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domingo, 28 de outubro de 2012

MostraSP: Laurence Anyways, de Xavier Dolan

Laurence Anyways, de Xavier Dolan, na programação da Mostra de Cinema de São Paulo


Laurence Anyways é filmado como se a câmera fosse embalsamada, antes de cada diária, numa poção de histeria e afetação. Antes mesmo de falar sobre a estabanação no exagero ou da confusão entre poesia e comercial de perfume chique, é preciso começar pelo óbvio: Xavier Dolan filma muito mal, constatação que a duração de Laurence Anyways só torna ainda mais evidente.

Seu jeito de filmar se divide entre Quando Quero Ser Intenso e Quando Quero Ser Poético, ambos desastrosos. No primeiro, a fórmula é colocar dois atores fazendo duelo de diálogos e passar grosseiramente da cara de um para a de outro – com alguns sobre-enquadramentos para refrescar. No segundo, prefere planos abertos ou médios, câmera lenta, figurino bonito, música cool, joias etc – ou seja, Lady Gaga aplicada à gramática cinematográfica

Juntos, enfiados goela abaixo, esse entendimento sobre intensidade e poesia formam um cinema sem nuances. Se em Eu Matei Minha Mãe e Amores Imaginários dava para tapear a caminhada em mão única, em Laurence Anyways o caso é mais sério: a protagonista é um homem que inicia um processo de transexualidade, que se mostra ainda mais rico porque sua orientação sexual é hetero.

Continue lendo a crítica de Laurence Anyways na Revista Interlúdio.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O que Honoré quis com Bem Amadas?

Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve: filha e mãe em Bem Amadas

Vi Bem Amadas ontem. Até agora não entendi o que Christophe Honoré quis com esse filme. Até a primeira metade, estava achando tudo uma imensa bobagem. Na outra metade, achei as escolhas de direção de Honoré um acúmulo de equívocos.

Primeiro: filmar em scope. Não me lembro de nenhum plano em que o scope se justificasse. OK, existem alguns close ups, mas outro formato daria conta. O fato é que não vejo a horizontalidade do scope sendo aproveitada com decência, muito menos a profundidade de campo.

Segundo: músicas. Por que os personagens se comportam como num musical? Qual é o por quê? Em Jacques Demy, há toda uma composição de mise-en-scène e os números musicais “felizes” se contrapõem com a tristeza latente dos personagens. Em Ozon, especialmente em Potiche, é um comentário sobre o próprio ar pastiche do filme, mais um elemento de “falsidade” num filme “falso”. E em Bem Amadas qual é o propósito? Atenuar o conflito? Mas atenuar o que se o filme sequer permite um conflito, de fato?

Alguém me conta o porquê?

Terceiro: a subtrama dos sapatos. Honoré gasta um tempo precioso do Ato I mostrando como os sapatos novos de Madeleine são elementos constituidores da personagem. Mas depois de reforçar isso, os abandona inteiramente no desenvolvimento do filme e só retoma na rabeira da resolução?

Quarto: o blasé. Por que busca-se um tom blasé nas personagens? Supostamente, há uma certa profundidade nas relações humanas que o filme traça, mas os atores se portam como se tudo aquilo fosse uma bobagem despretensiosa. Se é uma bobagem, por que pôr o rosto de Catherine Deneuve ou Chiara Mastroianni em primeiríssimo plano denotando uma tristeza? Se é despretensioso, por que tenta ser sério em certos momentos (como nos diálogos “profundos” de Catherine Deneuve com Louis Garrel)?

Quinto: Louis Garrel. Por que apenas nos filmes em que Louis é dirigido pelo pai, Philippe, dá para acreditar em seus personagens? Por que Honoré ou Xavier Dolan (Amores Imaginários) só dão a ele personagens que se escondem atrás de uma máscara “não estou nem aí para a vida”?

Sexto: por que parte da trama se passa na antiga Tchecoslováquia? Por que não no Turcomenistão? Ou na Ucrânia? Por um desejo de trabalhar com Milos Forman? Estou implicando com isso como birra, mas é só um questionamento a mais das escolhas do filme que não se justificam – porque ocupação comunista ocorreu em vários outros países, não?

Bem Amadas é mais um filme de Honoré que eu saio da sessão apenas com uma pergunta: por quê?

Textos relacionados:
Lola, de Jacques Demy

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Para entender Xavier Dolan e “Os Amores Imaginários”


Depois de ter escrito sobre “Os Amores Imaginários” no Cineclick fiz uma rápida pesquisa na internet atrás de foto e me deparei com um texto da Carol Almeida, que escreve para o “Terra”, quando o filme de Xavier Dolan foi exibido no Rio.

Diz ela: “Pense num filme moderninho, casaquinhos da moda, vestidinhos retrô. Pensou? Agora duplique. Ou triplique. O fato é que o canadense 'Amores Imaginários', de Xavier Dolan, selecionado este ano da mostra Un Certain Regard, em Cannes, é certamente, entre todos os filmes do Festival do Rio, o título mais redondo para a turma que curte um combo cinema à noite + festa com trilha sonora indie na casa de algum conhecido (ou desconhecido) publicitário.”

Pimba, que capacidade de síntese. Ao ler isso entendi perfeitamente porque considero o filme de Dolan odioso, refrigerante de segunda linha que disfarça sua pobreza ao ser enlatado com uma pintura de Monet, filme pra ser consumido como se fosse combo de rede fast-food.

Pra começar, um esclarescimento: não acho o filme anterior de Dolan, “Eu Matei Minha Mãe”, uma lástima. Personagens histéricos, sim, mas de dores sinceras. No caso de “Os Amores Imaginários”, temos o suprassumo do cinema-consumo que se come e se bebe só na sala de cinema e, acabada a sessão, comenta-se com os amigos que é “legal”, “bonito”, “eu gostei”, “divertido”. Enfim, o cinema-nada.

Existem muitos filmes despretensiosos ou que almejam apenas divertir. Exemplo: “(500) Dias Com Ela”, mas com duas fortes diferenças: 1, tem-se personagens sinceros e espelhos de gente normal; 2, o diretor Marc Webb é tão sincero quanto seu filme, deixa claro que quer apenas divertir o espectador e não finge ser elaborado.

É odioso assistir a um filme como “Os Amores Imaginários”, cujos personagens saíram diretamente de páginas publicitárias, cuja narrativa depende de um irritante apêndice documental de tipos egoístas, cuja estética se apropria da vivacidade das cores pra vender ideias de plástico.

O filme de Dolan é tão falso quanto uma nota de três reais.