sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Pele que Habito, um filme de Almodóvar?

A prova cabal de que algo andou muito mal em A Pele que Habito está numa cena envolvendo a grande Marisa Paredes. À beira de um fogaréu ateado para queimar as provas de um crime, a atriz, encarnada da empregada Marília, conta a Vera uma desgraça que ocorrera anos antes naquela casa.

Nesta sequência de delicada execução e emotivo conteúdo, tinha-se uma grande atriz, a diva destrutiva de Tudo Sobre Minha Mãe. A cena começa e a câmera se aproxima vagarosamente fazendo um movimento lateral. A linda labareda ilumina os rostos dessas duas mulheres tão diferentes naquela noite. Quando, enfim, o plano começa a surtir efeito e sua emoção transparece, Almodóvar o interrompe para realizar um flashback completamente desnecessário.

Isso resume o filme: uma série de escolhas desnecessárias que resultam num conjunto equivocado que, apesar de já nos créditos anunciar “Um Filme de Almodóvar”, parece não ser um filme do grande realizador espanhol autor de algumas obras-primas desde os anos 80. Não faltam os códigos que sedimentaram seu estilo como a reviravolta do enredo, tons melodramáticos, personagens obsessivos etc.

Existe um pacto fundamental entre o tipo de adesão pedida por um filme de Almodóvar e o espectador. Dotado de sensibilidade única, ele vai ao mundo e o observa, devolvendo para nós a construção desse olhar. Nessa operação, o ignóbil (a paixão do estuprador Agrado em Fale Com Ela) torna-se lindo; o que merecia ser julgado (o crime e a mãe de Volver) é compreendido; o nobre (o amor de um homem em Carne Trêmula) revela-se podre e escuso; um ato criminoso (o sequestro de Ata-me) é observado numa ótica charmosa.

Por que? Porque o nível de identificação é tremendo, sempre vamos e voltamos, nos aproximamos e tomamos distâncias. Nos colocamos no lugar desses personagens, o que não nos permite adotar uma postura superior e arrogante. Nos enternecemos e solidarizamos. Nos identificamos. Somos eles.

Não dá para acreditar no cirurgião plástico e sua “cobaia” em A Pele que Habito, graças a uma direção excessivamente acadêmica e pomposa, trilha sonora nunca sutil e especialmente pela postura burocrática da direção de Almodóvar e da atuação de Antonio Bandeiras, que aparentam estar mais preocupados em serem profissionais do que artistas.

Infelizmente, Almodóvar quis fazer um filme de tese: a relação do amor e da dor ou de como a tortura leva a um prazer narcísico, passando também por comentários sobre a ética. Em vez do charme de Ata-me, cujo tema tem clara conexão com o novo longa, há as afirmações de A Pele que Habito. Almodóvar, um cineasta que sempre optou por mostrar e nos educou a não julgar, decidiu demonstrar desta vez. Deu errado.

Almodóvar me ensinou a gostar das inversões morais de seus filmes. Acompanhei com encantamento as várias fases de seus cinemas, que divido assim: a anarco-punk (até O Que eu Fiz Para Merecer Isto?, 1984); a cômica-melodramática (até A Flor do Meu Segredo, em 1995); e finalmente o período de amadurecimento como diretor, mais clássico (de Carne Trêmula, 1997, até Volver). Esta é uma tentativa de divisão didática e obviamente filmes não refletem uma postura estanque de um realizador, que só fala disso ou daquilo.

São momentos diferentes de seu cinema, cada um com um charme e sedução diferente, hábeis em cativar não apenas pelo tema, mas pelo estilo. Qual é a sedução de A Pele que Habito? Não há. E isso muito me preocupa.

O que ele ainda quer do cinema ou o que ele pode lhe dar? Qual fase inaugurar-se-á com dois filmes burocráticos como Abraços Partidos (que não é desastroso, apenas médio) e este longa que chegará aos cinemas em 4 de novembro.

A Pele que Habito não é um filme de Almodóvar, mas de Almodóvar querendo fazer um filme de Almodóvar. Um filme-almofadinha.

Antes da estreia voltarei algumas vezes a ele, abordando as questões que estão lá, mas não florescem no conjunto, e a outros momentos mais dignos da carreira de Pedro Almodóvar Caballero. Por ora, é isso: a maior frustração entre as estreias deste ano.

Em tempo: antes de chegar ao circuito comercial, será exibido no Festival do Rio, que terá a ilustre presença de Marisa Paredes, atriz de Almodóvar neste em outros filmes – se não me engano, o primeiro filme da dupla juntos foi Entre Tinielbas, de 1983.

