cinema -- o de Hollywood --, não há surpresa na ausência de profundidade do votante -- que abriu os votos, mas permanece anônimo. Para quem leva o Oscar a sério -- ainda existe quem? --, está na hora de rever seus conceitos.

Abaixo, algumas das justificativas do votante para escolher, ou deixar de escolher, este ou aquele filme [leia aqui no original em inglês]. Comentários que ilustram não apenas um caso individual -- a idiossincrasia de quem acha que Haneke odeia a humanidade --, mas como funciona o senso comum na cabeça de outros membros da Academia.

Melhor Roteiro Original

Amor está automaticamente desclassificado: é apenas uma mulher morrendo, não tem uma história de verdade, e o filme me fez sentir como um nada. Só consigo tolerar troca de fraldas até um certo ponto. [...]

Melhor Direção

Amor é unicamente um filme de ator. Além disso, Michael Haneke me deixou puto da vida no passado porque fez filmes que são muito misantrópico. Ele simplesmente odeia os seres humanos e, a propósito, eu sou um ser humano e não gosto que caguem em mim. [...] Além disso, Spielberg merece um Oscar a cada dez anos em respeito ao que ele faz pela indústria.

Melhor Fotografia

Voto em 007 - Skyfall porque quero ver o Roger Deakins ganhando um Oscar. Bem, eu sou um dos que sabem que foi ele que fotografou o filme, mas muitos votantes na Academia não fazem a menor ideia quem assina a fotografia porque não é explicitado na cédula de votação. Na verdade, eles não têm coragem de votar nele porque é um filme de James Bonde, tipo "Como você pode dar um Oscar a James Bond?"

Melhor Atriz

[...] Também não quero votar numa pessoa que sequer consigo pronunciar o nome. Quvez...? Quzen...? Quyzenay? Seus pais certamente a deixaram num buraco ao dar a ela aquele nome -- Alfabeto Wallis. A verdade é que sua atuação é fofa, mas imatura. Dirigi crianças, eles provavelmente fizeram milhares de takes, mas só montam os melhores. [a atriz se chama Quvenzhané Wallis e foi indicada por Indomável Sonhadora].

Melhor Direção de Arte

[...] Resta-me, então, Anna Karenina, que odiei, e Lincoln. Não votarei no Lincoln para Melhor Filme, mas tenho muito respeito pelas pessoas de Steven Spielberg e Kathleen Kennedy e eu quero ajudar o filme, então darei um voto a ele, aqui vai".

Melhor Documentário em Longa-metragem

É um bom certame, vi todos os filmes. O mais forte é The Gatekeepers, que tem chances de vencer. Todavia, para ganhar um Oscar, você geralmente tem de realizar um filme ou que faça as pessoas se sentirem maravilhosas ou que as façam querer cortar os pulsos; ou seja, que desperte a jovialidade ou a atenção para a importância do tema. Acho que Searching for Sugar Man vai ganhar e vou voltar nele porque eu me senti maravilhoso depois de assisti-lo -- e comprei o álbum de Rodriguez.

Melhor Figurino

[...] Só não quero votar em Anna Karenina, apesar de que provavelmente vencerá porque é exatamente o tipo de filme que ganha essa estatueta. Tem gente que nem viu o filme, mas irá votar nele porque ele tem aquele cheirinho de premiado.

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis, um elefante branco

Hugh Jackman em Os Miseráveis

Que desastre é esse Os Miseráveis! Não esperava grande coisa, já que não me iludo com a suposta elegância de O Discurso do Rei, o filme anterior de Tom Hooper. Só não contava com um filme com tantas decisões equivocadas, especialmente da direção.

Não entendo porque Hooper largou um estilo de direção mais acadêmico, que fez de O Discurso do Rei um filme-Mauricinho, mas ainda assim um filme, e foi se “modernizar” com câmera na mão. Até agora não compreendi porque a câmera se comporta como se empunhada por um cinegrafista da Al Jazeera que registra corpos explodindo no momento de um atentado no Oriente Médio.

Hooper não nos deixa ver o filme. Cola a câmera nos atores quase todo o tempo. Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Eddie Radmayne e seus comparsas fazem caras e bocas que parecem ter saído diretamente do curso de atuação do Mojica.

Gasta-se dinheiro com figurinos, figurantes e cenários (sejam eles físico ou CGI), mas são raros os planos gerais. Não há respiro e os planos se sucedem com velocidade voraz, dando a impressão que, apesar de durar quase três horas, o filme tem pressa em acontecer.

No terço final, Os Miseráveis já não sabe mais o que fazer com o que contou até então. Passa um tempo monstruoso delineando o jogo de gato e rato de Jean Valjean e Javert, mas joga tudo para o alto e decide ser um romance. Lembra-se, mais tarde, que existe o conflito entre os dois, então gasta minutos numa cena com Crowe e seu dilema (câmera subjetiva do rosto olhando para o pé no parapeito é brincadeira!).

Para incrementar, um pequeno detalhe: Os Miseráveis é um musical em que a maioria do elenco principal canta apenas o suficiente para tapear. Uma coisa é dar conta de algumas cenas num filme breve. Outra é segurar números longos num filme arrastado e repetindo o mesmo registro vocal dos outros atores. Resultado: Rusell Crowe.

Quando as cenas razoáveis aparecem – as participações de Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, por exemplo – a minha tolerância já tinha se esgotado. Quando o martírio findou e o filme acabou, não segurei: soltei uma gargalhada acumulada após tantos momentos embaraçosos no filme.

Umas três senhoras na minha frente olharam torto, acho que não gostaram da minha reação. Vai ver elas tinham acabado de assistir a um grande filme, eu é que estou cego.

Mojica e seu curso de interpretação, inspiração para os atores de Os Miseráveis