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sexta-feira, 27 de julho de 2012

O que Honoré quis com Bem Amadas?

Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve: filha e mãe em Bem Amadas

Vi Bem Amadas ontem. Até agora não entendi o que Christophe Honoré quis com esse filme. Até a primeira metade, estava achando tudo uma imensa bobagem. Na outra metade, achei as escolhas de direção de Honoré um acúmulo de equívocos.

Primeiro: filmar em scope. Não me lembro de nenhum plano em que o scope se justificasse. OK, existem alguns close ups, mas outro formato daria conta. O fato é que não vejo a horizontalidade do scope sendo aproveitada com decência, muito menos a profundidade de campo.

Segundo: músicas. Por que os personagens se comportam como num musical? Qual é o por quê? Em Jacques Demy, há toda uma composição de mise-en-scène e os números musicais “felizes” se contrapõem com a tristeza latente dos personagens. Em Ozon, especialmente em Potiche, é um comentário sobre o próprio ar pastiche do filme, mais um elemento de “falsidade” num filme “falso”. E em Bem Amadas qual é o propósito? Atenuar o conflito? Mas atenuar o que se o filme sequer permite um conflito, de fato?

Alguém me conta o porquê?

Terceiro: a subtrama dos sapatos. Honoré gasta um tempo precioso do Ato I mostrando como os sapatos novos de Madeleine são elementos constituidores da personagem. Mas depois de reforçar isso, os abandona inteiramente no desenvolvimento do filme e só retoma na rabeira da resolução?

Quarto: o blasé. Por que busca-se um tom blasé nas personagens? Supostamente, há uma certa profundidade nas relações humanas que o filme traça, mas os atores se portam como se tudo aquilo fosse uma bobagem despretensiosa. Se é uma bobagem, por que pôr o rosto de Catherine Deneuve ou Chiara Mastroianni em primeiríssimo plano denotando uma tristeza? Se é despretensioso, por que tenta ser sério em certos momentos (como nos diálogos “profundos” de Catherine Deneuve com Louis Garrel)?

Quinto: Louis Garrel. Por que apenas nos filmes em que Louis é dirigido pelo pai, Philippe, dá para acreditar em seus personagens? Por que Honoré ou Xavier Dolan (Amores Imaginários) só dão a ele personagens que se escondem atrás de uma máscara “não estou nem aí para a vida”?

Sexto: por que parte da trama se passa na antiga Tchecoslováquia? Por que não no Turcomenistão? Ou na Ucrânia? Por um desejo de trabalhar com Milos Forman? Estou implicando com isso como birra, mas é só um questionamento a mais das escolhas do filme que não se justificam – porque ocupação comunista ocorreu em vários outros países, não?

Bem Amadas é mais um filme de Honoré que eu saio da sessão apenas com uma pergunta: por quê?

Textos relacionados:
Lola, de Jacques Demy

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

No Brasil, Catherine Deneuve nega imagem de ícone

Carheine Deneuve em cena de Potiche - Esposa Troféu


Um ícone pedindo para ser comum. Catherine Deneuve, nome fundamental para qualquer espectador próximo ao cinema francês produzido desde os anos 1960, tornou-se uma musa já nos primeiros trabalhos com Buñuel, Jacques Demy e Roman Polanski. Agora, aos 67 anos, 54 deles como atriz e se dedicando cada vez mais a cineastas jovens, Deneuve quer negar a marca de ícone inalcançável.

“Ícone é uma palavra perigosa, representa uma idealização e é pesado carregar”, afirmou a atriz nesta quarta-feira (8/6) à imprensa em São Paulo. Deneuve está no Brasil para divulgar Potiche – Esposa Troféu, filme de François Ozon que integra a programação do Festival Varilux – que acontece em 20 cidades – e com data de estreia para 17 de junho.

