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sexta-feira, 16 de março de 2012

Projeto X - Crítica

Se Beber, Não Case e Projeto X – Uma Festa Fora de Controle são filmes gêmeos. Além da óbvia constatação de que Todd Phillips assina a produção de ambos (além da direção do primeiro), os dois trabalham na mesma frequência com o humor (o que pode ser lido por uns como “vou correndo para o cinema” tanto como “vou passar longe do cinema” para outros).

Mais importante, porém, é o fato de que ambos têm material para se falar por horas sobre a repressão sexual e social. A gênese dos personagens do filme-ressaca de Phillips é a mesma dos adolescentes do filme-testosterona de Nima Nourizadeh: os que se permitem enfiar o pé na jaca apenas uma vez na vida.

Em Se Beber, Não Case – seja a Parte I ou II –, os meninos grandões, adultos infantilizados, enchem a cara na despedida de solteiro de um membro da turma e se metem numa série de roubadas – em Vegas no primeiro filme, Bangcoc no segundo. O público descobre ao mesmo tempo que os próprios personagens o que se passou na fatídica noite da qual ninguém guarda lembrança.

Continue lendo a crítica de Projeto X na Revista Interlúdio.

O cachorro em Projeto X é o comic relief correspondente ao macaco de Se Beber, Não Case

terça-feira, 21 de junho de 2011

Dirty Dancing e Se Beber, Não Case: os filmes irmãos

Já se vão 24 anos que Dirty Dancing – Ritmo Quente, o irregular musical com Patrick Swayze que termina com a longa sequência embalada por Time of My Life, surfou na onda que reascendeu os musicais. O filme tem personagens carismáticos, conservadorismo que faz tudo terminar em festa e uma direção bem ruim, do nível daquele Emanuele em que a protagonista vem para o Brasil para esquecer uma grande paixão e, no caminho, faz uma cirurgia plástica de corpo inteiro!

Mas o que justifica este comentário 24 anos depois do lançamento e quatro anos da edição dupla comemorativa ter saído em DVD é um detalhe no filme: a insinuação sexual do ménage à trois e a repressão do desejo.

Num verão qualquer, famílias ricas vão para um resort. Entre os Houseman, Baby é uma adolescente que tem o pai como modelo de homem. A estadia e a tal da dança proibida do título vão mudar o rumo da família, especialmente de Baby.

Dirty Dancing – Ritmo Quente é ambientado em 1963, quando, diz um personagem, “os jovens já não querem vir pra cá para aprender fox strot, mas visitar a Europa!”. Um olhar inocente sobre um tempo de mudança. Como demonstra a sequência final, em que pais caretas, esposas fiéis e infiéis, meninos medrosos e meninas que desejam caem na dança.

No fim das contas, são todos reprimidos comportamental e sexualmente. Talvez aquela dança frenética de corpos colados, erótica e lasciva será a única chance em suas vidas de libertar as fantasias e usufruir o desejo. Patrick Swayze, dançarino esguio de movimentos leves e sensual movimento de cinturas, é quase um Eros que joga uma sementinha devassa naquela caretice reinante.

Curioso é que o tratamento do sexo no filme é tão puritano quanto a cabeça dos personagens. Filmar a transa? Jamais! No máximo, beijos ardentes à meia-luz e... corta! Tudo neste filme é insinuação, não exposição. A mais interessante é, em uma cena bucólica em que Baby está dando os primeiros passos como dançarina improvisada e é auxiliada ao mesmo tempo por Johnny (Swayze) e Penny (Cynthia Rhodes). Em outro take, Johnny está sentado do piso observando as duas garotas dançando juntas, de maiô e meia-calça sensual. Nada é dito, fica só nas entrelinhas.

Essa libertação como ato isolado na vida da maioria dos personagens desse musical tem muito a ver com a dos três bêbados em Se Beber, Não Case! e na sequência lançada neste ano. Especialmente o personagem de Stu, o dentista, que, após casar-se com uma prostituta no primeiro filme, passa a noite na esbórnia se divertindo com uma travesti.

No dia seguinte, dá-lhe lamentação. O jeito é esquecer, fingir que não aconteceu. Afinal, foi só uma noite. “O que acontece em Vegas, fica em Vegas” é o lema deles. Assim como o que se passa em Bangcoc deve ficar por lá mesmo. De preferência, enterrado.

Neste sentido, Dirty Dancing – Dança Proibida e Se Beber, Não Case são dois filmes inteiramente diferente que aparentam falar de uma série de coisas. A mais interessante delas é a do homem médio que se reprime diariamente. O sexo é componente primordial. No musical, a dança é o escape. Na comédia, a bebida.

Em tempo: como este texto acabou ficando sério demais, para descontrair em torno de Dirty Dancing coloco o link indicado por Francis Vogner dos Reis na volta para São Paulo após a cobertura da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto. Trata-se uma brincadeira de como seria o trailer do filme se a direção fosse de... David Lynch!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Se Beber, Não Case! Parte II

Ainda acho que a sequência (inteligentemente chamada por Ricardo Calil em texto para a Folha de “remake”) poderia render mais pano para a manga nas críticas do que tem rendido. Basicamente, existem os que adoram como Todd Phillips tornou seu filme ainda mais grosseiro. Do outro lado, os que se incomodam profundamente justamente pela grosseria do filme.

Dar risada ou não em Se Beber, Não Case! Parte II é pura questão de gosto. Imagino que fãs do tipo de humor dos irmãos Farrelly, por exemplo, vão adorar a sequência/refilmagem de Phillips. Por estar na fronteira do gosto, penso que poderia haver outras leituras para a existência desses três homens – Stu, Phil e Alan – que não passam de adolescentes que projetam uma Tailândia como fuga da mediocridade diária.

Que tipo de homem é esse que só aceita viver (eu disse “viver”, não “sobreviver”) quando está a milhares de quilômetros de casa, num país estranho e profundamente bêbado? Como o humor que surge das constrangedoras situações que eles atravessam (aliás, nem considero que haja mesmo humor nelas) leva espectadores ao delírio?

Seria por que quem vai assistir a Se Beber, Não Case! Parte II se identifica tacitamente com o “bando de lobos” que embarca na esbórnia na Tailândia? Então somos todos reprimidos a fingir uma felicidade diária e permitir o gozo apenas num momento de exceção?

Da dezena de críticas que li até agora – adoraria compreender mais línguas para perceber a reação da crítica croata, dinamarquesa, alemã –, os textos batem na mesma tecla: perdeu-se a originalidade do primeiro, aumentaram as grosserias das piadas e repetiu-se todas as situações do enredo, sintoma de que a sequência justifica-se apenas pelo dinheiro a ser faturado. Cria-se uma falsa dicotomia entre politicamente correto e incorreto ou textos de críticos órfãos da catarse causada pelo primeiro.

Ainda acho que é o caminho mais fácil de leitura, talvez porque a crítica tenha gasto muita energia com Se Beber, Não Case! e agora, como o filme é um repeteco do primeiro, mudando apenas a cor local, resolveu engatar marcha lenta.

Entre discutir se Se Beber, Não Case! Parte II provoca risos ou não, ainda acho mais produtivo tentar entender como a humanidade se reflete, ou não, em Stu, Phil e Alan. Por isso, a crítica de Manohla Dargis é precisa ao dizer: “Nos dois filmes, adultos abandonam a existência diária, deixando para trás namoradas, esposas, pais e trabalho de forma a curtir, sentir, viver, e é por isso que esse tipo de comédia são melhores se encaradas como tragédias”.