Em tempo2: abaixo o trailer do filme:

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cinema brasileiro 2: os curtas é que salvam

No texto abaixo sobre os postulantes a uma indicação brasileira ao Oscar, argumentei o baixo nível criativo dos longas-metragens de ficção lançados neste ano. Assim como o documentário tem proporcionado ótimas surpresas (Pacific e Diário de Uma Busca), existe um outro formato cuja média da produção é muito boa: os curtas-metragens.

Na terça-feira, o Canal Brasil anunciou o grande vencedor do prêmio de R$ 50 mil, escolhido pelos apresentadores. Deu uma obra-prima chamada Recife Frio, premiação merecida pelo diretor Kleber Mendonça Filho. O que encanta, porém, não é só o escolhido, mas os outros postulantes.

Cada um dos nove candidatos venceu, em um festival diferente, o Prêmio Aquisição do canal, cujo júri é sempre formado por jornalistas e críticos. Da lista, pelo menos quatro são grandes filmes: A Amiga Americana, de Ivo Lopes Araújo e Ricardo Pretti; Bailão, de Marcelo Caetano; Faço de Mim o que Quero, de Petrônio Lorena e Sergio Oliveira; Haruo Ohara, de Rodrigo Grota; além do próprio Recife Frio.

Outro curta-metragem é bom e tem charme, O Filme Mais Violento do Mundo, de Gilberto Scarpa. Infelizmente, não vi os outros três candidatos: Imagine uma Menina com Cabelos de Brasil..., de Alexandre Bersot; Magnífica Desolação, de Fernando Coimbra; e Mãos de Outubro, de Vitor Souza Lima.

De uma lista de nove filmes, cinco integram o time dos grandes, aquele que permite criar uma série de leituras, discussões. São aqueles que nos despertam paixões – já declarei meu amor aos cinco curtas em momentos diferentes. Mais da metade.

Acompanhando a produção brasileira deste ano, solidifica-se uma sensação de que existem muito mais curtas que permanecem após a sessão do que longas. Pretendo desenvolver essa comparação no fim do ano em textos de balanço, mas, por ora, compartilho essa sensação.

Com um porém: existe, sim, uma produção viva em longa-metragem, só que ela ainda passa à margem. São os filmes feitos por coletivos regionais, geralmente com poucos recursos etc. Muitos deles estrearam por meio da Sessão Vitrine. É esse escopo da produção brasileira que mais me interessa e, acredito, deveria ser mais observada não só pelo público, mas também pela crítica.

Se esse cinema florescer ainda mais e ampliar suas janelas de diálogo, aí sim a média da qualidade da produção em longa brasileiros vai dar orgulho.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Brasil (provavelmente) fora do Oscar. De novo

O Ministério da Cultura divulgou ontem, terça-feira (13/9), os pré-selecionados que postulam à indicação do MinC para ser o representante brasileiro por uma vaga de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar. Apenas 15 longas-metragens se inscreveram, diz o site do Ministério.

Acho improvável que queime a língua: mais um ano sem representante tupiniquim na cerimônia da Academia. A não ser que o escolhido seja Tropa de Elite 2 que, para mim, não é o melhor da lista, mas pode ter lá suas chances por ser minimamente conhecido lá fora e por conta do diretor, José Padilha, premiado em Berlim em 2008 com o primeiro filme e que foi para Hollywood dirigir uma nova versão de Robocop.

Mas não vou investir em futurologia de Oscar, pois não tenho talento para Mãe Diná, e nem buscar tendências, já que meu know how da rotina da Academia não chega nem perto do faro de Ana Maria Bahiana, hoje blogueira do UOL. Vou me concentrar no nível da lista, independente de ser para Oscar ou para um troféu de esquina.

O nível está muito baixo. Muito. Risível. Uma pena, já que sou um crítico comprometido a refletir especialmente com o passado, presente e futuro com o cinema daqui. Dos 15 pré-selecionados, sete não se sustentam após o primeiro argumento. Vou nominá-los, em ordem alfabética: A Antropóloga, As Mães de Chico Xavier, Assalto ao Banco Central, Família Vende Tudo, Federal, Mulatas! Um Tufão nos Quadris e Quebrando o Tabu. Estes são os medonhos.

Dos restantes, cinco são medianos: em alguns momentos interessantes, mas não têm fôlego para competir com o que há (supostamente) de melhor nas cinematografias mundiais. São eles: Bruna Surfistinha, Estamos Juntos, Vips, Histórias Reais de um Mentiroso – Vips e Lope.

