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domingo, 6 de janeiro de 2013

O Som ao Redor – Parte I: Agradável, legal e gângster

O dilema da classe média em O Som ao Redor

Uma quantidade significativa de títulos de matérias e críticas publicadas ao longo da última semana sobre O Som ao Redor ressaltam que o filme é uma crônica de um estado de coisas construído na última década, que vai desde o aparecimento de uma nova classe média ao alastramento da cultura do medo.

O filme é isso mesmo, apesar de não recorrer à verborragia: a radiografia do Brasil pós-Peões – aliás, é um delicioso déja vu assistir ao filme do Coutinho dez anos depois de sua feitura.

Ressaltar o que O Som ao Redor tem de raio-X é uma maneira de atribuir-lhe importância, nobreza. Resumir o filme a esse caráter, porém, é deixar escapar muitas de suas outras dimensões. Vou falar apenas sobre uma neste post: o fato de o longa de Kleber Mendonça Filho ser imensamente divertido de se assistir.

“Divertido”, quando se trata de um filme sério, com aspirações maiores, parece até um demérito. Tal clichê não se encaixa aqui. É agradável e divertido de se assistir por deixar algumas portas abertas com elementos pop, daqueles que grudam como refrão de música de Michael Jackson.

Ou vão dizer que aquele antológico diálogo da cena de condomínio – “O problema é que eu tenho recebido a minha Veja fora do plástico” – já não nasceu clássico? Uma frase como essas poderiam facilmente estar num tumblr como o Classe Média Sofre, uma reunião virtual de pérolas da escrotidão virtual e de “dilemas” desse sofredor estrato social – coisas como “OMG, duas horas no aeroporto esperando para embarcar para Paris. Boooring!”.

Poderia enumerar um bocado de momentos de humor pop como esse – a personagem de Maeve Jenkings fumando maconha e expirando a fumaça dentro do aspirador de pó. Mas não vou estragar a surpresa de um filme que acabou de estrear.

Ao lado do quesito de ser um filme de cinema, questão que claramente é importante a Mendonça Filho, existe o fato de ser uma experiência divertida assistir a O Som ao Redor. Nesse aspecto, tal filme se junta a outro: A Cidade é uma Só?, de Adirley Queirós [o blog já falou sobre ele nesse post aqui].

Queirós fez um filme sobre um episódio de profunda violência: a expulsão de uma fatia pobre de Brasília e a invenção da cidade de Ceilândia, desdobramento da Campanha para a Erradicação de Invasões. Tal como o trabalho de Mendonça Filho, um filme nobre, mas também divertido e, muitas vezes, pop.

Tal como o diálogo da revista fora do plástico, o jingle de Dildu – “Vamo votá, votá legal: 77223 pra Distrital, DILDÚ!” – já nasce clássico. Gruda como chiclete e ilustra com perfeição o esforço do personagem em encontrar uma linguagem política que se comunique com quem é da periferia.

O Som ao Redor e A Cidade é uma Só? são dois vívidos exemplos de cinema político. Mas não podemos perder de vista que são filmes bastante divertidos. Reconhecer isso não é colocá-los um degrau abaixo, mas sim um acima.

Em tempo: a frase que ilustra o título deste post é um trecho da sinopse do filme de Adirley Queirós.

Textos relacionados:
A unanimidade da crítica com O Som ao Redor
Crítica de O Som ao Redor
A política: A Fuga da Mulher Gorila e Esse Amor que nos Consome

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Som ao Redor - estreia e crítica

Uma das cenas sublimes de O Som ao Redor



Estreia hoje O Som ao Redor, após um ano de viagens por festivais, elogios e, quem diria, presença na lista de melhores do ano de A.O Scott (um dos únicos, ao lado de Kenneth Turan, críticos americanos de cinema a escrever regularmente para o impresso que vale ler).

Quando assisti a Recife Frio pela primeira vez há uns três anos defendi que esse curta seria o que Ilha das Flores representou no começo da década retrasada. Alguns amigos viram exagero nisso, mas mantenho a convicção [leia aqui o porquê].

Sobre O Som ao Redor, simplesmente acho que estamos diante de um momento ímpar, paradigmático talvez. Vejo nessa estreia de Kleber Mendonça Filho como diretor de longa-metragem de ficção um avanço gigantesco sobre as possibilidades de um cinema político no contexto da produção brasileira.

Explico os meus porquês na crítica publicada hoje na Revista Interlúdio [clique aqui e leia]. Um trecho do texto: “Pois aí está a maestria de O Som ao Redor como crônica de um estado de coisas: abandonar a tradição didática catequizante que historicamente ronda a produção brasileira e devotar-se ao cinema de gênero como manancial de possibilidades para falar sobre o presente, quebrar expectativas. Ao dar essa escapulida, O Som ao Redor torna-se profundamente político.”

