sexta-feira, 23 de março de 2012

O último filme de Chico Anysio

Chico Anysio em cena de A Hora e a Vez de Augusto Matraga

O Chico Anysio que a gente conhece e vai sentir saudades mesmo é o humorista de personagens antológicos, sejam O Baiano e os Novos Caetanos nos anos 1970 ou O Profeta na década de 80. Vale lembrar também do “sedutor” Alberto Roberto, do Professor Raimundo, do Coalhada, do Popó e muitos outros. Contudo, a memória recente que ele me deixou é a breve e hilária participação em A Hora e a Vez de Augusto Matraga.

Chico Anysio é o Major Consilva, o manda-chuva de um vilarejo no sertão mineiro que submete a seus interesses toda a população local. Segunda adaptação para o cinema do conto de Guimarães Rosa, A Hora e a Vez de Augusto Matraga foi exibido e saiu vencedor do Festival do Rio em 2011 – uma decisão para lá de exagerada –, mas ainda permanece inédito no circuito comercial.

Breve na duração, mas marcante na qualidade. A participação do humorista é de uma eficácia igual a de Moacir Franco como o delegado em O Palhaço – a diferença é que Moacir estava em um filme bom, enquanto Chico num filme mediano com cacoetes de narrativa televisiva. Impressionante que mesmo doente e debilitado, praticamente permanecendo sentado durante toda a participação, Chico tem mais presença de cena do que muito ator cujo roteiro é mais generoso e lhe reserva maior tempo na tela.

Sua participação saltou tanto do restante do filme que o júri improvisou um Prêmio Especial de Ator Coadjuvante só para reconhecer o que Chico tinha feito. Foi um momento marcante na cerimônia de encerramento no Festival do Rio, que às vezes se preocupa demais com acessórios e deixa o que importa de lado.

Em cadeiras de rodas, o humorista foi conduzido ao palco, brincou que “o prêmio seria um estímulo para um ator em começo de carreira como eu” e ironizou a própria fraqueza (“Lá embaixo, eu pensava: por favor, não me deixem aqui sozinho”).

Chico Anysio morreu nesta sexta-feira (23/3), às 14h52, após 112 dias de internação. Mas assim como Tonino Guerra, outra perda desta obscura semana, o que ele nos deixou é rico o suficiente para não nos esquecermos jamais de como era bom dar risada com Chico.

Chico Anysio como o Professor Raimundo

Textos relacionados:

quinta-feira, 22 de março de 2012

Tropicália abre festival de documentários É Tudo Verdade

Capa do álbum de 1968 de Gilberto Gil, no auge do Tropicalismo como movimento

 Começa nesta quinta-feira (22/3) o É Tudo Verdade, mais importante vitrine do cinema documental na América Latina. Tropicália, filme que monta um mosiaco da produção musical dentro do Tropicalismo, abre o festival hoje. O longa-metragem será reapresentado para o público na sexta-feira às 21h no CineSesc.

Novamente acompanharei o festival, que no ano passado me revelou o trabalho fundamental de Marina Goldovskaia, que inclusive tem um marcador (consulte no menu à esquerda) só para ela neste blog. Além das críticas, que serão publicadas na Revista Interlúdio e reproduzidas parcialmente por aqui, este também também integro, ao lado de Andrea Ormond, Carlos Eduardo Lourenço Jorge, Cid Nader e Luciano Ramos, do Júri da Crítica - Prêmio da Crítica.

Pra começar, quem quiser conferir um pouco sobre o bom Tropicália, espie a crítica neste link aqui. Tem também a entrevista que fiz com o diretor Marcelo Machado para a Revista Rolling Stone [clique e leia aqui] na qual ele comenta que até pensou em tornar sua produção em um filme-acontecimento anarco-tropicalista.

Bem-vindo, É Tudo Verdade!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Morre Tonino Guerra, roteirista de Antonioni e Fellini

Tonino Guerra escreveu Trilogia do Silêncio de Antonioni

 A Cinecittà News informa que morreu Tonino Guerra, roteirista da Trilogia da Incomunicabilidade de Antonioni (A Aventura, A Noite, O Eclipse) e da fase mais próxima do final de Fellini (Amarcord, E la nave va, Ginger e Fred).