Sobram três. Malu de Bicicleta é bom, mas carece de grandes aspirações como cinema. É modesto, mas honesto. Digno.

Sobram Tropa de Elite 2 e Trabalhar Cansa, os quais só assisti uma vez e achei grandes filmes. Dois longas de verve diferente, mas porretas – a diferença é que o longa de Juliana Rojas e Marco Dutra não sofre do maniqueísmo do filme de Padilha.

Até semana passada, comecinho de setembro, estrearam 55 longas brasileiros que poderiam ter se inscrito no MinC. Entre setembro e dezembro de 2010, período que também tornariam elegíveis outras onze ficções, destaco apenas Meu Mundo em Perigo e O Sol do Meio Dia.

Desse bolo de 66 ficções, apenas quinze se inscreveram. Por quê? Por que os produtores de Transeunte, Natimorto, Não se Pode Viver Sem Amor, Riscado, interessantes e com algo a dizer, não entraram? Para evitar a fadiga? Qual é o resultado dessa equação que não percebo?

A coisa não está boa

No começo da redação deste artigo, pensei que a tal lista dos 15 não refletisse os filmes lançados neste ano. O problema seria dos produtores de boas ficções (fazendo esse corte já que raramente a Academia escolhe um documentário na categoria de Filme Estrangeiro) que não inscreveram seus longas.

O triste fato é que a lista dos 15 reflete, sim, o que foi feito até o momento entre as ficções. À exceção das quatro ficções já citadas que mereciam estar na lista, e de Estrada Para Ythaca, lançado pela Sessão Vitrine, não existem filmes que me provoquem alguma paixão, gana por discuti-las e ouvir opiniões contrárias.

Não existem ficções para se colocar na mesa, esta é a verdade. Com documentários, o papo é outro.

Quando olho para o escolhido da Hungria, O Cavalo de Turim, de Béla Tarr (não sou louco pelo filme, mas não dá para negar sua força como cinema e a maravilhosa encenação), fico com muita vergonha da lista. Suponho uma embaraçosa situação: para começar o dia, um membro da Academia assiste ao filme de Tarr. Em seguida, a Assalto ao Banco Central.

É ou não de doer?!

Entre esse suposto cinema de qualidade e do bom gosto como Lope e as limitações técnicas e orçamentais de Os Monstros, fico com este: não tem dinheiro, mas esbanja verdade cinematográfica.

É esta segunda linhagem de cinema brasileiro que precisa tomar dimensões maiores, contaminar o espectador, não a outra.

Por isso discordo do senso comum: o cinema brasileiro não vai de vento em popa.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A falsa inclusão dos gordinhos e gays de Glee 3D – O Filme

Na próxima sexta-feira (16/9), estreia nos cinemas brasileiros um produto audiovisual que me recuso a chamar de filme, mesmo o título local sendo Glee 3D – O Filme. Trata-se de uma sacada do produtor e roteirista Ryan Murphy para expandir os dividendos da série.

Um musical com números dos principais atores da série que conheço apenas de nome, intercalado com depoimentos de fãs que ilustram o suposto porquê da importância social da série: ela teria ensinado os adolescentes americanos a se aceitar melhor e a respeitar as diferenças.

Daí surgem a gordinha e negra cheia de orgulho próprio (Amber Riley), o estiloso gay assumido (Chris Colfer) e o nerd (Kevin McHale).

A priori, e tomando apenas como base o “filme” e as canções nele interpretadas – que lidam com autoestima, aceitação, diferença e amor, na maioria –, fico muito feliz em ver que a televisão americana botou dinheiro e acolheu um produto que trabalharia fora dos padrões tradicionais.

Mas esse otimismo não se sustenta após uma análise minimamente aprofundada. Pelo seguinte: os protagonistas continuam sendo o mesmo estereótipo de sempre: jovem, branco e popular.

O que me leva à conclusão: não passa de acomodação, em vez de rompimento, uma esperteza de mercado de ir em direção a um público que, por diferir do padrão vendido pela televisão americana (jovem branco, bonito e popular na escola), não mais se identificaria com a lógica de sempre.

Os gordinhos, negros, homossexuais, nerds e outras “minorias” (não em quantidade, mas na possibilidade de exercer plenamente sua cidadania), são apenas instrumentos para dar uma “cor local”, roubando Jorge Amado, diferente. Quem protagoniza e estabelece o padrão mantém a lógica heteroxista de mundo.