Em seus trabalhos mais recentes, como 8 Mulheres, Diário Perdido e Um Conto de Natal, a atriz francesa tem interpretado mulheres comuns, do cotidiano, longe do glamour construído em torno de Deneuve, especialmente nos anos 1960 e 70, quando foi dirigida por Buñuel (A Bela da Tarde), Jacques Demy (Pele de Asno), Jean Aurel (Manon 70), Polanski (Repulsa ao Sexo), entre outros.

Continue lendo a entrevista com Catherine Deneuve no Cineclick.

domingo, 5 de junho de 2011

Jacques Demy na Cinemateca

Começou no sábado (4/6) - porque do aniversário do homenageado - uma mostra maravilhosa de Jacques Demy, diretor francês que atuou entre os anos 1960 e 80 e 70, conhecido pela liberdade que se apropriava da música e construia o ritmo fílmico a partir dos diálogos.

Até 26 de junho, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, serão onze longas, uma porção deles inéditos em circuito [veja a programação completa aqui] e projetados em 35mm. Na correria, deixo para tecer um comentário mais elaborado depois, optando agora apenas pelo registro da retrospectiva e uma sugestão: assistam a Lola - A Flor Proibida, de 1960, e o contraponham a Pele de Asno, de 1970. Sai-se de uma organização dos personagens em torno da música e chega-se num uso radical da canção, mantendo um diálogo distante com o musical hollywoodiano.

Durante a semana sai do Urso de Lata um texto mais elaborado sobre Demy, um Ovni no guarda-chuva redutor da Nouvelle Vague.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lola, de Jacques Demy

Devo ao montador e documentarista Emmanuel Laurent, que lançou agorinha no Brasil “Godard, Truffaut e Nouvelle Vague”, a descoberta do cinema de Jacques Demy, de “Lola” e “Duas Garotas Românticas”.

Na entrevista que fiz há mais de um mês, não resisti em perguntar quem era seu preferido, Godard ou Truffaut? Nenhum dos dois, era justamente o Demy. “Pelo uso extraordinário da música em seus filmes”. Peguei “Lola, A Flor Proibida”, lançada numa cópia captrichada, pra ver.

Pois é, o uso da música é realmente extraordinário. Não exatamente pela seleção de canções, mas como elas não só dão o clima da cena, mas expõem as sensações e humores dos personagens. É mais um mecanismo narrativo, que substitui diálogos e complementa a câmera.

No começo do filme, não sabemos sobre o que é a história e quem é a tal Lola. Pois bem, numa magnífica sequência, somos levados por um marinheiro ao cabaré El Eldorado. Lá ele (quer dizer, nós) encontra Lola. Numa música, que a atriz Anouk Aimée rebola e mexe com sensualidade, descobrimos inteiramente a essência daquela mulher.

Pronto! Sem muito esforço, bla bla bla ou enrolação. Mensagem dada que justifica os acontecimentos da moça ao longo do filme.

Só que não para por aí. Na verdade, a sensação é a de que a mise en scène se constroi toda baseada nas músicas – nem sempre cantadas. As entradas e saídas dos personagens, sua relação com o espaço e com outros personagens seguem o som que está ao fundo. Isso dá um ar de leveza (ou tristeza) pra temas sérios (ou frívolos).

“Lola” é um filme triste, pois a felicidade não se oferece a todos. A alegria de uns causa a tristeza de outros tantos. Mas no fim do filme, não parece que assistimos a algo triste... Fala-se de abandono e amor sem adotar um tom catastrófico.

Uma última observação: No filme, Lola é vivida por Anouk Aimée. Ela é extremamente sensual, independente, altiva, altiva, amorosa, uma mulher com vida e real. Completamente o oposto de quando faz os filmes de amor de Claude Lelouch, como “Um Homem e uma Mulher”. Impressionante como um diretor pode despertar muitas coisas numa atriz.

Em tempo: Na aula do Inácio, vimos “Ganga Bruta”, com seus problemas e qualidades. Mas, como a cena no filme de Humberto Mauro se organizava a partir da música me fez pensar muito em “Lola”. Preciso desenvolver isso melhor.