domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Artista - Crítica

O Artista foi indicado a dez categorias do Oscar

É praticamente impossível não notar que a mera existência de O Artista é, por si só, um caso a se estudar, o que seria um exercício quiçá até mais interessante do que o próprio filme. Como um longa rodado em preto e branco, mudo, com roteiro embalado apenas por trilha sonora, filmado numa janela em desuso (1.37:1, o formato de tela quadrado) e repleto de citações a outros filmes se infiltra na indústria, e mais, recebe dez indicações ao Oscar?

Em tempos em que pedir para o espectador contemplar uma imagem tornou-se um ato de resistência dos cineastas – e um exercício dolorido para um espectador educado pela televisão –, como um filme mudo vira o hit da temporada de premiações e consegue chegar até a espectadores que não cultivam a cinefilia com ardor, apresentando-se como o-filme-que-você-precisa-ver-porque-todo-mundo-está-comentando?

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Whitney Houston (1963-2012)

Whitney Houston em cena de O Guarda-Costas, indicado a dois Oscar


Whitney Houston, a cantora que dominou as rádios nos anos 1980 e 90 e viu seu sucesso se estender no cinema com O Guarda-Costas e as canções I Will Always Love You e I Have Nothing, morreu neste sábado (11/2), noite de véspera da cerimônia do Grammy.

A notícia da morte de Whitney foi publicada na agência Associated Press, que traz um breve balanço da carreira da cantora, que faleceu aos 48 anos. A causa ainda é desconhecida, mas tornou-se notório o problema da intérprete com drogas.

Na década de 90, Whitney, então sucesso de vendas de LPs/CDs e presença constante nas rádios, fez três filmes: o desinteressante Falando de Amor (Waiting to Exhale, de 1995, dirigido pelo ator Forest Whitaker), o sonolento romance Um Anjo em Minha Vida (The Preacher's Wife, de 96), e um filme que muitos de nós já assistimos inúmeras vezes na televisão.

O Guarda-Costas, de 1992, que mostra o surgimento do amor de uma cantora pop (personagem obviamente inspirada na própria Whitney) com seu segurança particular, Kevin Costner, o durão que aos poucos vai amolecendo pelo romance.




 

Como qualquer produção esperta, O Guarda-Costas aproveitou o grande talento de Whitney, a voz, seguida de sua segunda habilidade, estar bonita sem fazer esforço algum. Da fórmula saíram as sequências dignas de videoclipe do longa. Filme por demais irregular, mas que ainda assim persiste como memória afetiva de quem está na casa dos 30 anos.

Curiosidade: O Guarda-Costas é dirigido por Mick Jackson, que antes de emplacar a dupla Whitney/Coster fez o bem interessante L.A. Story, divertida comédia em que Steve Martin tenta ganhar o coração de uma jornalista britânica numa jornada cheia de desencontros. Pena que o filme acabou ficando registrado na história como “o primeiro papel de relevância de Sarah Jessica Parker”.

Mas, voltando a O Guarda-Costas: agora com a morte precoce de Whitney Houston, é provável que o filme seja reprisado constantemente na televisão aberta ou que algum canal a cabo programe uma retrospectiva com os filmes com Whitney.

O tempo vai passar, as emoções vão arrefecer e O Guarda-Costas vai voltar ao seu lugar: o de memória afetiva. E nada mais.




Para descontrair, assista ao vídeo do encontro de Whitney com Serge Gainsbourg em 1986. Ela, uma estrela em ascensão. Ele já não era o compositor de antigamente mas figurinha caricata e carimbada na televisão francesa.

Neste vídeo, Gainsbarre diz na lata: "Whitney, eu quero te comer!".

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Debate com crítico Heitor Augusto sobre Brasa Adormecida

Sucesso nos anos 80, Brasa Adormecida caiu em injusto esquecimento nas décadas seguintes


Leitores deste Urso de Lata, peço licença para roubar a atenção de vocês com um auto jabá, que também pode ser interpretado como um convite por quem acompanha o blog.

Neste sábado (11/2), o filme Brasa Adormecida (85/87), de Djalma Limongi Batista, terá uma exibição gratuita no Cineclube do Mube em São Paulo às 15h, seguida de debate. Na discussão estarão o próprio diretor, o crítico de cinema Christian Petermann fazendo a mediação e este escriba fazendo o contraponto crítico.

Refrescando memórias, o Brasa Adormecida (leia sinopse e ficha técnica aqui) é o segundo longa de Limongi, o diretor que deu um papel de protagonista para Edson Celulari logo no comecinho de carreira - em 1980 com Asa Branca - Um Sonho Brasileiro.

Brasa Adormecida tem um diálogo muito interessante de gêneros e diversas passagens que citam ou homenageiam o cinema - não vou explicitá-las para não estragar a surpresa do debate. O filme, que flerta com o musical, faz comentários ácidos sobre a aristocracia. Sem contar a câmera fetichista com os corpos dos então galãs Celular e Paulo Cesar Grande, além da musa Maitê Proença.

