quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dia do Orgulho Hétero: o fascismo nos ameaça

O Urso de Lata é um blog de cinema, mas que não se furta de comentar os absurdos que aparentemente não têm nada a ver com filmes. O absurdo da vez é a aprovação na Câmara de Vereadores da Cidade de São Paulo de um projeto para instituir o Dia do Orgulho Heterossexual, aparente contraponto ao Orgulho Gay.

Vamos colocar uns pingos nos is que parecem ter se perdido no caminho: por que existe o Dia do Orgulho Gay? Por que os homossexuais, assim como outras “minorias”, são historicamente discriminados, não desfrutam de legislação que os coloque no mesmo patamar de cidadania que outros grupos sociais (só para lembrar que a união estável entre duas pessoas do mesmo sexo só foi aprovada há três meses – pelo Judiciário). A criação de um dia para celebrar o Orgulho Gay é apenas uma afirmação política de um grupo cujo grau de exclusão social tem diminuído ao longo dos anos, uma maneira de dizer: estamos aqui e temos de ser respeitados como qualquer outra pessoa.

Qual seria, então, o fundamento do Dia do Orgulho Heterossexual? Qual é a opressão que eles sofrem? Os héteros tiveram seu ingresso no Exército Proibido numa política semelhante ao “Don't ask, Don't Tell”? Não! Por conta de sua condição sexual, foram assassinados ou mandados para campos de concentração durante regimes ditatoriais? Não! Tem um romance proibido de ser abordado em uma novela de horário nobre justamente por sua sexualidade?

Ou seja, não há fundamento algum para a criação de um Dia do Orgulho Heterossexual, pois nunca lhe foram roubados direitos por sua sexualidade ou tratados como distorção. Em todas as frentes políticas, culturais, econômicas e sociais, sempre se reforçou a heterossexualidade como o padrão: héteros nunca precisaram incluir-se, ao passo que os homossexuais sim.

Uma lei como essa só representa o desejo dos conservadores que querem retomar o privilégio de oprimir minorias. É uma ilustração da frustração dos fascistas de não poderem mais apontar o dedo para um gay afetado na rua e gritar “viado” sem ter alguma consequência, moral ou legal. É uma frustração com o fim da barbárie e com a construção gradativa de respeito com todos os grupos sociais.

Autor do projeto, Carlos Apolinário (DEM, o ex-PFL, partido intrínseco à ditadura que agora se autodenomina “Democratas”), justifica-se da seguinte maneira: “a criação do Dia do Hétero não simboliza uma luta contra a figura humana dos gays, e sim contra aquilo que considero que são excessos e privilégios”.

Ele deve estar falando do privilégio de ser respeitado, né? Um privilégio pelo qual os héteros nunca tiveram de lutar em assuntos concernentes à sua sexualidade.

Para piorar, Apolinário solta a pérola “meu cabeleireiro é homossexual”. Olha como o vereador é democrata! Ser cabeleireiro, maquiador sidekick em novelas pode. Agora, esse papo de querer constituir uma família normal como as outras, tornar-se político, executivo de grandes empresas ou simplesmente exigir respeito, não.

Enfim, esse projeto é um sofisma, indicação clara do reino da mediocridade.

Voltemos a falar de cinema no próximo post.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A censura de A Serbian Film - Terror Sem Limites

Na semana passada, já havia comentado a censura à produção A Serbian Film - Terror sem Limites que, após ter sua exibição vetada no Rio teve a única cópia em 35mm disponível no Brasil apreendida pela Justiça [entenda o caso aqui].

É um caso grave de censura calcada em argumentos falaciosos. Não se trata de defender esse ou aquele filme, mas sim o direito de escolha do espectador em assistir ou deixar de assistir o que lhe aprazir. Quando temos um filme que não comete filme algum, é o espectador o senhor da decisão.

Como esse episódio não pode passar em branco, teci um comentário um pouco mais aprofundado sobre a censura ao A Serbian Film - Terror Sem Limites. O texto está no Cineclick [leia aqui a íntegra].

Entre você também na discussão!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Associação Brasileira de Críticos de Cinema repudia veto a filme sérvio de terror

Criada há uma semana, após um ano e meio de discussões e reuniões com profissionais de todo o Brasil, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) tem como primeiro gesto a divulgação de uma nota de repúdio ao veto à exibição de A Serbian Film – Terror Sem Limites, que tinha uma sessão marcada para o próximo sábado (23/7) no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro.

“A Abraccine defende a liberdade de expressão cinematográfica e o direito de os espectadores interessados assistirem aos filmes que lhes convêm, acreditando não caber a instituições públicas ou privadas a definição sobre o que deve ou não ser visto.