Dito isso e reiterado como vejo o filme num amplo contexto, caminho agora para o outro lado. Quando o assisti pela primeira vez no Festival do Rio, o longa já vinha bastante comentado e praticamente blindado. O prêmio da crítica em Roterdã jogou o filme para cima, assim como a presença em diversos outros festivais internacionais.

Desde então, tenho conversado com amigos também da crítica de cinema – especialmente com Cid Nader, do Cinequanon – sobre como seria maravilhoso que, no momento da estreia, em que o filme finalmente tomaria contato com um público um pouco maior, houvesse o embate, um questionamento qualificado e franco do filme. Seria bom para o debate intelectual e também para os próximos filmes de Kleber.

Não serei eu a reduzir o tamanho do filme, pois, como já reiterei, penso que ele merece ocupar um lugar nobre. Mas gostaria de ver colegas da crítica que desgostam do filme ou que não veem nele nada demais saindo da toca e participando do debate. Há um esboço desse gesto: Miguel Barbieri, da Veja São Paulo, com o qual discordo na preferência de filmes mais do que corinthiano e são-paulino discutindo a legitimidade do Mundial da Fifa de 2000, é o único que, até agora, vi indo contra a corrente [leia aqui]. Pena que o tamanho de sua resenha (1.398 toques) não seja suficiente para um aprofundamento mínimo.

O barco na direção oposta fez muita falta na estreia de Holy Motors, de Leos Carax, em que o debate ficou esvaziado. Os que amaram o filme deram a cara a tapa, fizeram textos a defender seus pontos. Os que o acharam um embuste ficaram ou quietos ou recorreram a frases clichês em textos en passant. Não vi ninguém indo na jugular do filme.

Espero que o barco da discussão não se acanhe agora na estreia de O Som ao Redor.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cinema brasileiro 2: os curtas é que salvam

No texto abaixo sobre os postulantes a uma indicação brasileira ao Oscar, argumentei o baixo nível criativo dos longas-metragens de ficção lançados neste ano. Assim como o documentário tem proporcionado ótimas surpresas (Pacific e Diário de Uma Busca), existe um outro formato cuja média da produção é muito boa: os curtas-metragens.

Na terça-feira, o Canal Brasil anunciou o grande vencedor do prêmio de R$ 50 mil, escolhido pelos apresentadores. Deu uma obra-prima chamada Recife Frio, premiação merecida pelo diretor Kleber Mendonça Filho. O que encanta, porém, não é só o escolhido, mas os outros postulantes.

Cada um dos nove candidatos venceu, em um festival diferente, o Prêmio Aquisição do canal, cujo júri é sempre formado por jornalistas e críticos. Da lista, pelo menos quatro são grandes filmes: A Amiga Americana, de Ivo Lopes Araújo e Ricardo Pretti; Bailão, de Marcelo Caetano; Faço de Mim o que Quero, de Petrônio Lorena e Sergio Oliveira; Haruo Ohara, de Rodrigo Grota; além do próprio Recife Frio.

Outro curta-metragem é bom e tem charme, O Filme Mais Violento do Mundo, de Gilberto Scarpa. Infelizmente, não vi os outros três candidatos: Imagine uma Menina com Cabelos de Brasil..., de Alexandre Bersot; Magnífica Desolação, de Fernando Coimbra; e Mãos de Outubro, de Vitor Souza Lima.

De uma lista de nove filmes, cinco integram o time dos grandes, aquele que permite criar uma série de leituras, discussões. São aqueles que nos despertam paixões – já declarei meu amor aos cinco curtas em momentos diferentes. Mais da metade.

Acompanhando a produção brasileira deste ano, solidifica-se uma sensação de que existem muito mais curtas que permanecem após a sessão do que longas. Pretendo desenvolver essa comparação no fim do ano em textos de balanço, mas, por ora, compartilho essa sensação.

Com um porém: existe, sim, uma produção viva em longa-metragem, só que ela ainda passa à margem. São os filmes feitos por coletivos regionais, geralmente com poucos recursos etc. Muitos deles estrearam por meio da Sessão Vitrine. É esse escopo da produção brasileira que mais me interessa e, acredito, deveria ser mais observada não só pelo público, mas também pela crítica.