Então, é isso! Quem estiver interessado em (re) descobrir um pedaço infelizmente pouco falado do cinema brasileiro na década de 80 está convidado a compartilhar visões e conhecimentos.

Até sábado!

Serviço
Os Esquecidos dos Anos 80 – A Década Ignorada
Exibição e debate de Brasa Adormecida, de Djalma Limongi Batista
Sábado (11/2), às 15h, no Cineclube do MuBE - Museu Brasileiro de Escultura
Av. Europa, 218 - Jardim Europa. São Paulo/SP
Fone: 11-2594-2601
Mais informações: http://mube.art.br/agenda/event/programacao-christian-petermann-o-olho-magico-do-amor/


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Wando e o cinema: Vou Rifar Meu Coração

Wando, ícone do romântico e do brega, em cena do documentário Vou Rifar Meu Coração


Ironia do destino que Wando, o cantor que falou de amor e sexo, tenha morrido do coração. Um infarto o levou.

O Wando que se tornou nacionalmente conhecido e loucamente idolatrado é o cantor e compositor de 1974 para cá, após o lançamento do álbum Moça. Por quase quatro décadas, o mineiro que se fez no Rio de Janeiro manteve-se no seleto grupo dos ases da música brega/romântica.

O que não deixa de ser uma generalização. Como classificar uma canção como Benedito e Julieta, uma das faixas mais criativas do primeiro álbum de Wando, Glória a Deus no Céu e Samba na Terra – um LP eminentemente sambista que traz influências de Martinho da Vila e MPB4.

Mas não vou me alongar com opiniões sobre a carreira de Wando. Prefiro lembrá-los que existe um contraditório e interessante documentário que coloca sob os holofotes a música romântica e a força que ela tem para falar de sentimentos. Trata-se de Vou Rifar Meu Coração, o filme de Ana Rieper que estreou no Festival de Brasília em 2011 e foi exibido na Mostra de Tiradentes em janeiro deste ano.

Debati o filme com a diretora e a produtora Suzana Amado em Tiradentes. Prosa rica.

Vou Rifar Meu Coração é quase um consultório sentimental. Ou seja, o mesmo mote do documentário recente de Eduardo Coutinho, As Canções – o que os distingue é a proposta de encenação. Personagens abrem seus corações e com as músicas de Wando, Amado Batista, Odair José, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Lindomar Castilho, entre outros, falam de dores e amores.



Este é sem dúvida a grande força do documentário: um filme de sentimentos. Mas ainda permanecem questões em torno da música e de classificações.

No debate, questionei como Vou Rifar Meu Coração coloca um cara mais sofisticado como Odair José no mesmo balaio musical de Amado Batista. A diretora ponderou que não foi a intenção mergulhar nas diferenças musicais entre o que convencionou chamar “cantor romântico/brega”.

Escolha válida a de Ana: documentário tem de ter corte e ela escolheu um. Como admirador de música, porém, senti falta de algo menos en passant.

Agnaldo Timóteo, um dos entrevistados do documentário


Mas a grande contradição de Vou Rifar Meu Coração está na força de uma entrevista e no acordo de outra. A diretora conseguiu extrair de Agnaldo Timóteo – se não me falha a memória, pela primeira vez numa entrevista – um comentário aberto sobre a homossexualidade de suas músicas como Galeria do Amor ou Amor Proibido.

Por outro lado, a entrevista com Lindomar Castilho é controversa. Refrescando a memória: o cantor da música que dá título ao filme levou suas letras sobre ciúme ao limite e matou a ex-mulher enquanto ela se apresentava como cantora num bar. Ficou sete anos preso.

O filme dá a chance do cantor justificar seu ato desesperado – o que é legítimo –, mas sonega do espectador a informação de que aquela conversa velada de Lindomar sobre ciúmes e loucura teve consequências drásticas. Quem não sabe que Lindomar matou a mulher vai pensar que ele está falando genericamente apenas de música.

Na minha leitura, isso leva a uma perigosa naturalização das coisas.

Aguardo a estreia do filme nos cinemas, agendada para abril, para ver como será a reação dos espectadores tanto para o registro de consultória sentimental do documentário quanto o musical e a contradição da entrevista.

Por enquanto, fica o registro para quem sente saudades de Wando: assista a Vou Rifar Meu Coração.

Os Descendentes - Crítica

George Clooney foi indicado ao Oscar de Melhor Ator e já venceu o Globo de Ouro


Estamos numa temporada superestimada dos filmes concorrentes ao Oscar. Os Descendentes chega às vésperas da premiação como um dos favoritos ao lado de O Artista. Dois filmes bons, mas que nem de perto sustentam o status de grande obras ao qual foram elevados desde que começaram as premiações nos Estados Unidos.

