quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Twitter, Facebook e Youtube: uma história de amor moderno

Chego um pouco tarde, já que o Indie – Mostra de Cinema Mundial acaba, em São Paulo, nesta quinta-feira (29/9). Mesmo assim, não vou deixar de comentar um filme que a mostra trouxe, contando com o tesão dos leitores em buscar online o longa-metragem Flores do Mal (Fleurs du Mal).

É o primeiro filme que me agrada, de fato, na tentativa de incorporar a internet, as redes sociais e o compartilhamento na dramaturgia. Temos a história de uma jovem iraniana de 20 anos que é mandada a Paris pelos pais para fugir do perigo dos protestos. No hall do hotel, conhece Gecko, um rapaz que lá trabalha, e inicia uma amizade que, por ventura, pode se tornar algo mais.

Mas não é um filme sobre o amor, apesar de ele estar presente em sua forma mais bela (o companheirismo) e destrutiva (o ódio). Flores do Mal é um sintoma de pessoas cujo encontro é possível por conta de ferramentas virtuais. Também não decorre daí um discurso positivo e propagandístico de mundo conectado ou outros lugares-comuns que se recusam a reconhecer os estragos que a virtualidade também traz às relações humanas.

Anahita integra a elite intelectual de Teerã que, em 2009, foi às ruas, protestou e pediu o fim da era Ahmadinejad. A onda verde que terminou com a perpetuação dele no poder, muitas prisões, mais censura e repressão. Gecko é um tipo libertário meio perdido na vida que só consegue se expressar pela dança de rua, tentando interagir com a cidade e procurar nela o que há de seu.

Dois personagens muito interessantes, cujas histórias e segredos compartilhamos ao longo do filme. Mas gostaria de voltar à tecnologia. Enquanto está em Paris, Anahita acompanha pela internet o desenrolar dos protestos. Amigos seus estão na linha de frente por mudanças. O sangue das vítimas da polícia truculenta tomam de assalto a tela. Ela não tem certeza de sua coragem para a ação política.

Pelo YouTube, Anahita vê o que se passa. Pelo Twitter, busca notícias de seus amigos e os locais dos próximos protestos. Pelo Facebook, reencontra Rachid depois de um desencontro inicial.

É interessante e inteligente a maneira em que David Dusa consegue integrar as tais mídias sociais e a virtualidade no filme. Flores do Mal não seria tão instigante se não fosse por esse gesto. Enfatizo: não se trata de um filme de tese ou de uma propaganda travestida por um discurso fofinho, mas sim de colocar como esses dois interessantes personagens estão imbuídos desses modos de comunicação e articulação política.

Digamos que entre o discurso “quero ser engraçadinho” de Medianeiras e a constatação de como o Facebook foi uma ferramenta efetiva nos recentes protestos no Egito, Flores do Mal esteja mais perto da verdade do segundo.

É uma pena, porém, que o filme seja irregular e não consiga acompanhar, como cinema, a força de seus personagens. Por vezes, há um descompasso entre o que eles fazem e como se colocam corporalmente e o que a câmera consegue captar. Mas não deixa de ser interessante ver Rachid fazendo sua dança no meio da rua, metrô e museus, brincando de anarquia enquanto a verdadeira anarquia está a milhares de quilômetros dele, no Irã.

A descrição do filme no site do Indie é precisa: “uma moderna história de amor”. Não moderninha.

O trailer de Flores do Mal (Fleurs du Mal) está abaixo (garanto que o filme é mais interessante do que indicam as imagens):

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ata-me! ou A Pele que Habito - Parte 3

Assim como A Pele que Habito, Ata-me! (1990) é uma história de amor. Mas também como muitos outros filmes de Almodóvar, o amor nem sempre é compartilhado pelas duas partes, ou melhor, passa por outros gestos bem menos nobres. A tortura, a prisão, o jogo de força e poder são alguns deles.

Ata-me! é legitimamente “um filme de Pedro Almodóvar”, uma daquelas histórias que viramos e dizemos: só ele poderia contá-la. Como chamá-lo, senão de inusitado, esse conto de fadas cômico-melodramático que começa com um crime, o sequestro da atriz Marina (Victoria Abril)?