A responsabilidade sobre programação e observação à classificação etária de filmes apresentados num festival de cinema é da organização do evento, devendo a ela serem dirigidas eventuais questões controversas, sem, para isso, ser utilizado o ato de censura prévia (inexistente no país) a um determinado trabalho artístico”, diz um trecho do texto da Abraccine.

A Serbian Film – Terror Sem Limites foi exibido no sábado passado aqui no I Festival Internacional Lume de Cinema, em São Luís do Maranhão. Antes disso, passou também nos Estados Unidos (South by Southwest), Canadá (Fantasia), Espanha (Festival de Sitges) e Portugal (Fantasporto).

Saiba mais sobre o veto ao filme neste link e leia abaixo a íntegra da nota da Abraccine:

A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema repudia o veto à projeção do longa-metragem A Serbian Film – Terror sem Limites, do diretor sérvio Srdjan Spasojevic, presente na programação do RioFan – Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro.

O filme seria exibido pelo RioFan na sala Caixa Cultural. Porém, os organizadores do festival foram obrigados a retirá-lo da programação por decisão da diretoria da Caixa Econômica Federal, conforme nota divulgada pela assessoria de imprensa do banco, sob alegação de que a instituição “entende que a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”.

Em resposta, a organização do RioFan se disse “contra qualquer forma de censura” e informou que todos os filmes selecionados para o festival foram avaliados por órgãos oficiais competentes e têm classificação etária de 18 anos.

A Abraccine defende a liberdade de expressão cinematográfica e o direito de os espectadores interessados assistirem aos filmes que lhes convêm, acreditando não caber a instituições públicas ou privadas a definição sobre o que deve ou não ser visto.

A responsabilidade sobre programação e observação à classificação etária de filmes apresentados num festival de cinema é da organização do evento, devendo a ela serem dirigidas eventuais questões controversas, sem, para isso, ser utilizado o ato de censura prévia (inexistente no país) a um determinado trabalho artístico.

Registramos ainda que A Serbian Film já teve pelo menos outras duas exibições anteriores ao RioFan: no I Festival Internacional Lume de Cinema (São Luís, no Maranhão) e no VII Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico (Porto Alegre, no Rio Grande do Sul).

Por esta nota, deixamos ainda claro que a Abraccine não está defendendo um trabalho ou um festival em específico, mas um princípio: o de um filme poder ser assistido e avaliado pelo espectador com liberdade.

ABRACCINE
Associação Brasileira de Críticos de Cinema

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Febre do Rato vence Paulínia; O Palhaço come pelas bordas

-- de Paulínia

Podemos não concordar que Febre do Rato é o Melhor Filme do Festival de Paulínia. É meu preferido, mas concordo que tanto O Palhaço quanto Trabalhar Cansa também mereciam o prêmio de R$ 250 mil.

Mas certamente o filme de Claudio Assis foi o grande acontecimento de Paulínia. No final, levou oito estatuetas Menina de Ouro. Já a produção de Selton Mello venceu quatro, sendo em duas categorias vitais (Direção e Roteiro).

No geral, a premiação surpreendeu. Não imaginava que a produção de Recife levaria quase tudo. Mas os comentários ficam para amanhã, com mais serenidade. Por enquanto, vale o registro com a lista de todos os vencedores, disponível neste link.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Os curtas publicitários de Paulínia

-- de Paulínia

Três dias de competição e uma das mais mal sucedidas seleções de curtas-metragens entre os grandes festivais de cinema nos últimos anos. Após a exibição de seis produções, digo que temos apenas um Filme em letra maiúscula: Tela, de Carlos Nader, interessante ponto de interrogação no próprio formato e em como colocá-lo para o público na sala de cinema, não só em festivais.

Fora esse, restam boas intenções (A Grande Viagem e O Cão) que não escapam de um discurso moralista, ou conteúdo audiovisual regado de toques menos (Trocam-se Bolinhos por Histórias de Vida) ou mais (Café Turco e Polaroid Circus) publicitários. Vendem-se ideias simpáticas, no caso do primeiro filme, ou superficialmente políticas, no caso do segundo.

À exceção do filme de Nader, todos contam histórias com começo, meio e fim, sem percalços, terminando com uma lição de moral. Todos com tique da publicidade, enquadramentos simétricos, montagem esperta, iluminação horrivelmente asséptica (que em Trocam-se Bolinhos é berrante). O mais estranho é certamente Polaroid Circus [foto] em que uma belíssima mulher passeia pelas ruas de Paris tirando fotos e se relacionando com a cidade.