Ou seja, não passa de uma concessão da televisão, e não uma mudança radical de postura. Um redirecionamento do timão mercadológico para “minorias” antes ignoradas, para as quais se direciona a desculpa “agora vocês podem se ver refletido na tela”.

Em parte, cara pálida, pois o superficial discurso de autoajuda e orgulho próprio está longe de colocar na mesa uma real discussão sobre os conflitos e acomodações das diferenças. Trata-se apenas de um gesto inclusivo de mercado, não humano.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Riscado, um filme que merecia mais que silêncio

Estreia nesta sexta-feira (9/9), quase de mansinho, Riscado, grande filme que passou pela primeira vez no Festival do Rio em outubro do ano passado, entrou em Tiradentes em janeiro de 2011 e arrebatou mais cinco prêmios em Gramado há um mês.

Mesmo com uma trajetória bem sucedida em festivais e com a Variety dizendo que “há muito não víamos um filme que tenha captado com inteligência e criatividade o mundo de uma atriz”, o primeiro longa de ficção de Gustavo Pizzi será apenas arremessado no circuito comercial.

O filme merecia mais. Por si só, suas imagens e encenação, o trabalho da atriz Karina Teles e o olhar terno com os nossos sonhos e desejos, são suficientes para se encantar. Saber, após a sessão, que o filme custou bem pouco e se manteve com um baixíssimo orçamento, as peripécias de Riscado ficam ainda mais louváveis.

Tudo é muito colorido neste filme. Belo contraste com a situação de Bianca (Karina Teles), talentosa e promissora atriz que ainda não conseguiu se consolidar. Nas aparências, um lindo rosto que maquiado à Marilyn Monroe, imitação que Bianca faz de personalidades em festas para ganhar o pão. Por trás da maquiagem, uma mulher que compartilha sua intimidade com o espectador por meio de diários em imagem.

Não há como não se enternecer pela personagem. Suas questões primordiais são, sim, sobre o ofício de atriz, mas não se restringem a isso. Brigar por um sonho e se encantar por uma fresta que aparece no caminho são situações pelas quais todos nós passamos.

Mas isso faria de Riscado apenas um bom filme. O que o torna um louvável filme cheio de ternura é certamente a encenação. Conhecemos Bianca por três instâncias diferentes: a personagem que se fantasia de Marilyn Monroe em festas, a atriz que participa de um filme compartilhando experiências pessoas e a mulher que se permite filmar num registro íntimo, “verdadeiro”, sem supostas interpretações.

Isso dá uma gostosa sensação de vida se desenrolando e descortinando continuamente no cinema, efeito que vem do cruzamento dessas três instâncias e prolongamentos da vida de uma mulher.

Enfim, Riscado, que deve entrar na minha lista de melhores filmes brasileiros deste ano, merecia mais do que ser arremessado nas salas de cinema.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Werner Herzog, 69 anos

Paulo Gadioli, amigo de redação aqui no Cineclick, me lembra que hoje, segunda-feira, 5 de setembro, é o aniversário de Werner Herzog Stipetić, o Herzog, cineasta do novo cinema alemão.

Conheço bem pouco de seus filmes, apenas os básicos: O Enigma de Kaspar Hausen, Fitzcarraldo, Cobra Verde e, mais recentemente, Vício Frenético – metralhado injustamente por amigos da crítica.

Em junho, descobri um Herzog que não conhecia, o documentarista radical. O Festival Internacional Lume de Cinema, coordenado por Frederico Machado, organizou uma mostra com os documentários do alemão. Lá vi Fata Morgana, que ele fez em 1971.

Sai-se de uma sessão desse filme com aquela sensação de não ter entendido muita coisa, mas mesmo assim maravilhado. Pela beleza das imagens e pelo discurso desvairado de desconfiar no próprio discurso da imagem.

Existem diferenças de propostas e especialmente de pretensão, mas relembrando de Fata Morgana (que significa algo como “miragem”) o aproximo de Árvore da Vida. Não esperneie: Malick busca o diálogo do homem com Deus, é verdade, mas as imagens de ambos os filmes pedem muito da contribuição da leitura do espectador. Sem ele, não há filme.

Feliz aniversário, Werner Herzog!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Quem é Ricardo Darín?

É quase lei na crítica de cinema brasileira reforçar um lugar-comum que, em parte, procede: o cinema argentino sabe contar pequenos dramas humanos geralmente centrados na família. O grande protagonista desse estilo narrativo tem sido Ricardo Darín.

