quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Festival de Brasília - Balanço - O que dizem os jovens?

Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro, um dos filmes que impregnam

Não faltaram filmes que, entre a acomodação e a busca, preferiram a segunda. O que, se olharmos sem romantismos, implica maiores dificuldades, caminhos mais esburacados. Por isso, saímos do Festival de Brasília sem um grande filme. Mas, por favor, não confundam essa afirmação com o que chegou a ser equivocadamente escrito, de que a “45ª edição do evento chega ao fim sem nenhum destaque com força para roubar os holofotes”. Desde quando cinema é ladrão de luz? Não sejamos levianos – ou cegos.


Grosso modo, os que mais instigam, os que ficam na memória, são as produções de realizadores que estrearam no longa de ficção aqui em Brasília. Tal recorte – metade das produções da mostra competitiva era de diretores estreantes – gerou o irônico comentário de que o festival candango havia abocanhado um grupo de filmes que facilmente poderiam estar competindo na Aurora da Mostra de Tiradentes, seleção dedicada a jovens realizadores.

Mas é justamente por conta desse recorte priorizado que o Festival de Brasília retoma seu posto de protagonista no extenso e abarrotado calendário de festivais no Brasil.

Continue lendo o balanço do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Brasília, 3º dia - Dormir com um filme, acordar sem ele (Boa Sorte, Meu Amor, A Mão que Afaga, Otto)

Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão

Parte I – os que ficam


Nem sempre é assim, mas quando acontece é gostoso. Dormir com um filme, acordar com ele e dele se alimentar alguns dias. Após três dias de mostra competitiva, já começa a ficar claro os filmes que ficam, que revisitamos nas memórias, e os que se esvaem.

Ficam, entre os longas, Eles Voltam (mesmo que irregular) e A Memória que me Contam (justamente porque todos seus problemas servem como diagnóstico de uma situação). Antes de “bom” ou “ruim”, são filmes que gostei de ter visto. Ontem foi exibido Boa Sorte, Meu Amor, longa que, na primeira noite dormida com ele, está vivo. Será interessante observar sua imanência.

Daniel Aragão (Não me Deixe em Casa, Solidão Pública) não esconde a pretensão alta de seu filme. E obviamente é complicado manter um primeiro longa no topo, com regularidade em todos os planos, em todas as cenas.

Continue lendo o texto na Revista Interlúdio.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Brasília, 2º Dia - Que país é esse? (A Memória que me Contam, Kátia)

Simone Spoladore em cena de A Memória que me Contam

Algumas coisas não se pode cobrar do cinema de Lúcia Murat (Uma Longa Viagem, Quase Dois Irmãos, Que Bom te Ver Viva). Uma delas é a insistência no assunto dos rastros da Ditadura. É chover no molhado dizer isso, mas quem faz filme parte de um ponto de vista, o seu, e se posiciona no mundo com suas experiências.


E há muito ficou claro que Lúcia tem no cinema a maneira de se manter viva, sobreviver a si mesma – é sabido que, tal como muitos de sua geração, a cineasta foi presa e torturada pela Ditadura Militar, sequela da qual jamais se recupera.

Pode-se cobrar, obviamente, que faça filmes bons. Mas não se pode reclamar de ter sido enganado: quando vamos assistir a um filme de Lúcia Murat já sabemos que estará em discussão o Brasil sob o ponto de vista da geração que lutou contra a truculência militar, uma avaliação de seus méritos/deméritos e invariavelmente uma desilusão com o que se tornou o país (especialmente a questão da esquerda no poder, o cenário pós-Lula).

Talvez mais interessante do que reclamar que é mais do mesmo seria perguntar por que não tocam no assunto com filmes as gerações que não viveram a tortura na pele? Ou de quem viveu aquele momento de maneira diferente, tal como Ugo Giorgetti e seu cinema humanista consegue com Cara ou Coroa? Não residiria a possibilidade de frescor na entrada de outros cineastas, mais jovens talvez, nesta seara?

Continue lendo o relato do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Brasília, 1º dia: A cidade e suas bolhas (Eles Voltam, Câmara Escura, Linear)

Eles Voltam, de Marcelo Lordelo

A imagem-síntese do estado amedrontado em que uma certa classe média brasileira vive está em Recife Frio. Nela, pessoas literalmente brincam dentro de uma bolha gigante, que se parece com o monstrengo de Carpenter em Dark Star. A bolha física está colocada na bolha metafórica na sociedade capitalista contemporânea – o shopping center, substituto artificial dos encontros na praça pública, nas ruas.


Há pelo menos três anos temos assistido a filmes decididos em falar sobre os que vivem dentro da bolha – corrigindo: filmes tem sido produzidos, mas não necessariamente vistos, pois nem sempre eles encontram janelas de exibição além dos festivais.  O maior esforço tem vindo de Pernambuco em filmes que entre o panfleto e a ironia, preferem a segunda.

Eles Voltam e Câmara Escura, dois dos filmes da primeira noite da mostra competitiva do Festival de Cinema de Brasília articulam essa questão de maneira mais explícita, mas Linear, uma animação paulistana, também pode facilmente ser chamada para a conversa.

Continue lendo sobre o primeiro dia do Festival de Brasília na Revista Interlúdio.