Como os grandes autores no cinema, Almodóvar faz sempre o mesmo filme, com pequenas variações. A essência é a mesma: as ferramentas do cinema de gênero servem a um realizador cioso por dar um tapa na cara da sociedade (com charme, é claro). O tapa, em Ata-me!, é uma moça “respeitável” (a atriz) apaixonar-se por um seqüestrador amoral (Antonio Banderas, quando ainda queria ser ator de verdade, não um burocrata da atuação).

Nesse conto de fadas elegante, está em jogo não só o amor, mas também o cinema. Temos o longa que nos é mostrado e, dentro deste, outro que está sendo rodado, protagonizado por Marina Osorio e dirigido por Máximo Espejo (Francisco Rabal). Um filme de terror comandado por um diretor outrora respeitado, hoje paraplégico e decadente, filmando apenas pela ajuda dos amigos (quase como a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses).

Todo o conteúdo humanista de Ata-me não está na belíssima e brega sequência final ou nos movimentos de câmera que ganham classe com a música de Ennio Morricone. O esforço humano de sair da perspectiva egoísta e colocar-se no lugar do outro está na cena em que Máximo, na cadeira de rodas, devora sua atriz-fetiche na tela de TV.

Sua mulher o espreita, mas não diz nada. Cala-se e entende. Como julgar um homem que não consegue mais fazer o que deu sentido à sua vida: dar vazão ao desejo e fazer cinema?

Mais do que no amor da atriz pelo sequestrador, Ata-me! representa o caráter humanista do cinema de Almodóvar nessa cena em que Máximo devora a imagem de sua atriz.

Não é coincidência que esse plano vá reverberar num dos planos mais bonitos de A Pele que Habito, na qual Antonio Banderas, cirurgião psicótico e traumatizado, imagina o sexo com sua cobaia, Vera, apenas mirando-a por uma imensa televisão.

Leia mais: A Pele que Habito é a maior frustração de 2011
Leia mais2: Maus Hábitos e o lado traiçoeiro do amor

Festival de Brasília 2011

Começou ontem, segunda, 26, a 44ª edição do Festival de Brasília, o evento mais tradicional do cinema brasileiro, palco de discussões, lançamentos de filmes e propostas político-estéticas. Neste ano, muitas mudanças até difíceis de colocar só em um parágrafo: alteração da data, queda do ineditismo, fim da mostra digital (que encurtou a participação dos curtas), ampliação dos espaços de exibição...

Neste ano, vou acompanhar à distância: o cansaço bateu, o corpo pediu para continuar em São Paulo e o atendi, apesar da curiosidade em acompanhar a repercussão das mudanças.

Mas, para quem está interessado em acompanhar o debate, quatro indicações diferentes:

- matéria que publiquei ontem no Cineclick entrevistando diversos setores e tentando ampliar as discussões

- artigo do crítico Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo, que aponta um apequenamento do festival com as decisões equivocadas de 2011.

- artigo do crítico Cid Nader, do Cinequanon, que pede uma certa prudência da crítica em já qualificar as mudanças como ruins (discordo de alguns pontos, mas acho válida a colocação).

- leitura integral do blog Festival de Brasília em Perigo, que recupera o processo de mudanças antes mesmo de elas serem anunciadas e explica todas as polêmicas dos bastidores.

Enfim, leituras obrigatórias para quem se interessa pelos rumos do mais tradicional festival de cinema brasileiro.

sábado, 24 de setembro de 2011

Maus Hábitos ou A Pele que Habito - Parte 2

Acima do tom cômico, Maus Hábitos (Entre Tinieblas, 1983) é um filme sobre a fascinação do mal.

Esta, porém, é apenas um lado da moeda. Do outro, está o amor como dependência e abuso que dela convém. Esta é a natureza das personagens do quarto longa de Almodóvar: fascinadas pelo mal ou pelo pecado, mas também víboras que usam o amor do outro como chantagem. Freiras dúbias de nomes esquisitos – Irmã Esterco é uma delas.

A fascinação pelo mal e a chantagem da do desejo é uma dualidade que acompanharia o cinema do espanhol por muito tempo. Mais recentemente, reverberou em Má Educação (o padre que abusa de uma criança que, quando adulta, extorque o religioso, sedento de amor) e A Pele que Habito, seu filme mais recente que chega ao Brasil em novembro.

Maus Hábitos é um grande momento da carreira de Almodóvar, ainda em sua fase anarco-punk, que dura mais ou menos até 1984 com Que Fiz Eu Para Merecer Isto?. É o período que mais me seduz de seu cinema, dos tipos underground e viciados, inversão absurda dos valores, amoralidade no tratamento de temas clássicos, ares meio cafajeste.