Fui aos números: em dez anos, os 14 filmes nos quais Darín participou levaram 10,2 milhões de espectadores às salas de cinema da Argentina. Por quê? O que o público enxerga nele? Qual é a imagem masculina que seus personagens transpiram? Tê-lo em uma produção é realmente garantia de sucesso?

Pedi auxílio de dois especialistas argentinos para encontrar respostas: Mariano Oliveiros, do blog Taquilla Argentina, que se concentra em bilheterias, e Clara Krieger, pesquisadora que escreveu vários livres sobre cinema latino. Como o tempo está apertado, não consegui traduzir a tempo a íntegra da entrevista com Clara, que dá um interessante panorama não só de Darín, mas da produção contemporânea argentina.

Quem tiver paciência e compreender um pouco o castelhano não terá dificuldades em acompanhar o raciocínio da pesquisadora. A íntegra do papo vai abaixo:

Urso de Lata: O que Darín tem em diferença a outros atores? Tê-lo em um filme é garantia de sucesso comercial?
Clara Krieger: Las preguntas que me hacés son difíciles de responder. Aunque no existe la fórmula del éxito creo que existen tres elementos que deben convivir en toda película que pretenda el éxito de público. En primer lugar, tocar algún tema que de alguna manera esté presente en el discurso social, en segundo lugar en el filme debe prevalecer el lenguaje cinematográfico clásico y finalmente la puesta en escena debe poner el acento en lo emocional. Si a eso le sumamos un actor tan carismático como Darín, el público está garantizado.

Darín es un muy buen actor y podríamos pensar que representa al porteño promedio, es decir que los espectadores lo viven como un par. A eso debemos agregar que muchas de las películas que hizo trajeron a la pantalla algún problema en el que los espectadores pueden verse involucrados. Un ejemplo es Luna de Avellaneda que puso sobre la mesa el problema de las asociaciones intermedias en un marco de crisis.

La Argentina es un país en el que las asociaciones intermedias ya eran muy fuertes y numerosas en la década del 30, y consolidaron una red social que tuvo mucha presencia (clubes deportivos, sociedades de fomento, etc.etc.). En la década del 90 esas asociaciones estuvieron a punto de extinguirse y la película se sitúa en ese terreno. Lo hace con una mirada siempre esperanzadora que al espectador le permite salir con una sonrisa y pensar que todavía existen los tipos buenos como el personaje de Darín.

Qual é o tipo de imagem masculina que ele passa?
Darín es un hombre atractivo sin dudas, pero aquí no es un sex symbol. En mis viajes a San Pablo encontré comentarios sobre la belleza de Darín que aquí no se encuentran tan facilmente.

Darín es un actor con un bajo perfil y la gente lo ve más como un amigo que como una estrella. En los reportajes siempre se presenta como una persona normal que trabaja de actor. No se le conocen escándalos, no hace publícidad de sus bienes materiales, no permite que hagan un culto de su figura. Por ejemplo, no fue a recibir el Oscar porque ese tipo de situaciones no le gustan. No usa posturas artificiales, no da lecciones de moral. Es muy gracioso, parece buena gente y tiene una gran virtud: no se la cree (es una expresión porteña que significa que no cree que el exito y él son sinónimos y además conoce sus limitaciones).

Creo que tiene cosas muy representativas de los porteños: el tipo de humor irónico, la picardía, una forma de ser varonil y tierno al mismo tiempo. Quizá eso pueda parecer como un Humphrey Bogart, en muchos personajes es duro y tierno a la vez.

Qual sua avaliação geral sobre a produção contemporânea na Argentina? Aqui no Brasil é um lugar-comum afirmar que o cinema de vocês está indo de vento em polpa...
Con respecto a nuestro cine actual, yo creo que lo más interesante pasa por el documental. Las producciones de ficción son más desparejas. Hace bastante que no veo películas de ficción argentinas que me llamen la atención. Por suerte tenemos más cantidad de películas de ficción que son buenas y para público masivo, pero no veo nada innovador o realmente interesante.

La trayectoria del documental es más rica desde fibnales de los 90s hasta aquí. Siempre aparecen ejemplos destacables. Solo cito dos de los últimos que vi: Familia tipo, de Cecilia Priego (2009) y la nueva película de Andres Di tella, Hachazos (2011). La primera cuenta una historia familiar y la segunda gira en torno del artista Claudio Caldini, ambas sorprenden por el enfoque, las formas narrativas, la poética general.