sábado, 23 de outubro de 2010

"Um Homem Chato" X "Vocês, os Vivos"

Conversando com meu amigo João Nunes, crítico do “Correio Popular”, reclamava como me repetia em alguns textos. Escrevendo hoje sobre o norueguês “Um Homem Chato”, que está na Mostra integrando a retrospectiva do cinema do país que põe traços no “o”, me peguei sendo repetitivo novamente.

Na minha leitura, “Um Homem Chato” usa os mesmos mecanismos cômicos do sueco “Vocês, Os Vivos”. Logo após a sessão, uma senhora disse à sua amiga: “É... um humor bem nórdico, né?”. Pois bem, ela tem razão.

Hoje percebi como esse tal “humor nórdico” me encanta! Tanto que todas as vezes que assisto a algum filme que tenha essa pegada (e geralmente eles falam do estado das coisas ou da condição humana), penso sempre em “Vocês, os Vivos” como medida de comparação.

No Festival de Curtas, em agosto, foi a mesma coisa. Numa sessão tinha a sequência “Eu Sou Helmut”, “Incidente no Banco” e “Esquerda Direita”. Advinha qual longa os três curtas me lembraram? Nem preciso falar!!!

Nenhum dos filmes com o tal “humor nórdico” (seja lá o que isso signifique) conseguiu superar a relação emocionante que tenho com “Vocês, os Vivos” – talvez porque o filme de Roy Anderson não é só engraçado, mas muito inventivo cinematograficamente, ousado na forma.

Mas, vira e mexe volto a “Vocês, os Vivos”. Que filmão!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A reconciliação com “Vincere”

Assisti a “Vincere” pela primeira em outubro de 2008, numa sessão no Estação Gávea do Festival do Rio. Não me lembro se estava cansado – acho que não –, mas não achei nada demais no filme. A não ser pelas inserções do material documental, não havia enxergado algo que justificasse uma histeria pelo filme.

Bom, isso rendeu algumas conversas com meu amigo Sergio Alpendre, que urgia para eu rever o filme do Bellochio, numa telona de cinema, em condições adequadas. “O filme merece”, dizia Sergio. Passou o tempo e fui rever o filme, na sala 4 do Reserva Cultural (aliás, o cinema do Jean Thomas Bernardini só passa filme em digital?!).

É sempre muito gostoso rever filmes, os que não gostamos ou os que idolatramos. Rever duas vezes “Tudo Sobre Minha Mãe” foi encontrar vários artifícios de Almodóvar, mas assistir novamente a “Volver” foi perceber que ali existe um filmão. No caso de “Vincere”, é isso: encontrar um filmão ali, na minha frente, que tinha passado despercebido da primeira vez.

Acho que há um fortíssimo diálogo entre o filme de Bellochio e “Katyn”, de Andrzej Wajda. Ambos falam de como personagens em situações ditatoriais optaram por bradar a verdade mesmo que isso custasse suas vidas. Bom, no caso de Wajda, é mais por ideal político, enquanto que em “Vincere” isso é misturado com a visão de uma mulher profundamente apaixonada, que sustenta a verdade inicialmente por um desejo de ter seu amor, Mussolini, de volta aos seus braços, mas posteriormente segue esse caminho porque é o único a ser seguido.

É isso, uma mulher contra todos, assim como em “Katyn” é um soldado contra todos. Mas Wajda é mais sério, seco, sereno. Bellochio é operístico, dramático, barroco. Como Orson Welles, torna o encontro entre Ida Dalser e Benito Mussolini a história de amor mais particular e importante do universo.

O que mais me chama atenção em “Vincere” é que, mesmo percebendo que o filme está a favor desde o começo a Ida Dalser, há muitíssimas portas de entrada. Não sei se necessariamente trata-se de uma polifonia narrativa, mas, acompanhamos com a mesma atenção o ponto de vista dos dois e, para tal, Bellochio usa muitas ferramentas.

A história de Ida, uma mulher apaixonada; a história de um homem que se excitava pelo comando supremo; o clima de ópera que existe na história de amor; a porção psicopata de Mussolini que não hesitou em destruir Ida; a música, um capítulo à parte, tão forte que, se passássemos duas horas na sala só escutando a trilha, saberíamos perfeitamente o que é “Vincere”; as inserções documentais que (quase) inserem um novo personagem (não o Benito, mas o Mussolini que conhecemos da História).