Os Descendentes entra naquele que praticamente se tornou um subgênero: o filme independente norte-americano dos anos 2000. Assim como seus pares, tem uma história de aprendizagem dos personagens, carisma, música contagiante, algumas discretas lacunas para o espectador preencher, boas atuações (com destaque para coadjuvantes que crescem ao longo do filme), enredo universal e direção eficiente – mas que não complica muito a vida de quem assiste.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas - Crítica

Histórias Cruzadas/The Help foi indicado a quatro categorias do Oscar

Histórias Cruzadas mostra que é possível flertar com o feel good movie sem descer a um nível humilhante de manipulação como Um Sonho Possível. Com um elenco feminino afinado e potente, a protagonista Viola Davis merece não só uma estatueta, mas um agradecimento da Academia por engrandecer o trabalho das atrizes.

Seria mais justo com o filme de Tate Taylor afastá-lo do gênero água com açúcar e colocá-lo mais próximo das intenções A Cor Púrpura, épico que Steven Spielberg fez em 1985 para contar a saga de uma família negra no sul dos Estados Unidos.

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Limite, de Mário Peixoto: renascimento do olhar cinéfilo

Cópia restaurada de Limite também foi exibida no Auditório Ibirapuera no final de 2011

 Qualquer pessoa que tenha a chance de assistir a Limite no cinema, mesmo numa sala desconfortável como a do Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo ou numa cópia deteriorada como a exibida pela necessária Mostra Jairo Ferreira – Cinema de Invenção, é um afortunado.

Limite é a coisa mais impressionante que qualquer um de nós assistiu ou assistirá no cinema brasileiro. Pensar que ele é o que é e foi realizado em 1931 torna-o muito mais do que uma obra-prima – o que já não é pouco, convenhamos –, mas um filme que a cada sessão te deixa boquiaberto e pensando: mas como Mário Peixoto fez isso?!

Essa obra-prima silenciosa que apaixonou Martin Scorsese a ponto de motivá-lo a restaurar o filme dentro da World Cinema Foundation é de uma juventude perturbadora, um filme-acontecimento acossado por um contagiante espírito de risco. Não é apenas uma pedra fundadora, obra fundamental para conhecermos nosso passado cinematográfico, mas também um filme que precisamos rever constantemente para termos nosso olhar sobre o cinema renovado.

Limite é um colírio. É um filme que a cada sessão provoca o renascimento do olhar cinéfilo.




Na sala de cinema, ele toma proporções maiores. A antológica representação da mulher “acorrentada”, imagem que ilustra este post, torna-se ainda mais dramática. As sequências de arrebentação, do mar se chocando com as pedras, é ainda mais dolorida e poética. O encontro de três personagens à deriva no mar, cada um com uma história particular, é algo inesquecível.

A um espectador contemporâneo, Limite provoca uma curiosa sensação de mergulho e afastamento: estar na cena (tomando cena como o jogo que se estabelece entre filme-espectador na sala de cinema) e observar-se de fora.

Estando dentro do filme, o encantamento surge a cada cena, a cada plano. Estando fora, vem a pergunta de como Mário Peixoto chegou àquele resultado com tantas restrições de produção? Por exemplo: quando o personagem masculino berra à procura de uma mulher, a câmera faz um movimento rasante em direção à boca e à orelha do personagem. Tal manejo se parece muito com o uso que o fotógrafo de Terrence Malick faz da steadicam em A Árvore da Vida, manejando constantemente a câmera de encontro aos personagens e, assim, criando fluxo, movimento - que não me xinguem pela comparação os que não gostam do filme de Malick.

Só que Peixoto fez isso em 1931 com aquelas geringonças pesadíssimas! E a câmera no barco? E a câmera na extremidade do trem? E os planos fechados nas mãos do personagem segurando um cigarro?

O que dizer também da narrativa? Não há as chamadas cartelas/intertítulos a explicar para o espectador quais são os diálogos. Tudo se articula no nível da imagem, acompanhada de uma trilha vigorosa, que vai e vem, misturando-se hibridamente e reintroduzindo repetidamente a música-tema.

Ficamos divididos em algo como espectador-historiador. O espectador se alumbra, o historiador questiona “mas como isso foi feito?”.

Voltarei a falar nos próximos dias da Mostra Jairo Ferreira – Cinema de Invenção, razão para que Limite, o único longa-metragem que Mário Peixoto chegou a completar, foi exibido no CCBB-SP. Por hora, fica o registro encantado de rever esse filme no cinema.

Limite não morrerá jamais. Isso é certo.


Em tempo: a amiga Michelle Ferret, já citada desse blog no post "A Crítica Está Morta?", publicou no começo do ano passado um inspirado texto sobre Limite, dando mais atenção à questão do tempo no filme e no raciocínio de Mário Peixoto. A íntegra está neste link.