No papel, parece até interessante, mas na telona torna-se um longo comercial de vários produtos: lingerie, cartão postal de uma cidade, fotografia de moda, maquiagem, da modelo e por aí vai. É realmente estranho um filme como esse num festival de cinema como o de Paulínia, que atrai tantas atenções.

Se até a quinta-feira a seleção de curtas-metragens continuar tão inferior à de longas, algo precisará ser repensado em 2012 em relação à curadoria. No ano passado, Paulínia exibiu grandes curtas (Tempestade e Eu Não quero Voltar Sozinho são alguns deles). Não pode ser problema de safra: desde Tiradentes, que inaugura o calendário de festivais, temos assistido a bons filmes.

Não dá para exibir longas do nível de O Palhaço ou Uma Longa Viagem, que possibilitam várias possibilidades de leitura, ao lado de curtas pífios Polaroid Circus, uma sub-versão marqueteira de A Bela Junie.

*Heitor Augusto viajou à Paulínia a convite do festival e também realiza a cobertura para o Cineclick.

sábado, 9 de julho de 2011

Público delira em O Palhaço Selton Mello

-- de Paulínia

Selton Mello apresentou ontem, sexta (8/7), seu segundo longa-metragem como diretor. O Palhaço superou expectativas de público, testou a organização do festival de cinema, já que cerca de duas mil pessoas foram ao Theatro Municipal para assistir ao filme. Por volta de 1.100 entraram e o restante aguardou para uma segunda sessão à meia-noite.

Como diretor, Selton Mello evoluiu e, acredito, superou a expectativa quanto à principal ressalva a Feliz Natal, seu primeiro filme: um punhado de referências cinematográficas não agrupadas organicamente a serviço de uma produção com alma própria. O Palhaço tem lá suas inspirações cinematográficas – eu enxerguei um Kaurismaki mais caliente, um pouco de Kusturica e até um outro tanto de Felini. Mas essas referências são mais do olhar de quem assiste do que um esforço do filme em citar escolas cinematográficas ou realizadores.

O Palhaço encontra sua verve, que é simpática. O humor sem piadas, o riso em cima do insólito. Piadas ou gags se fazem no picadeiro, pois, fora dele, o filme é sério, apresentando o cômico em associações inesperadas ou comentários deslocados de um contexto (daí enxergar Kaurismaki, exemplificado numa maravilhosa cena de Selton, o protagonista, com o ventilador).

O público delirou. Sem exageros. Riram demais da conta, como diriam os mineiros. O filme tem muito carisma e é solar, diferente de Feliz Natal – sem juízo de valor nessa colocação. Quando O Palhaço estrear no final de agosto, voltarei com mais calma ao filme, sem essa tradicional correria de festival e comentários apressados.

En passant, gosto muito da metáfora a que o filme recorre para existir: o desejo de um ventilador para amenizar o calor martirizante da estrada. Outro breve comentário: a trilha de Plínio Profeta, que já havia escrito as músicas de Feliz Natal, é bem interessante. Quando ouço as composições dele em ambos os filmes, penso na mesma pungência e lastro de trabalhar com amplos registros musicais que vejo em Alexandre Desplat. As elipses na parte do final do filme também são um ótimo recurso para falar muito e dizer pouco.

Em suma, O Palhaço tem alma.

*O repórter viajou a convite do Festival de Paulínia.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Serge Gainsbourg, heroica trajetória

Estreia na próxima sexta-feira (8/7) a cinebiografia de Serge Gainsbourg. "Cinebiografia" não é uma classificação condizente com este filme, sejamos sinceros. Trata-se de um filme que, em vez de privilegiar os fatos, prefere a fantasia, a transposição de um universo mítico e imaginário para o cinema.

Prevejo que o público que gostou de filmes como Piaf - Um Hino ao Amor ou Ray não deverá simpatizar com Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres. Os dois primeiros flertam com o registro trágico: a francesa viveu uma torrente de desgraças, enquanto o norte-americano se encaixou, no cinema, como uma história de superação.

Gainsbourg é um devasso, boêmio. Joann Sfar, o diretor que sobrevive como quadrinista e estreou na direção de cinema, fez um filme sobre projeções, especialmente a do medo de um menino judeu na França ocupada pelos nazistas e um fantasioso alter-ego que o atira em direção às mulheres. Procurar por uma referência ao legado de Gainsbourg para a cultura pop no filme de Sfar é um erro.

Já tem até leitor do IMDB reclamando disso. Desculpe-me, mas Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres não é matéria jornalística, mas cinema. E felizmente temos um filme que não tenta enquadrar o artista, mas deixá-lo escapar pelas bordas, transbordar a caretice.

Como au revoir, deixo Serge Gainsbourg cantando Aux Armes et caetera, sua versão em reggae para A Marselhesa, o hino francês.