Existem vários filmes dentro de um só ali em “Vincere”. É só escolher qual você prefere e, pimba, boa viagem!

PS: “Vincere” é tão bom que até mesmo a projeção da Rain – quer dizer, agora Auwê – não impede que o filme chegue aos nossos corações.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Eric Roth sobre filme noir: “eles te levam para becos que você não iria”

A seção de vídeos do site do Oscar costuma ter vídeos curtos, mas bons, sobre temas do fazer cinematográfico, como roteiro de filmes de gênero e montagem na era digital. Neste momento, a home page tem treze vídeos de roteiristas diversos falando sobre o filme noir.

O destaque desta sexta-feira é Eric Roth, que escreveu muitos filmes nos últimos vinte anos, entre eles “O Curioso Caso de Benjamin Button”, “O Bom Pastor”, “Munique”, “Ali”, “Forrest Gump” etc.

Por quase dois minutos, Roth dá algumas opiniões sobre o filme noir:

“Eles te levam para um mundo de sonhos, sonhos obscuros, de certa maneira. Os melhores conduzem para os obscuros, eu acho”.

“O filme noir apela para um tipo de mundo visual que não existe, becos, vielas, lugares nos quais você teria medo de ir”.

“São concisos, visuais, de certa forma. Não há muita reflexão no texto, em outras palavras, os personagens não falam de si mesmos. São mais pró-ativos do que reativos”.

“Pelo menos nos filmes mais antigos, o ‘storytelling’ é mais melodramático, só que ficou mais sofisticada com o tempo”.

Esse monte de entrevistas sobre o filme noir não é à toa. A Academia começa, em 13 de setembro, a série “Oscar® Noir: 1940s Writing Nominees from Hollywood’s Dark Side”. Advinha quem começa? “O Falcão Maltês”, noir de 1941 com Humphrey Bogart.

Imagina assistir no Samuel Goldwin Theatre um dos melhores filmes noir (por que não o melhor?) a US$ 5? Confesso que não é o meu gênero favorito no cinema, mas existem duas razões para não fugir jamais do filme de John Huston:

1: assim como a maioria dos noir, explica muito do momento dos Estados Unidos durante ou imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, além de ser ajudar a entender onde estava Hollywood naquele momento.

2: a personagem de Brigid O'Shaughnessyé. Vivida por Mary Astor (atriz muito requisitada na era do cinema mudo), a personagem é impossível de confiar. Não sabemos de que lado ela está, que jogo está fazendo, se é inocente, culpada ou os dois! Brigid é tão desestabilizadora quanto Candy (Jean Peters) de “Anjo do Mal”, filme de Samuel Fueller.

domingo, 25 de julho de 2010

Para onde irão os diretores de “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”

O Festival de Paulínia deste ano teve dois filmes/eventos marcantes: “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”, longa coletivo que retoma a experiência do Cinema Novo de 1961, e “Bróder”, a estreia do ótimo curta-metragista Jeferson De na direção de um longa-metragem.

Pelo júri, deu o carioca. Pela crítica, deu o paulista. Que bom que a escolha foi dividida e ambos os filmes ganharam os merecidos destaques. Aliás, corajosa a decisão do júri de premiar “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”, filme que, pelo seu próprio formato (cinco curtas metragens agrupados), é irregular – e, no conjunto, inferior a “Bróder”. Mas, mesmo assim, tem ótimos momentos e soluções muito criativas.

Agora que “5x Favela” ganhou sete prêmios em Paulínia, o que acontecerá com seus diretores? O filme estreia em circuito em 27 de agosto – com promessa da produtora Renata de Almeida de colocar o longa nos cinemas da zona sul carioca!

O cinema brasileiro, assim como o chileno e o uruguaio, vive de ciclos. Desde 1994 estamos baseados na dinâmica de produção do incentivo fiscal – com a ressalva do momento pós-Ancine. Ou seja, estamos na marca de 70, 80 filmes produzidos por ano há cerca de quatro anos. Mas, a distribuição e exibição para longas nacionais ainda é ridícula e profundamente injusta.