É um momento em que ele investe muito numa postura iconoclasta. Como definir, senão assim, um filme que coloca a madre de um convento como uma viciada em heroína que mantém retratos de “pecadoras” (Brigitte Bardot entre elas) em seu escritório? Ou uma freira que, de tanto tomar ácido, vê a realidade adulterada em cores? Ou outra freira futriqueira que descobriremos ser autora de romances policialescos baratos?
Link
Mesmo nesse cenário caótico, o desejo e o amor é quem mandam, e Almodóvar não tem perde o juízo. Luc Moullet, crítico francês e cineasta, do qual já falei nesse post aqui, definiu: “A moral é uma questão de travelling”. Godard, na época de crítico, inverteu e fez uma provocação: “O travelling é uma questão de moral”.

Sendo um ou outro, Pedro Almodóvar parece estar 100% consciente das decisões morais e de julgamento num mero movimento de câmera. No belíssimo plano final, quando compartilhamos da imensa dor de uma personagem, a câmera se afasta com profundo respeito.

Maus Hábitos é mais um exemplo de como A Pele que Habito deu errado. Ambos se dedicam a falar dos dois lados de uma moeda. A diferença é que em 1983 estava muito claro para o realizador qual era o tom que pretendia dar a seu filme. Em 2011, não está.

Em tempo: abaixo, uma grande cena do filme:

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Pele que Habito, um filme de Almodóvar?

A prova cabal de que algo andou muito mal em A Pele que Habito está numa cena envolvendo a grande Marisa Paredes. À beira de um fogaréu ateado para queimar as provas de um crime, a atriz, encarnada da empregada Marília, conta a Vera uma desgraça que ocorrera anos antes naquela casa.

Nesta sequência de delicada execução e emotivo conteúdo, tinha-se uma grande atriz, a diva destrutiva de Tudo Sobre Minha Mãe. A cena começa e a câmera se aproxima vagarosamente fazendo um movimento lateral. A linda labareda ilumina os rostos dessas duas mulheres tão diferentes naquela noite. Quando, enfim, o plano começa a surtir efeito e sua emoção transparece, Almodóvar o interrompe para realizar um flashback completamente desnecessário.

Isso resume o filme: uma série de escolhas desnecessárias que resultam num conjunto equivocado que, apesar de já nos créditos anunciar “Um Filme de Almodóvar”, parece não ser um filme do grande realizador espanhol autor de algumas obras-primas desde os anos 80. Não faltam os códigos que sedimentaram seu estilo como a reviravolta do enredo, tons melodramáticos, personagens obsessivos etc.

Existe um pacto fundamental entre o tipo de adesão pedida por um filme de Almodóvar e o espectador. Dotado de sensibilidade única, ele vai ao mundo e o observa, devolvendo para nós a construção desse olhar. Nessa operação, o ignóbil (a paixão do estuprador Agrado em Fale Com Ela) torna-se lindo; o que merecia ser julgado (o crime e a mãe de Volver) é compreendido; o nobre (o amor de um homem em Carne Trêmula) revela-se podre e escuso; um ato criminoso (o sequestro de Ata-me) é observado numa ótica charmosa.

Por que? Porque o nível de identificação é tremendo, sempre vamos e voltamos, nos aproximamos e tomamos distâncias. Nos colocamos no lugar desses personagens, o que não nos permite adotar uma postura superior e arrogante. Nos enternecemos e solidarizamos. Nos identificamos. Somos eles.

Não dá para acreditar no cirurgião plástico e sua “cobaia” em A Pele que Habito, graças a uma direção excessivamente acadêmica e pomposa, trilha sonora nunca sutil e especialmente pela postura burocrática da direção de Almodóvar e da atuação de Antonio Bandeiras, que aparentam estar mais preocupados em serem profissionais do que artistas.

Infelizmente, Almodóvar quis fazer um filme de tese: a relação do amor e da dor ou de como a tortura leva a um prazer narcísico, passando também por comentários sobre a ética. Em vez do charme de Ata-me, cujo tema tem clara conexão com o novo longa, há as afirmações de A Pele que Habito. Almodóvar, um cineasta que sempre optou por mostrar e nos educou a não julgar, decidiu demonstrar desta vez. Deu errado.