Óbvio que a morte de Tonino Guerra é uma grande perda para o cinema, mas a maneira mais justa de homenageá-lo é, além de render textos elogiosos e (re)apresentá-lo aos leitores, redescobrir seu trabalho em parceria não só com Antonioni e Fellini, mas também com Monicelli, Tarkovski e os Irmãos Taviani. Há também seus livros para serem lidos.

Depois de Theo Angelopoulos, 2012 resolveu provocar outra baixa de peso no cinema (a propósito, Tonino Guerra também trabalhou com Anghelopoulos em alguns filmes, entre eles o mais recente A Poeira do Tempo).

Pra recordar, a cena final de O Eclipse:

sexta-feira, 16 de março de 2012

Projeto X - Crítica

Se Beber, Não Case e Projeto X – Uma Festa Fora de Controle são filmes gêmeos. Além da óbvia constatação de que Todd Phillips assina a produção de ambos (além da direção do primeiro), os dois trabalham na mesma frequência com o humor (o que pode ser lido por uns como “vou correndo para o cinema” tanto como “vou passar longe do cinema” para outros).

Mais importante, porém, é o fato de que ambos têm material para se falar por horas sobre a repressão sexual e social. A gênese dos personagens do filme-ressaca de Phillips é a mesma dos adolescentes do filme-testosterona de Nima Nourizadeh: os que se permitem enfiar o pé na jaca apenas uma vez na vida.

Em Se Beber, Não Case – seja a Parte I ou II –, os meninos grandões, adultos infantilizados, enchem a cara na despedida de solteiro de um membro da turma e se metem numa série de roubadas – em Vegas no primeiro filme, Bangcoc no segundo. O público descobre ao mesmo tempo que os próprios personagens o que se passou na fatídica noite da qual ninguém guarda lembrança.

Continue lendo a crítica de Projeto X na Revista Interlúdio.

O cachorro em Projeto X é o comic relief correspondente ao macaco de Se Beber, Não Case

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Poderoso Chefão: 40 Anos

Pré-estreia de O Poderoso Chefão aconteceu em 15 de março de 1972 em Nova York
 
Só para lembrar aos fãs da trilogia O Poderoso Chefão, a Revista Interlúdio, projeto no qual sou um dos colaboradores, publicou um imperdível dossiê cobrindo diversas fases da carreira de Francis Ford Coppola, entre eles o próprio The Godfather.

O link para todos os ensaios é este: http://www.revistainterludio.com.br/?p=2557

Boa leitura!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Glauber Rocha: 100 anos (?)

Trocando as bolas, este editor errou as contas e publicou que Glauber Rocha faria em 2012 cem anos. O blog pede desculpas pelo erro bizarro de cálculo e corrige a informação: há 73 anos nascia Glauber.

Obrigado ao leitor anônimo que puxou a orelha deste escriba. Pensei em culpar a matemática, mas não adianta: seria como o Deivid tentando explicar a perda do gol debaixo da trave!

Mas o post ainda vale: abaixo, alguns vídeos com o diretor de Terra em Transe, A Idade da Terra, Deus e o Diabo na Terra do Sol, entre outros, polemizando:














sábado, 10 de março de 2012

Cairo 678 - Crítica

Cairo 678 cai naquela categoria de filmes que uma pessoa consciente do estado das coisas fica feliz pela existência, mas quem tem apreço pelo cinema não consegue deixar de notar como o resultado é falho. Um melodrama político sobre uma causa nobre, mas com tintas tão deslocadas que chegam a anular a força do discurso.

É a típica produção que o crítico de cinema torce para que o público não tome o texto como juízo final, desistindo de conhecer o filme por causa da avaliação crítica. Mesmo assim, quem escreve não pode (nem deve) divorciar-se da obrigação de apontar falhas, cegando-se por causa da nobreza do tema. É urgente um filme que discute o machismo e toma uma posição feminista para tal, o que não anula, porém, a necessidade de problematizar o sentimentalismo no qual o filme obriga suas personagens a mergulharem.

Torço para que os que lerem este texto vão antes ao cinema, assistam a Cairo 678 e, então, venham dialogar com o que aqui está dito.

Continue lendo a crítica de Cairo 678 na Revista Interlúdio.