Então, a pergunta é: o que acontecerá com Manaíra Carneiro e Wagner Novais (episódio “Fonte de Renda), Rodrigo Felha e Cacau Amaral (episódio “Arroz com Feijão”), Luciano Vidigal (episódio “Concerto Para Violino”), Cadu Barcelos (episódio “Deixa Voar”) e Luciana Bezerra (episódio “Acende a Luz”)?

Quando o cinema não consegue receber atores revelações, eles vão para a televisão. O que acontecerá com os diretores? O cinema brasileiro precisa encontrar espaço para que eles façam o segundo, o terceiro...o décimo longa-metragem.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Paulínia ainda não acabou...

- De Paulínia

Paulínia ainda não acabou, mas tem coisas que já marcaram. Rapidinho, vamos a elas:

- a exibição e coletiva de "5x Favela - Agora Por Nós Mesmos".

- a exibição de "Eu Não Quero Voltar Sozinho", uma semente no diálogo.

- a frustração, seguida de catárse, com "Lixo Extraordinário".

- a força de "Bróder", exibido num teatro abarrotado.

E a premiação nesta quinta, como será?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os mitos do cinema jovem

De Paulínia

Em Paulínia, até agora tivemos dois filmes que podem ser facilmente considerados jovens, “Desenrola” e “Eu Não Quero Voltar Sozinho”. O primeiro se parece com “High School Musical”, enquanto o segundo é popular e mais cerebral. Ambos foram exibidos ontem, domingo (18/7), aqui em Paulínia.

Quando olhei a programação, achei que o curta-metragem de Daniel Ribeiro (por ser um diretor de filmes mais sofisticados) teria uma recepção morna e o longa-metragem de Rosane Svartman iria criar uma catarse no cinema repleto de jovens. Engano, ledo engano.

Ambos foram fortemente aplaudidos. Claro que “Desenrola” tem mais apelo e elenco televisivo, sequencias musicais intermináveis etc. Mas, para o “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, que é 1-curta-metragem; 2-temática gay; 3-tem mais cara de “filme de arte”, a recepção foi muito calorosa, mesmo.

Essa recepção põe um bem-vindo ponto de interrogação sobre o que é um filme popular jovem. “Desenrola” aposta na estética da televisão. “Eu Não Quero Voltar Sozinho” usa o cinema. E ambos dialogam abertamente com o público.

Só para ter um exemplo: Bia, 14 anos, a super simpática filha da Flávia Arruda, uma das assessoras do Festival de Paulínia (ao lado da Carol e da Margô), disse ter gostado de “Desenrola”. Mas, em comparação com “As Melhores Coisas do Mundo”, prefere o filme da Laís Bodanzky. Porém, o que ela “amou” foi “Eu Não Quero Voltar Sozinho”.

A juventude ainda tem salvação ;)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Beijo da Mulher Aranha

De Paulínia

Pena que não tenho tanto tempo para falar sobre “O Beijo da Mulher Aranha”. Festival é sempre uma correria e sempre fica aquela sensação de que você está perdendo alguma coisa. Mas o filme de Hector Babenco, exibido com uma cópia restaurada ontem à noite, pede um comentário à cada camada. Fala-se de muita coisa naquele filme. Vou pegar apenas uma.

Méritos sejam divididos à direção de Babenco, ao texto original do livro de Manuel Puig e à adaptação do roteiro de Leonard Scharader, “O Beijo da Mulher Aranha” tem a maestria de captar a dificuldade de social de ser gay entre os anos 70 e 80.

William Hurt interpreta Luis Molina, preso por ter feito sexo com um adolescente, que divide cela com Vicente Arregui, preso político. O personagem de Molina transpira dignidade, mas se afasta da representação idealizada.

Em linhas muito rápidas, um dos aspectos brilhantes do filme está na feitura do personagem homossexual. O filme de Babenco é irmão de “Romance”, de Sérgio Bianchi (no sentido de falar da impossibilidade do amor), da canção “Ideologia”, de Cazuza (“o meu prazer/agora é risco de vida), e do curta-megragem “Bailão”, de Marcelo Caetano (que reconta a história da famosa boate paulistana sob uma perspectiva política).

Existe muita coisa para se falar de “O Beijo da Mulher Aranha”, seja pelo olhar onírico ou pelo realista. Mas, só para começar a conversa, o personagem gay merece o registro pela habilidade do filme em entender uma época.