Almodóvar me ensinou a gostar das inversões morais de seus filmes. Acompanhei com encantamento as várias fases de seus cinemas, que divido assim: a anarco-punk (até O Que eu Fiz Para Merecer Isto?, 1984); a cômica-melodramática (até A Flor do Meu Segredo, em 1995); e finalmente o período de amadurecimento como diretor, mais clássico (de Carne Trêmula, 1997, até Volver). Esta é uma tentativa de divisão didática e obviamente filmes não refletem uma postura estanque de um realizador, que só fala disso ou daquilo.

São momentos diferentes de seu cinema, cada um com um charme e sedução diferente, hábeis em cativar não apenas pelo tema, mas pelo estilo. Qual é a sedução de A Pele que Habito? Não há. E isso muito me preocupa.

O que ele ainda quer do cinema ou o que ele pode lhe dar? Qual fase inaugurar-se-á com dois filmes burocráticos como Abraços Partidos (que não é desastroso, apenas médio) e este longa que chegará aos cinemas em 4 de novembro.

A Pele que Habito não é um filme de Almodóvar, mas de Almodóvar querendo fazer um filme de Almodóvar. Um filme-almofadinha.

Antes da estreia voltarei algumas vezes a ele, abordando as questões que estão lá, mas não florescem no conjunto, e a outros momentos mais dignos da carreira de Pedro Almodóvar Caballero. Por ora, é isso: a maior frustração entre as estreias deste ano.

Em tempo: antes de chegar ao circuito comercial, será exibido no Festival do Rio, que terá a ilustre presença de Marisa Paredes, atriz de Almodóvar neste em outros filmes – se não me engano, o primeiro filme da dupla juntos foi Entre Tinielbas, de 1983.

Em tempo2: abaixo o trailer do filme:

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cinema brasileiro 2: os curtas é que salvam

No texto abaixo sobre os postulantes a uma indicação brasileira ao Oscar, argumentei o baixo nível criativo dos longas-metragens de ficção lançados neste ano. Assim como o documentário tem proporcionado ótimas surpresas (Pacific e Diário de Uma Busca), existe um outro formato cuja média da produção é muito boa: os curtas-metragens.

Na terça-feira, o Canal Brasil anunciou o grande vencedor do prêmio de R$ 50 mil, escolhido pelos apresentadores. Deu uma obra-prima chamada Recife Frio, premiação merecida pelo diretor Kleber Mendonça Filho. O que encanta, porém, não é só o escolhido, mas os outros postulantes.

Cada um dos nove candidatos venceu, em um festival diferente, o Prêmio Aquisição do canal, cujo júri é sempre formado por jornalistas e críticos. Da lista, pelo menos quatro são grandes filmes: A Amiga Americana, de Ivo Lopes Araújo e Ricardo Pretti; Bailão, de Marcelo Caetano; Faço de Mim o que Quero, de Petrônio Lorena e Sergio Oliveira; Haruo Ohara, de Rodrigo Grota; além do próprio Recife Frio.

Outro curta-metragem é bom e tem charme, O Filme Mais Violento do Mundo, de Gilberto Scarpa. Infelizmente, não vi os outros três candidatos: Imagine uma Menina com Cabelos de Brasil..., de Alexandre Bersot; Magnífica Desolação, de Fernando Coimbra; e Mãos de Outubro, de Vitor Souza Lima.

De uma lista de nove filmes, cinco integram o time dos grandes, aquele que permite criar uma série de leituras, discussões. São aqueles que nos despertam paixões – já declarei meu amor aos cinco curtas em momentos diferentes. Mais da metade.

Acompanhando a produção brasileira deste ano, solidifica-se uma sensação de que existem muito mais curtas que permanecem após a sessão do que longas. Pretendo desenvolver essa comparação no fim do ano em textos de balanço, mas, por ora, compartilho essa sensação.

Com um porém: existe, sim, uma produção viva em longa-metragem, só que ela ainda passa à margem. São os filmes feitos por coletivos regionais, geralmente com poucos recursos etc. Muitos deles estrearam por meio da Sessão Vitrine. É esse escopo da produção brasileira que mais me interessa e, acredito, deveria ser mais observada não só pelo público, mas também pela crítica.