Brasília, noite de abertura

A Última Estação, de Marcio Curi


Esse fenômeno lança alguma luz sobre a ambiguidade das posições do crítico brasileiro frente à produção cinematográfica de seu país. O filme nacional é um elemento perturbador para o mundo, artificial mas coerente, de ideias e sensações cinematográficas que o crítico criou para si próprio. Como para o público ingênuo, o cinema brasileiro também é outra coisa para o intelectual especializado. Atacando com irritação, defendendo para encorajar, ou norteado pela consciência de um dever patriótico, o crítico deixa transparecer sempre o mal-estar que o impregna. Todas essas posições, particularmente o sarcasmo demolidor, são véus utilizados para esconder o sentimento mais profundo que o cinema nacional suscita no brasileiro bem formado — a humilhação.

Algumas das ideias que Paulo Emílio Salles Gomes solidificou sobre o cinema brasileiro e seu estado subdesenvolvido, publicadas entre o começo dos anos 1960 até 73, data do seminal ensaio Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, ficaram datadas. Outras, pelo contrário, mostram-se de uma atualidade cruel. Uma delas é o desconforto em lidar com a precariedade do cinema nacional – apesar do falacioso entusiasmo momentâneo provocado ou pela presença em festivais internacionais, no campo da legitimidade, ou no volume de recursos nos editais, no campo da produção.

Paulo Emílio será constantemente evocado nesta edição do Festival de Cinema de Brasília, a 45ª, por ser um dos eixos do evento – a atualidade de seu pensamento deverá nortear as discussões. É preciso lembrá-lo não só para completar o hiato da trajetória do cinema brasileiro nos últimos quarenta anos, mas para clarificar onde a crítica entra na problematização de uma cinematografia. Aí entra o mal-estar da crítica, a posição ambígua do crítico e o longa de abertura, A Última Estação.

Continue lendo o texto sobre a abertura do Festival de Cinema de Brasília na Revista Interlúdio.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Em Brasília

Brasília, a terra que não chove

-- Brasília --

Do calor e falta de chuva de São Paulo para o calor e a falta de chuva de Brasília. Cá estou para mais um Festival de Cinema de Brasília: esta é a 45ª edição e os textos mais elaborados, em forma de diário, ficam para a cobertura na Revista Interlúdio [leia aqui a página de festivais].

De tudo que aconteceu na abertura ontem, uma coisa me chamou atenção, mais até do que A Última Estação, o longa que iniciou os trabalhos: o Secretário de Estado de Cultura, Hamilton Pereira da Silva.

Normais são as participações de políticos, discursos inflados etc. Até aí nada demais, Brasília é igual a Tiradentes, que é igual a Recife. Não conheço de perto o trabalho dele, mas fiquei com um pé atrás ao ouvir alguém da plateia protestando contra o que chamou de não desvio dos recursos do FAC.

Me chamou atenção o tom inadequado, oficioso além da conta, enaltecendo o cinema, mas aparentemente distante dele. Aí eu entendi o que pegou: a pessoa que vi subindo no palco é muito, mas muito semelhante ao personagem comunista do grande filme de Ugo Giorgetti, Cara ou Coroa.

Está lá o personagem, no filme, do diretor de teatro falando de vanguarda, de arte e tal, mas esbarra no entendimento burocrático que o membro do partidão tem acerca da cultura, sua função para o povo. Mais conversa sobre a vanguarda, o Living Theater, a juventude, o trabalho de corpo. Mas o burocrata não entende, só quer saber de algo: vai ou não vai funcionar para a conscientização política a tal peça de teatro que o diretor está montando?

Vendo o secretário ontem -- que, repito, não acompanho o trabalho de perto -- pensei no filme de Giorgetti. Mesmo se passando em 1971 o delineamento que ele faz de certos personagens é tão preciso que permite essa conversa rápida entre o ontem e o hoje.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sobre Cosmópolis (ou o drible de Cronenberg)

Robert Pattinson, o bilionário amortecido

Cosmópolis, o novo de Cronenberg, é o que mais desafia o lugar confortável do espectador entre os longas que estrearam no Brasil neste ano de 2012.

Não que seja este um filme cifrado, hermético, apenas para os iniciados e aprofundados nos códigos do cinema. É, sim, um filme que pede uma saída do lugar passivo – aquele no qual a pessoa espera o filme acontecer – para ir em direção a ele, fazendo, assim, com que ele aconteça.

Há um objetivo inicial do personagem principal, Erick Packer – cortar o cabelo. Mas cada cena constitui uma unidade que tem de se resolver (e se resolve) sozinha. Individualmente provocam um gozo. Juntas formam o mosaico de Erick – e, em última instância, do capitalismo moderno, da especulação financeira, do dinheiro que faz dinheiro, do anestesiamento de tudo que não seja o poder.

Como notou Sergio Alpendre no texto para a Revista Interlúdio [leia aqui a crítica], Cronenberg usa a canastrice de Robert Pattinson a favor de um filme que não usa um registro naturalista. E isso obviamente causa um incômodo a quem entende cinema como sinônimo de imitação da vida, de aposta na ideia da continuidade – acho que Trabalhar Cansa, com pretensões distintas das de Cronenberg, também passou pelo preconceito das “interpretações artificiais”.

Não vale ficar aqui citando todas as cenas do filme, suas possíveis leituras. Ou destacar este ou aquele diálogo num filme cujo encantamento depende demais do texto. Nem há sentido em apenas descrever os procedimentos para um espectador que ainda não viu o filme.

Isso eu deixo para os grandes como o Inácio Araújo, que com sua conhecida habilidade em dar conta da passagem da leitura do filme ao texto crítico, como vê-se nesta crítica aqui.

E uma recomendação viva para que você veja Cosmópolis, o filme do homem-limusine, antes que ele seja chutado das salas.

Um texto mais sério fica para quando o filme sair em DVD.