Se esse cinema florescer ainda mais e ampliar suas janelas de diálogo, aí sim a média da qualidade da produção em longa brasileiros vai dar orgulho.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Recife Frio, uma obra-prima

Desde que passou no Festival de Brasília em 2009, o curta-metragem Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho, faturou quase duas dezenas de prêmios importantes. Exemplo raro no circuito de exibição, um curta vai estrear nos cinemas, acompanhando, a partir desta sexta (24/6), o longa Um Lugar ao Sol dentro da Sessão Vitrine [entenda mais neste link].

Mais do que um filme imperdível, Recife Frio é um marco. Faço minha as palavras do crítico Zé Geraldo Couto: Talvez não seja exagero dizer que Recife frio está para o cinema brasileiro atual como Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, está para o cinema brasileiro do final do século passado. Ambos são falsos documentários que transcendem os limites do curta, abrem caminhos, iluminam toda uma cinematografia.

Pena que o público de São Paulo não poderá acompanhar o filme nos cinemas. A assessoria da Sessão Vitrine acaba de encaminhar uma mensagem dizendo que "o fato é que tivemos um problema com a programação do cinema". Uma pena, sim, mas não de todo irremediável ao espectador. Recife Frio está disponível no YouTube [assista a íntegra aqui]. Quem adorar o filme, basta comprar o DVD que tem alguns extras interessantes.

O que um espectador antenado não pode deixar de fazer é assistir a essa obra-prima de Kleber Mendonça Filho. Para encerrar este post-convencimento, reproduzo a crítica do filme publicada no Cineclick:


Ficção científica? Comédia? Cinema político? Documentário? Recife Frio, o maravilhoso filme de Kleber Mendonça Filho que acumula 40 prêmios em festivais desde 2009 e estreia dentro da Sessão Vitrine ao lado de Morro do Céu, é tudo isso. Não, é mais que isso.

Já nos créditos inicias, sobe uma cadavérica música que lembra um tema de algum filme de horror dos anos 50 – no final da projeção, descobriremos que se trata de The Web, de Abe Baker e Tony Restaino, tema de O Cérebro que Não Queria Morrer, de 1962. No canto da tela aparece o letreiro “daqui alguns anos...”. E começa o filme em cima de uma estranha premissa: Recife, uma das cidades mais quentes do Brasil, está fria. Caiu um estranho meteorito na urbe que afetou vertiginosamente a temperatura. Em vez dos tradicionais 30º, chegou-se a 10º. O que acontece? De que ordem é esse frio?

Todo o filme é construído por meio de imagens de um programa documental de televisão, Mundo en Movimiento, cujo apresentador tem um sotaque argentino. Os turistas foram embora, os símbolos populares viraram do avesso. Bonecos artesanais que antes mostravam pessoas de biquíni e sunga agora são confeccionados com luvas e calças. Até o administrador de uma pousada que vendia o sol como principal atrativo perdeu todos os clientes. O que acontece com Recife?

Como se relacionar com uma cidade?

Mostrar “o outro lado de Recife” é uma preocupação constante do riquíssimo cinema produzido em Pernambuco. Mais claramente, essa proposta chegou a um público maior em 2003 por meio de Amarelo Manga, um anti-cartão-postal. Nos últimos três anos, o cinema que se produz lá tem refletido sobre o aumento da desigualdade por meio da arquitetura. Alguns exemplos são Um Lugar ao Sol, Eiffel, Praça Walt Disney (este num apuradíssimo registro irônico).

Mas por que Recife Frio é uma obra-prima? Entre uma dezena de razões, porque subverte as convenções dos gêneros cinematográficos para utilizá-los em outro contexto, dando às imagens uma potência incomensurável. Este efeito poderoso fica claro em duas sequências – uma de força social, outra de agressividade poética.

Na primeira, uma família que mora em uma cobertura faz uma inversão na ordem das coisas. A empregada, costumeiramente confinada ao cubículo sem janelas e superaquecido, vai morar na friorenta e ventilada suíte. O filho do patrão, por sua vez, domina o quarto da empregada. Trata-se de um engraçado e violento comentário político sobre a reprodução da arquitetura da senzala em pleno Século 21.

Já a segunda é para entrar nos anais de como fazer cinema. Após constatar que as ruas da cidade estão vazias, o narrador argentino de Mundo en Movimiento questiona: “Onde estão as pessoas?”. E responde: “No shopping”. Em câmera lenta, pessoas numa imensa bolha dentro de uma piscina em um dos pisos do local. A música é o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven - a mesma usada na última sequência de Discurso do Rei. Um dos grandes momentos do cinema brasileiro recente.

Em suma, Recife Frio é comédia, ficção científica, documentário e cinema político. Uma mistura de gêneros que o coloca como um dos filmes mais especiais que circulou por festivais e, felizmente, chega ao circuito comercial dentro da Sessão Vitrine.

Resumindo: um filme porreta!