Se esse cinema florescer ainda mais e ampliar suas janelas de diálogo, aí sim a média da qualidade da produção em longa brasileiros vai dar orgulho.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Brasil (provavelmente) fora do Oscar. De novo

O Ministério da Cultura divulgou ontem, terça-feira (13/9), os pré-selecionados que postulam à indicação do MinC para ser o representante brasileiro por uma vaga de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar. Apenas 15 longas-metragens se inscreveram, diz o site do Ministério.

Acho improvável que queime a língua: mais um ano sem representante tupiniquim na cerimônia da Academia. A não ser que o escolhido seja Tropa de Elite 2 que, para mim, não é o melhor da lista, mas pode ter lá suas chances por ser minimamente conhecido lá fora e por conta do diretor, José Padilha, premiado em Berlim em 2008 com o primeiro filme e que foi para Hollywood dirigir uma nova versão de Robocop.

Mas não vou investir em futurologia de Oscar, pois não tenho talento para Mãe Diná, e nem buscar tendências, já que meu know how da rotina da Academia não chega nem perto do faro de Ana Maria Bahiana, hoje blogueira do UOL. Vou me concentrar no nível da lista, independente de ser para Oscar ou para um troféu de esquina.

O nível está muito baixo. Muito. Risível. Uma pena, já que sou um crítico comprometido a refletir especialmente com o passado, presente e futuro com o cinema daqui. Dos 15 pré-selecionados, sete não se sustentam após o primeiro argumento. Vou nominá-los, em ordem alfabética: A Antropóloga, As Mães de Chico Xavier, Assalto ao Banco Central, Família Vende Tudo, Federal, Mulatas! Um Tufão nos Quadris e Quebrando o Tabu. Estes são os medonhos.

Dos restantes, cinco são medianos: em alguns momentos interessantes, mas não têm fôlego para competir com o que há (supostamente) de melhor nas cinematografias mundiais. São eles: Bruna Surfistinha, Estamos Juntos, Vips, Histórias Reais de um Mentiroso – Vips e Lope.

Sobram três. Malu de Bicicleta é bom, mas carece de grandes aspirações como cinema. É modesto, mas honesto. Digno.

Sobram Tropa de Elite 2 e Trabalhar Cansa, os quais só assisti uma vez e achei grandes filmes. Dois longas de verve diferente, mas porretas – a diferença é que o longa de Juliana Rojas e Marco Dutra não sofre do maniqueísmo do filme de Padilha.

Até semana passada, comecinho de setembro, estrearam 55 longas brasileiros que poderiam ter se inscrito no MinC. Entre setembro e dezembro de 2010, período que também tornariam elegíveis outras onze ficções, destaco apenas Meu Mundo em Perigo e O Sol do Meio Dia.

Desse bolo de 66 ficções, apenas quinze se inscreveram. Por quê? Por que os produtores de Transeunte, Natimorto, Não se Pode Viver Sem Amor, Riscado, interessantes e com algo a dizer, não entraram? Para evitar a fadiga? Qual é o resultado dessa equação que não percebo?

A coisa não está boa

No começo da redação deste artigo, pensei que a tal lista dos 15 não refletisse os filmes lançados neste ano. O problema seria dos produtores de boas ficções (fazendo esse corte já que raramente a Academia escolhe um documentário na categoria de Filme Estrangeiro) que não inscreveram seus longas.

O triste fato é que a lista dos 15 reflete, sim, o que foi feito até o momento entre as ficções. À exceção das quatro ficções já citadas que mereciam estar na lista, e de Estrada Para Ythaca, lançado pela Sessão Vitrine, não existem filmes que me provoquem alguma paixão, gana por discuti-las e ouvir opiniões contrárias.

Não existem ficções para se colocar na mesa, esta é a verdade. Com documentários, o papo é outro.

Quando olho para o escolhido da Hungria, O Cavalo de Turim, de Béla Tarr (não sou louco pelo filme, mas não dá para negar sua força como cinema e a maravilhosa encenação), fico com muita vergonha da lista. Suponho uma embaraçosa situação: para começar o dia, um membro da Academia assiste ao filme de Tarr. Em seguida, a Assalto ao Banco Central.

É ou não de doer?!

Entre esse suposto cinema de qualidade e do bom gosto como Lope e as limitações técnicas e orçamentais de Os Monstros, fico com este: não tem dinheiro, mas esbanja verdade cinematográfica.

É esta segunda linhagem de cinema brasileiro que precisa tomar dimensões maiores, contaminar o espectador, não a outra.

Por isso discordo do senso comum: o cinema brasileiro não vai de vento em popa.